Foto: Yuri Hichucki
O estado de Nova York está experimentando um modelo de legalização da maconha que pode nos inspirar. Reparação histórica e incentivo aos pequenos produtores fazem parte de uma regulamentação que busca reduzir desigualdades e distribuir oportunidades criadas pelo mercado legal.
Durante décadas, o Brasil sofreu forte influência da política proibicionista capitaneada pelos Estados Unidos. Hoje, ironicamente, enquanto lidamos com as consequências dessa política, diferentes estados dos EUA constroem alguns dos maiores mercados legais de maconha do mundo. Essa perspectiva traz uma oportunidade: se, no passado, importamos a guerra às drogas, agora podemos olhar para as experiências de legalização do país para decidir, com autonomia, o que nos serve.
De volta a Nova York. Quando o estado legalizou o uso adulto da maconha, em 2021, a regulamentação incorporou mecanismos de reparação histórica e equidade ao desenho da nova economia, para ampliar a participação de comunidades afetadas pela proibição, sobretudo negras e latinas, além de pequenos agricultores, mulheres e outros grupos historicamente sub-representados.
Recentemente, a governadora de NY aprovou uma lei que permite a micro empresas licenciadas cultivar, processar e vender seus próprios produtos diretamente aos consumidores em feiras livres e eventos comunitários autorizados. A lógica é simples: quem pagou o preço da proibição não pode ser novamente excluído quando a mesma planta passa a gerar riqueza.
A legalização que defendo para o Brasil se inspira nessa lógica. Que seja popular, capaz de incluir cultivadores, cooperativas, associações e pequenos empreendedores, com modelos de licenciamento compatíveis com diferentes escalas de produção.
Defendo uma regulamentação inteligente, que transforme nossa capacidade agrícola e científica em uma cadeia nacional, envolvendo agricultura, indústria, ciência, medicina e outros setores, e que gere conhecimento, emprego, renda e, sobretudo, protagonismo para quem pagou o preço mais alto da proibição.
Nesse ponto, o exemplo dos Estados Unidos mostra que a legalização, por si, não basta: é essencial que mudança na lei seja pautada na reparação de uma guerra que, durante décadas, concentrou privilégios e espalhou injustiças.







