Eu jogo futebol, mas também fumo! Tem culpa eu?

A longa, silenciosa e mal contada relação dos jogadores de futebol e a maconha
futebol e maconha


O futebol sempre gostou de construir heróis impecáveis. Corpos disciplinados, carreiras exemplares, entrevistas treinadas e uma imagem pública cuidadosamente polida para patrocinadores, dirigentes e emissoras. Mããs existe uma distância enorme entre o futebol televisionado e o futebol real. Uma distância ocupada pela ansiedade, dores crônicas, influências sociais, insônia, história, depressão e, em muitos casos, maconha. Tem que ter pulmão pra alcançar alguns jogadores.

O uso da planta está presente na vida de quem acompanha o jogo, seja torcida ou jogador, seja masculino ou feminino, seja no profissional ou na base, e principalmente na várzea, nos campos de terra batida pelo mundo afora onde o futebol continua romântico, onde a paixão visita a tradição, e a maconha sempre foi tradicional. Como uma medicina tradicional de recuperação de fácil uso. Vinda do bairro, de curandeiras, curandeiros. E olha o fio que isso puxa!


Entendam, maconha e futebol se misturam!


Um exemplo que ilustra bem essa relação, mesmo que precoce, é do nosso luso-brasileiro Matheus Pereira. O agora jogador do Cruzeiro deu os primeiros passos no mundo do futebol no Trafaria, “do lado de lá do rio Tejo”, antes de ser levado para o Sporting. E, segundo palavras do próprio: “Me juntei à rodinha da maconha e passava muito, muito tempo chapado”

Se o torcedor médio fosse acreditar apenas na cobertura esportiva tradicional, imaginaria que a maconha é um elemento raro dentro do futebol profissional. Um episódio isolado. Um desvio de conduta. Um escândalo ocasional. Um devaneio. Mas basta observar a história com mais atenção para perceber que a relação entre jogadores e maconha é antiga, global e muito mais comum do que se admite oficialmente. Inclusive na cena do corre! *shhhh, esse assunto fica pra depois*.

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Chris Armstrong, atuando pelo Crystal Palace, da Inglaterra. | Foto: Reprodução


Entre os primeiros nomes a entrar para essa história está o atacante inglês Chris Armstrong. Em março de 1995, jogando pelo Crystal Palace, ele se tornou o primeiro atleta da história da Premier League a ser oficialmente punido após testar positivo para THC. Hoje o episódio poderia ter outro desfecho, talvez mais banal. Ou talvez com a opinião pública dividida.

Na época, foi tratado como uma crise nacional. Armstrong foi afastado, obrigado a participar de programas de aconselhamento, o famoso “segunda-feira tenho que me apresentar ao psicólogo”, e perdeu partidas importantes, incluindo compromissos decisivos da temporada. Uma grande merda.

O mais curioso é que ninguém jamais conseguiu explicar qual vantagem competitiva a maconha teria proporcionado ao atacante. Ela não o fazia correr mais rápido, saltar mais alto ou finalizar melhor. Ainda assim, a punição serviu como um marco simbólico para o futebol inglês. A mensagem era clara: o problema não era desempenho esportivo. Era comportamento. E aqui há um ponto importante, você que fuma talvez seja sempre estigmatizado, lembre-se disso no seu ativismo.

Armstrong acabou se recuperando profissionalmente. Poucos meses depois foi contratado pelo Tottenham, onde viveria alguns dos melhores momentos da carreira. Mas seu caso inaugurou uma era em que a cannabis passou a ser tratada como ameaça moral dentro do futebol europeu.

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Bernard Lama, ex-goleiro do Paris Saint-Germain, da França. | Foto: Reprodução


Do outro lado do Canal da Mancha, um caso ainda mais emblemático explodiria dois anos depois.

Em 1997, o goleiro francês Bernard Lama, ídolo do Paris Saint-Germain e titular da seleção francesa, recebeu uma suspensão de dois meses após testar positivo para maconha. A punição veio justamente quando Lama era considerado um dos melhores goleiros do mundo e se preparava para disputar a Copa do Mundo que aconteceria na França no ano seguinte. Por conta desse caso perdeu sua vaga de titular na seleção nacional, mas felizmente estava no elenco campeão do mundo em 98.

A repercussão foi gigantesca. Não apenas pelo resultado do exame, mas porque Lama não se encaixava no perfil do “atleta problema” que a imprensa costumava construir. Era respeitado pelos companheiros, admirado pelos torcedores e vivia o auge da carreira.

Mesmo assim, bastou um exame positivo para que manchetes passassem a tratá-lo como um exemplo de decadência esportiva.

O caso de Lama também revela uma característica curiosa do futebol dos anos 1990. Enquanto o álcool e drogas sintéticas continuavam amplamente aceitas dentro da cultura esportiva, a cannabis recebia um tratamento criminal. Jogadores podiam aparecer embriagados em festas, e de ressaca nos treinos do dia seguinte ou ainda embriagados, sem sofrer consequências esportivas significativas. Já um teste positivo para maconha era suficiente para gerar suspensões, perda de espaço no elenco e campanhas de difamação pública.

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Ibrahim Tanko, ex-atacante do Borussia Dortmund, da Alemanha. | Foto: Reprodução


Poucos anos depois, a Alemanha entraria nessa lista.

Em 2001, o atacante ganês Ibrahim Tanko, então jogador do Borussia Dortmund, recebeu uma suspensão de quatro meses após testar positivo para cannabis. Sua punição refletiu o rigoroso regime antidoping da Bundesliga e exemplificou as duras penalidades da época.

As consequências foram além da suspensão, incluindo a perda de oportunidades tanto em seu clube quanto na seleção ganesa. A experiência de Tanko serviu de alerta para outros atletas africanos em ligas europeias.

Novamente surgia a mesma pergunta que acompanhava todos esses casos: por que a punição era tão severa para uma substância que não oferecia vantagem esportiva evidente?

A resposta estava menos na ciência do esporte e mais na política antidrogas da época.

O futebol havia importado a lógica da guerra às drogas e como toda guerra às drogas, ela precisava de exemplos públicos. Precisava de jogadores expostos. Precisava de manchetes. Precisava de culpados.

Talvez o caso mais extremo dessa lógica tenha acontecido fora da Europa.

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Wilder Medina, ex-atacante do Tolima, da Colômbia. | Foto: Reprodução


Jogando pelo Tolima, o atacante colombiano Wilder Medina testou positivo para cannabis em três ocasiões diferentes em 2011, na terceira vez não souberam dizer se o resultado era antigo ou uso recente, ou seja mantenha-se chapado.

Brincadeira à parte, sua trajetória foi usada por jornais e dirigentes como símbolo do fracasso pessoal de um atleta. Mas raramente as reportagens mencionaram o contexto social colombiano, o histórico de violência do país ou os problemas estruturais enfrentados por jogadores vindos das periferias.

A narrativa tinha sempre um alvo individual. A culpa era sempre do jogador. Nunca do sistema.

Enquanto isso, os testemunhos mostram algo interessante.

Historicamente, a maconha aparece com frequência entre os resultados positivos em controles antidoping do futebol mundial. Dados analisados por especialistas em medicina esportiva mostram que, entre as substâncias detectadas em testes realizados no futebol, a cannabis figurava entre as ocorrências mais comuns, superando inclusive alguns agentes tradicionalmente associados ao doping esportivo.

Mas isso não significa necessariamente que os jogadores buscavam melhorar o rendimento, na verdade buscam melhorar a recuperação. Os relatos apontavam para algo muito mais humano, coisas básicas como: Dormir, relaxar, lidar com a ansiedade, controlar dores crônicas, suportar a pressão.

Hoje, olhando para trás, os casos de Chris Armstrong, Bernard Lama e Ibrahim Tanko parecem contar uma história diferente daquela que foi publicada nos jornais da época.

São escândalos por uma substância que jamais foi capaz de decidir uma final de Copa do Mundo. E talvez sejam também um retrato de uma pergunta que o futebol ainda não respondeu completamente: “Meu companheiro apareceu bêbado, se eu fumo, tem culpa eu treinador?”


Marcel Lyra


Social Weed


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