Jef Rodriguez ministrando a aula no curso Cultura de Rua. Foto: @viajantelirico
O Tem Reggae vem participando das aulas do Curso Cultura de Rua, que é uma iniciativa da Batalha do Real com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e, no último dia 27 de agosto, assistimos a uma aula especial ministrada por Jef Rodriguez, com a participação de DJ Cia.
E foi desse encontro que surgiu uma inspiração para falarmos aqui sobre uma comemoração que passou, mas não caiu no esquecimento: o Dia Nacional do Hip-Hop, celebrado em 11 de agosto.
A inspiração não veio somente da herança que o hip-hop carrega, mas porque logo no início da aula, Jef falou dos irmãos Kool Herc e Cindy Campbell e a realização da festa Back to School Jam, em 1973, quando migraram para os Estados Unidos. Assim como, U-Roy, figura chave no desenvolvimento popular da música jamaicana e famoso como toaster, o que chamamos de MC no hip-hop moderno.
Na oportunidade, Herc levou a experiência da cultura dos sound systems caribenhos e, a partir desse caminho, a história contada na aula atravessou o Tem Reggae, pelo retorno à Jamaica através das raízes do hip-hop.
Jef relembrou que a Jamaica criou seu próprio território musical e fez uma comparação com sua história pessoal. Falou sobre a migração dos integrantes de sua família da zona rural de Ilhéus, das plantações de cacau, para o eixo Rio-São Paulo, aproximando essa experiência vivida por essas figuras fundamentais para a criação da cultura hip-hop, como Kool Herc e Cindy Campbell.
Ainda vale apresentar os professores desse encontro? Jef é rapper, DJ e arte-educador, natural de Ilhéus, na Bahia, e vive há 11 anos no Rio de Janeiro. DJ Cia é produtor, artista e integrante do grupo paulista RZO. Ambos são batizados como Jeferson e cada um, carregando décadas de dedicação à cultura hip-hop e bagagens que fizeram desse encontro uma aula nada convencional.
As raízes jamaicanas do Hip-Hop

O encontro desses dois xarás, se configurou numa aula-show. Jef usou a história de Herc e Cindy como ponto de partida para uma retrospectiva das origens do rap, trazendo a influência da música jamaicana e mostrando como a disseminação do reggae contribuiu para a construção desse e de outros ritmos.
A música do gueto norte-americano da década de 70, era marcada pelo funk, e ganha novas possibilidades quando Herc utiliza um “jeitinho” jamaicano para manipular a música norte-americana. Sons de artistas como James Brown, Al Green e George Clinton ganham outras leituras, enquanto as tecnologias passam a permitir novas maneiras de cortar, repetir, reorganizar e construir a música.
É nesse ponto que DJ Cia relembrou o MPC (Music Production Center), equipamento que se popularizou no Brasil entre as décadas de 1990 e 2000 e combina funções de sampling e sequenciamento. Com ele, é possível gravar sons externos, cortá-los, modificá-los e transformá-los em novas sequências rítmicas e melodias. Segundo Cia, o Rio de Janeiro teve uma forte presença no uso desse equipamento.
Cia também relembrou seu primeiro contato com um MPC emprestado por Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr., e falou das experimentações técnicas que já realizava no equipamento, o squash. Recordou ainda artistas como Racionais MC’s e Dexter e a participação de DJs e produtores como Zé Gonzales e Daniel Ganjaman naquele período.
Cia também falou, em como traduzir sentimentos através da música, tanto na maneira de sentir quanto na maneira de fazê-la, e refletiu sobre como as músicas atuais vêm sendo direcionadas.
Dentro dessa perspectiva da tecnologia e subjetividade caminhando juntas. Os conhecimentos foram trazidos na forma como o equipamento interfere na produção musical, e o que se faz com ele também depende de quem está por trás da máquina, muito porque vai refletir referências que acompanham sua história.
O atravessamento do reggae no rap, no rock e nas periferias

Jef retomou as mudanças tecnológicas na produção musical e passou pelos MCs dos anos 1980, citando Run-D.M.C. e transformações percebidas em sua sonoridade de ‘Roots, Rap, Reggae’ a ‘Walk This Way’. A conversa tomou rumo no avanço para grupos que beberam dessas diferentes fontes, como Beastie Boys e, posteriormente, no Brasil, Planet Hemp.
Bad Brains surgiu como outro exemplo importante: uma banda de hardcore formada por integrantes negros e ligada à cultura rastafári que inseria músicas de reggae entre as faixas hardcore de seus álbuns.
A discussão reforçou como o acesso a equipamentos e instrumentos influencia diretamente as possibilidades de produzir música. No Brasil, Chico Science & Nação Zumbi apareceram como exemplo dessa capacidade de construir sonoridades a partir do que se tem disponível, misturando referências e criando outras possibilidades musicais.
Para Jef, esse exemplo e a presença do reggae também está profundamente enraizada nos ritmos de África, presentes na Bahia. A exemplo de sua banda, OQuadro, que carrega uma forte influência do grave que se aproxima do reggae. Como explicou durante a aula, o reggae é o ritmo que sempre se comunicou com a massa na Bahia.
E o Tem Reggae também entrou musicalmente na aula. Jef homenageou nossa presença cantando uma versão de ‘Catch a Fire’, de Bob Marley, que apresenta em seus shows, sobre uma batida, que na ocasião, foi sampleada por DJ Cia. Ficamos, claro, lisonjeados (queria usar algo menos formal, mas não esclarece tão bem rs), assim como os demais alunos que acompanharam e aplaudiram esse momento.
Da Jamaica à Bahia

O percurso seguiu pelo dancehall e pelo ragamuffin, nas rimas construídas sobre as batidas e nas diferentes ramificações que o reggae ganhou ao longo do tempo.
Jef aproveitou para apresentar sua música ‘Luz’, sobre uma batida diferente da original, em dancehall style. A música colaborou para demonstrar como a Jamaica possui uma forte presença musical na Bahia, território de encontro de diferentes ritmos, que também contribuiu para o surgimento do samba-reggae.
A conversa tratou ainda das dificuldades encontradas por artistas que buscam fazer algo diferente das sonoridades predominantes em seus territórios, passando por referências como Raul Seixas e Baco Exu do Blues.
Jef, também fez uma provocação particularmente interessante, sobre a Bahia ter desenvolvido sua própria forma concreta e itinerante de sound system através dos trios elétricos.
E pôde relembrar que uma de suas primeiras oportunidades no Carnaval de Salvador foi justamente em um trio, o Bahia Sound System (antes que vocês pensem em cópia, ele existe antes do Bahiana System), ao lado de sua banda, dos rapazes do Ministério Público e do rapper baiano, Da Ganja.
Cia também contou sua experiência com um trio elétrico, surgida da dificuldade de levar o rap a uma multidão comparável à do Carnaval. Em 2017, realizou em São Paulo um bloco de rap esperando receber cerca de 15 mil pessoas e, como relatou durante a aula, foi surpreendido por um público de aproximadamente 80 mil. A rua oferecia a perspectiva de apresentações ao ar livre, gratuita e abrindo caminhos pra diferentes artistas e mulheres que representam o rap.
A música Gang fez parte dessa conjunção da aula, com seu ritmo groovado, trazendo à lembrança a riqueza rítmica do Brasil e que nunca precisamos esperar que a inovação musical viesse de fora, até porque, nossas inúmeras possibilidades culturais agregam inúmeros sentidos às músicas que chegam por aqui.
E isso pode valer para o reggae, que tem uma construção rítmica que guarda encontros entre diferentes influências caribenhas.
A aula ainda passou por Massive Attack, através de uma música cantada por Horace Andy, destacando a presença do grave jamaicano e essa voz que conduz novamente aos caminhos do reggae.
Novos sons através da diáspora
Mais adiante, Jef resgatou Tia Ciata como uma de nossas grandes matriarcas, por seu papel fundamental na trajetória do samba, estabelecendo um paralelo com a importância de Cindy Campbell para o hip-hop.
Passou também pelo afrobeat, por meio de Fela Kuti, ampliando o olhar para a diáspora rítmica africana, até chegar a artistas contemporâneos nigerianos com influências jamaicanas, Tiwa Savage. Uma das questões mais importantes desse momento.
Os ritmos periféricos sempre nasceram a partir do que era possível construir em seu próprio tempo, dentro da subjetividade marcada à sua época. De acordo com cada território e cada tecnologia disponível, marcada por suas transformações sociais, a música ganhou corpos diferentes e novas maneiras de ser produzida. E o reggae não fugiu disso.
Disseminado por diferentes territórios, culturas e gerações, continua vivendo suas próprias adaptações e produzindo novas formas de fazer, ouvir e dançar. E, esse movimento, é que também ajuda a manter viva essa essência da diáspora africana pelo mundo.
Celebrar o Dia Nacional do Hip-Hop, se torna um exercício de olhar para os caminhos que vieram antes e para as culturas que se encontraram para que ele pudesse existir. E, quando fazemos esse percurso, a Jamaica e o reggae aparecem como fios condutores dessa história.
A cultura de rua, ocupando a universidade

Contudo, há algo que o leitor desta coluna infelizmente não poderá experimentar apenas através do que segue escrito aqui: toda a beleza da troca que aconteceu naquela sala.
Tudo foi construído a partir das vivências do corpo docente do curso Cultura de Rua. Um conhecimento produzido a partir da rua e de histórias relativamente recentes, que começam a ocupar seu espaço dentro da universidade, rompendo barreiras que por muito tempo determinaram quais saberes poderiam ou não estar neste lugar.
Até mesmo os sussurros de um bebê acompanhando sua mãe durante a aula se tornou significativa, lembrando que o acesso das mães a esses espaços também precisa receber sua devida importância.
Sem script rígido e sem um conteúdo programático engessado, tivemos uma aula recheada de conhecimentos construídos pelas experiências de quem vive essa cultura, uma história recente que já alcançou dimensão suficiente para reivindicar também seu registro institucional.
E, pra dar continuidade à energia astral cultivada durante a aula, DJ Cia encerrou o encontro botando mais som, com parte de sua rica curadoria e acho que não havia uma maneira mais coerente que essa, após tudo que vivemos nessa sala de aula.












