O close e o corre de uma campanha eleitoral antiproibicionista

Entre desafios e sementes plantadas pelo caminho, um relato sobre as dores e as delícias de transformar uma luta de décadas em candidatura ao Congresso
O close e o corre de uma campanha eleitoral antiproibicionista


Ser (ou melhor, estar) candidato é viver entre o close e o corre. Entre a alegria de ver uma ideia crescer, o desafio de travar um debate importante, porém cercado de tabus, e a dificuldade de fazê-lo chegar mais longe. Quando essa candidatura é antiproibicionista, as contradições se multiplicam, mas também os encontros, as surpresas e as razões para seguir em frente.

A legalização da maconha é um dos meus propósitos de vida há muito tempo. Das marchas aos tribunais, o ativismo e a litigância estratégica pelo fim da proibição acompanham boa parte da minha trajetória profissional e política. Nas trincheiras da guerra às drogas, achei que conhecia bem as dificuldades de ser antiproibicionista no Brasil. 

Aí resolvi ser candidato a deputado federal.

Essa decisão tem me mostrado a enorme diferença entre defender uma pauta e pedir voto por ela. Afinal, uma candidatura é uma disputa por atenção: é preciso chegar às pessoas, apresentar ideias, romper bolhas e transformar identificação em voto. E, numa campanha antiproibicionista, as barreiras que já conheço de outros tempos ganham novos contornos. 

A começar pelo algoritmo. 

Hoje, boa parte da disputa política acontece nas redes sociais. Quando o assunto é maconha e política de drogas, já sabemos que palavras, imagens e símbolos desse campo semântico enfrentam restrições de impulsionamento, moderação ou alcance. Somam-se a isso as limitações que as plataformas impõem a candidaturas, quaisquer que sejam, que derrubam o alcance orgânico, e o estrago está feito. 

Na prática, uma campanha que existe justamente para falar sobre política de drogas precisa pensar mil vezes em como abordar o tema. Há certa ironia em precisar driblar o tabu para poder disputar politicamente o fim dele. 

Outra barreira, mais sensível ainda, é a dissociação da política de drogas de outras políticas caras ao eleitor, como segurança pública, saúde, trabalho e renda. A ideia de que legalização não dá voto, de que maconha é pauta de nicho ou de que existem assuntos mais importantes para um candidato ao Congresso discutir atinge até grandes entusiastas da planta. 

Eu escuto isso e penso nas famílias que precisam de maconha para tratar questões de saúde, nos jovens presos ou mortos em nome da guerra às drogas, nos territórios atravessados pela violência dessa política e nos recursos desperdiçados com a ilegalidade de um mercado de grande potencial. 

Política de drogas é saúde, segurança pública, ciência, economia, emprego, renda e liberdade. O desafio de uma candidatura antiproibicionista reside em não apenas defender a legalização, mas mostrar que essa política atravessa a vida de milhões de brasileiros, inclusive daqueles que nunca colocaram um baseado na boca.

Por fim, existe, de um lado, a descrença de que a política institucional pode ser ferramenta de reforma e, de outro, a crença de que o poder político corrompe e, logo, todos os políticos são corrompíveis. 

Não é difícil entender de onde vem esse sentimento. A política brasileira oferece exemplos suficientes para alimentar a desconfiança. E, dentro do movimento antiproibicionista, que construiu boa parte de sua história nas ruas, enfrentando o próprio Estado, entrar para a política institucional pode parecer contraditório.

Para mim, é justamente o contrário.

Depois de tantos anos lutando para conquistar direitos caso a caso, ficou evidente que há limites para aquilo que conseguimos transformar apenas nas ruas ou nos tribunais. Se é no Congresso que se criam e alteram as leis que sustentam a proibição, é preciso disputar esse espaço.

E, claro, uma candidatura movida por propósito também reserva suas delícias. Uma delas é perceber a força de uma comunidade disposta a fazer essa ideia germinar, criar raízes e florescer. A cada troca com pessoas que cruzam meu caminho, recebo mais razões para continuar, apesar das dificuldades. 

E assim nasceu nossa campanha de guerrilha, inspirada no cultivo clandestino que espalha sementes onde é possível, ocupa espaços, cria pontos de germinação e faz a campanha crescer pelas mãos de quem acredita nela. É simbólico que uma candidatura pela legalização use uma construção cultural derivada de décadas de proibição para encontrar formas de existir e se espalhar.

Eu não escolhi uma bandeira para construir uma candidatura. Construí uma candidatura porque há uma bandeira que carrego há mais de vinte anos. E talvez esteja aí a maior delícia dessa experiência: descobrir que uma luta que ocupou tantos anos da minha vida é compartilhada por tanta gente disposta a fazê-la avançar.

Uma campanha eleitoral tem algoritmo, agenda, estratégia, cansaço, dificuldades e a matemática dos votos. Mas tem também encontros, afetos, histórias e a sensação de colocar em movimento algo construído coletivamente há décadas.

Muda a trincheira, não a luta.


Erik Torquato


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