Brisas Cotidianas: JR FREITAS

“Brisas Cotidianas” é uma série onde Preta Brisa entrevista personas do campo antiproibicionista e progressista
Brisas cotidianas JR Freitas


Neste entrevista objetiva, falamos sobre as possibilidades de atuação no legislativo estadual, de regulamentação com justiça social, o papel do Estado na disputa da juventude periférica e estratégias para pautar o antiproibicionismo nos espaços de disputa política.


Confira a entrevista na íntegra:

Preta Brisa Jr Freitas


Preta Brisa: Candidato, você aponta frequentemente como a “guerra às drogas” atua como um mecanismo seletivo de criminalização da juventude negra e periférica. Do ponto de vista legislativo e estadual, quais caminhos concretos existem para combater essa abordagem policial e avançar rumo a políticas de redução de danos?


JR Freitas: No Brasil, que carrega uma antiga herança escravista e racista, a criminalização das substâncias sempre foi usada para rotular a população negra, nordestina e periférica como doente ou perigosa. Do ponto de vista da segurança pública, a atual política de proibição serve como o pretexto perfeito para a suspeição, a intimidação e a abordagem policial sistemática de jovens periféricos.

Essa abordagem invasiva viola a esfera privada e íntima das pessoas pobres de forma diária. Como candidato a deputado estadual, quero usar o papel fiscalizador do mandato para cobrar transparência e controle sobre a atuação policial, enfrentar o viés racista das abordagens e denunciar práticas que encarceram e matam a juventude periférica sob o pretexto do combate às drogas.

Ao mesmo tempo, precisamos tirar recursos de uma lógica puramente militarista e fortalecer a rede estadual de redução de danos, investindo em saúde pública, acolhimento psicossocial e tratamento comunitário pelo SUS. A resposta do Estado precisa ser cuidado, dignidade e informação honesta sobre as substâncias, e não apenas repressão.


Preta Brisa: Enquanto a pauta do uso terapêutico e industrial da cannabis ganha espaço nos debates institucionais, a população periférica continua sendo a principal vítima da repressão. Como garantir que a regulamentação não beneficie apenas o agronegócio e a indústria farmacêutica, mas também repare historicamente as comunidades afetadas pelo proibicionismo?


JR Freitas: O debate atual sobre a maconha no Brasil está muito concentrado no uso terapêutico. Isso é fundamental para salvar vidas, mas corremos o risco de ver a regulamentação beneficiar apenas o agronegócio e as grandes multinacionais farmacêuticas, gerando uma dependência tecnológica semicolonial de insumos importados.

Enquanto as corporações lucram bilhões, a periferia, que pagou com sangue e prisão a conta do proibicionismo, continua excluída desse processo. Uma regulamentação justa precisa ter reparação histórica no centro. Eu defendo mecanismos que garantam espaço para pequenos produtores, agricultura familiar e cooperativas, inclusive formadas por trabalhadores das periferias e comunidades atingidas pela violência de Estado, participarem do cultivo, processamento e da cadeia produtiva.

Também defendo que uma parte significativa da arrecadação gerada por uma eventual cadeia regulamentada da cannabis seja destinada obrigatoriamente para políticas de assistência social, saúde mental e infraestrutura urbana nas periferias. Não dá para transformar uma política que destruiu comunidades inteiras em mais um negócio concentrado na mão dos mesmos de sempre.


Preta Brisa: Em muitos territórios precarizados, a falta de oportunidades formais de trabalho faz com que a economia informal cooptada pelo crime seja uma das poucas alternativas de renda. Qual deve ser o papel do Estado na criação de alternativas de trabalho produtivo, cultura e renda que disputem essa juventude com o crime organizado?


JR Freitas: O Estado proibicionista falha porque tenta disputar a juventude com a polícia na mão, enquanto o crime organizado oferece uma das poucas alternativas de renda diante da ausência generalizada de direitos trabalhistas e da intensificação da precarização do trabalho.

Para mudar esse cenário, o Estado precisa chegar antes da polícia e chegar com oportunidade. Isso significa fomentar o cooperativismo e a economia solidária, simplificar o acesso a financiamento e apoiar iniciativas autogeridas para que a juventude possa trabalhar, produzir e construir autonomia sem ficar refém nem da precarização das plataformas digitais nem do crime.

E significa também tratar a cultura periférica como política pública de emancipação. Precisamos ampliar as verbas descentralizadas para hip-hop, teatro de rua, esporte e cultura produzida nas quebradas. Eu falo isso pela minha própria história: o rap salvou a minha vida e me ajudou a construir consciência de classe. A cultura de rua é uma das ferramentas mais fortes que temos para disputar a cabeça, a perspectiva de futuro e a dignidade dos nossos meninos.


Preta Brisa: Debater antiproibicionismo dentro de uma Assembleia Legislativa predominantemente conservadora é um desafio constante. Qual estratégia você utiliza para pautar o antiproibicionismo não como um debate moral, mas como uma questão urgente de economia, saúde pública e direitos humanos?


JR Freitas: Para enfrentar uma Alesp predominantemente conservadora, a tática é não cair em provocação moral ou religiosa de quinta série. Eu quero trazer o debate para o campo da racionalidade econômica, da eficácia administrativa, da saúde pública e dos direitos humanos.

A gente precisa discutir, por exemplo, quanto São Paulo gasta para sustentar o superencarceramento produzido pela guerra às drogas e qual é o resultado concreto disso para a segurança da população. Manter uma política que enche presídios de gente pobre enquanto o tráfico continua funcionando é também uma irresponsabilidade com o dinheiro público, porque esses recursos poderiam fortalecer escolas, hospitais, prevenção e políticas sociais.

O mesmo vale para a saúde: o proibicionismo atrasa a ciência, dificulta o acesso a tratamentos e encarece medicamentos derivados de cannabis. Uma regulamentação responsável pode reduzir custos, ampliar o acesso de pacientes a tratamentos, incentivar pesquisa e produção nacional e diminuir a dependência de insumos importados.

Para mim, o debate tem que sair do moralismo e responder a uma pergunta simples: a política atual funciona? Se não funciona e ainda produz morte, prisão, desigualdade e gasto público sem resultado, então nós temos obrigação de construir outro caminho.


Preta Brisa


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