Foto: Yuri Hichucki
Antes do sol nascer, as pessoas já consultam o celular para saber se há operação policial, confronto armado ou outra ocorrência capaz de paralisar o bairro. A rotina é organizada em torno da possibilidade da violência: crianças faltam à escola, trabalhadores atrasam ou deixam de sair de casa, famílias vivem sob ameaça constante de que a tragédia bata à porta. Esse é o retrato da periferia brasileira no front da guerra às drogas.
Por isso, a frase “paz na favela e maconha no quintal”, dita pelo influenciador cearense conhecido como Pai do Garel, que ganhou projeção defendendo a regulamentação da planta a partir da realidade da periferia, ressoa tanto com as minhas próprias convicções.
Num simples arranjo de palavras, ele entrelaça várias camadas do debate público brasileiro, como segurança, justiça social, direito à saúde e liberdade. Afinal, não dá para falar de paz na favela quando sua população vive entre o fogo cruzado de operações policiais e o domínio de organizações criminosas fortalecidas pela ilegalidade do mercado de drogas. Da mesma forma, é difícil imaginar maconha crescendo livremente no quintal em territórios onde o cultivo de uma planta ainda é justificativa para repressão e violência.
Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou mais de 6.600 mortes decorrentes de intervenções policiais em 2025, o maior número da série histórica, iniciada em 2016. São 18 pessoas mortas por dia por agentes de segurança. E isso tem tudo a ver com uma política de drogas que insiste em tratar territórios como campos de batalha e moradores como danos colaterais. Dá para chamar isso de segurança pública?
Segurança não deve ser medida pela quantidade de operações realizadas, nem pelo número de prisões efetuadas ou de armas apreendidas – apesar de muitas pessoas ‘de bem’ comemorarem esses feitos. Segurança é a garantia de que crianças possam brincar na rua, que trabalhadores voltem para casa sem medo e que mães não precisem interromper a rotina porque um tiroteio começou no caminho da escola.
Se a periferia representa o espaço onde a guerra às drogas se manifesta de forma mais brutal, o quintal representa o limite que o Estado insiste em atravessar. Por isso, a imagem da “maconha no quintal”, sobretudo nas favelas, é a metáfora da liberdade de existir sem a intervenção estatal que pune em vez de cuidar. É o direito de cultivar o próprio remédio sem depender de uma decisão judicial; de acessar a planta e seus produtos sem precisar escolher entre comprar um medicamento ou pagar as contas do mês; de não ser tratado como criminoso por uma conduta que não coloca outras pessoas em risco.
A pergunta que fica é: quem tem medo do nosso quintal? A polícia? A indústria farmacêutica, bélica ou do álcool? O lobby das comunidades terapêuticas? A verdade é que a manutenção do proibicionismo é resultado de uma convergência de poderes, institucionais e econômicos, que atuam em várias esferas da política para defender interesses próprios. A planta livre é dinheiro deixado de fora da mesa, é monopólio se desfazendo, é uma desculpa a menos para perseguir e controlar o povo pobre e periférico. É uma moeda a menos na grande mola que gira a economia da guerra.
A potência da frase de Pai do Garel está na crítica a um modelo de sociedade que transformou, por decisão política, racista e econômica, a periferia em palco de batalha – e que usa a maconha como inimiga para legitimar a manutenção do sistema. Por isso, eu defendo o fim da proibição: para que a liberdade de se relacionar com uma planta ancestral não dependa de CEP, cor da pele ou renda – seja no campo, na cidade, nos centros urbanos e, sobretudo, nas periferias. Porque ninguém deveria ter medo da maconha no quintal.







