Quem tem medo da maconha no quintal?

Se a periferia representa o espaço onde a guerra às drogas se manifesta de forma mais brutal, o quintal representa o limite que o Estado insiste em atravessar
Erik Torquato Maconha no Quintal

Foto: Yuri Hichucki


Antes do sol nascer, as pessoas já consultam o celular para saber se há operação policial, confronto armado ou outra ocorrência capaz de paralisar o bairro. A rotina é organizada em torno da possibilidade da violência: crianças faltam à escola, trabalhadores atrasam ou deixam de sair de casa, famílias vivem sob ameaça constante de que a tragédia bata à porta. Esse é o retrato da periferia brasileira no front da guerra às drogas.

Segurança não deve ser medida pela quantidade de operações realizadas, nem pelo número de prisões efetuadas ou de armas apreendidas – apesar de muitas pessoas ‘de bem’ comemorarem esses feitos. Segurança é a garantia de que crianças possam brincar na rua, que trabalhadores voltem para casa sem medo e que mães não precisem interromper a rotina porque um tiroteio começou no caminho da escola. 

Se a periferia representa o espaço onde a guerra às drogas se manifesta de forma mais brutal, o quintal representa o limite que o Estado insiste em atravessar. Por isso, a imagem da “maconha no quintal”, sobretudo nas favelas, é a metáfora da liberdade de existir sem a intervenção estatal que pune em vez de cuidar. É o direito de cultivar o próprio remédio sem depender de uma decisão judicial; de acessar a planta e seus produtos sem precisar escolher entre comprar um medicamento ou pagar as contas do mês; de não ser tratado como criminoso por uma conduta que não coloca outras pessoas em risco.

A pergunta que fica é: quem tem medo do nosso quintal? A polícia? A indústria farmacêutica, bélica ou do álcool? O lobby das comunidades terapêuticas? A verdade é que a manutenção do proibicionismo é resultado de uma convergência de poderes, institucionais e econômicos, que atuam em várias esferas da política para defender interesses próprios. A planta livre é dinheiro deixado de fora da mesa, é monopólio se desfazendo, é uma desculpa a menos para perseguir e controlar o povo pobre e periférico. É uma moeda a menos na grande mola que gira a economia da guerra.

A potência da frase de Pai do Garel está na crítica a um modelo de sociedade que transformou, por decisão política, racista e econômica, a periferia em palco de batalha – e que usa a maconha como inimiga para legitimar a manutenção do sistema. Por isso, eu defendo o fim da proibição: para que a liberdade de se relacionar com uma planta ancestral não dependa de CEP, cor da pele ou renda – seja no campo, na cidade, nos centros urbanos e, sobretudo, nas periferias. Porque ninguém deveria ter medo da maconha no quintal.


Erik Torquato


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