Por que a planta?
Por que não um conceito filosófico, um movimento estético? Por que colocar uma planta, essa planta, no centro de uma pesquisa artística?
A resposta começa numa frase que carrego nos cadernos há anos, do filósofo Giorgio Agamben: “o contemporâneo é aquele que não coincide perfeitamente com o seu tempo”. Quem pesquisa a cannabis no campo da arte não coincide com o tempo do proibicionismo, não coincide com o estigma, não coincide com a narrativa dominante sobre o que a planta é e o que ela representa. E é exatamente nessa não coincidência que a pesquisa se torna possível, e necessária.
A virada vegetal
Existe um movimento crescente na filosofia e nas humanidades contemporâneas que ficou conhecido como “virada vegetal”, uma revisão profunda da forma como o pensamento ocidental tratou as plantas ao longo de séculos. Por muito tempo, as plantas foram compreendidas como seres passivos, meros recursos a serviço da vida animal e humana. Sem movimento, sem sistema nervoso, sem voz, elas ocupavam o degrau mais baixo da hierarquia dos seres vivos.
Pesquisadores como Stefano Mancuso, botânico italiano e um dos maiores nomes dessa virada, demonstraram que as plantas possuem formas sofisticadas de inteligência, comunicação e memória. Elas sentem, respondem, aprendem e se adaptam, apenas em temporalidades e linguagens diferentes das nossas.
Mancuso argumenta que a inteligência vegetal é distribuída: não existe um centro de comando, como o cérebro nos animais, mas uma rede descentralizada onde cada parte do organismo participa das decisões. É uma forma de existir no mundo radicalmente diferente, e radicalmente mais antiga.
Mas é o filósofo italiano Emanuele Coccia, em “A vida das plantas: uma metafísica da mistura”, quem vai mais fundo nessa questão. Para Coccia, as plantas não apenas habitam o mundo, elas o produzem. A fotossíntese não é só um processo biológico, é um ato cosmogônico, uma forma de fazer mundo a partir da mistura entre luz, ar e matéria.
As plantas vivem numa imersão total no ambiente, sem fronteira rígida entre dentro e fora, entre self e mundo. Elas são, antes de tudo, seres da mistura. E é essa lógica de mistura, entre espécies, entre materiais, entre o natural e o artificial, que atravessa toda a minha pesquisa.
Como escreve Coccia, a terra se torna o espaço metafísico do sopro graças às plantas. A fumaça, o pólen, a semente, tudo o que flutua e se mistura no ar, são expressões dessa figurabilidade infinita que só o vegetal conhece.
A planta, nesse sentido, não é um objeto de estudo passivo. É um sujeito com o qual nos relacionamos. E quando coloco a cannabis no centro da minha pesquisa artística, estou seguindo essa virada: tratando a planta não como tema, mas como referencial, como uma forma de pensar, de sentir e de existir que ilumina dimensões da experiência humana que outras abordagens não alcançam.
A planta como professora
Nas minhas anotações de pesquisa há uma frase que sempre volta: a natureza como professora. Não é uma ideia nova, culturas indígenas e tradições ancestrais de todo o mundo sempre souberam que a floresta ensina, que a planta orienta, que o território fala. O que é novo, ou melhor, o que está sendo recuperado, é a disposição do pensamento contemporâneo ocidental de levar essa ideia a sério.
O filósofo Michael Marder, um dos principais pensadores da virada vegetal, propõe o conceito de “pensamento vegetal”, uma forma de cognição que não opera por exclusão e hierarquia, mas por abertura, porosidade e coexistência. A planta não divide o mundo em sujeito e objeto, em dentro e fora, em eu e outro. Ela cresce para o que lhe é favorável, se dobra diante do que é adverso, cria simbioses onde outros organismos veriam apenas competição.
Minha prática artística tenta habitar esse modo de pensar. Quando trabalho com materiais orgânicos, galhos secos, seda, fibras naturais, ao lado de elementos sintéticos como filamento plástico e espuma expansiva, não estou simplesmente misturando materiais.
Estou propondo uma lógica de coexistência onde o natural e o artificial não se excluem, mas se atravessam, se modificam, criam juntos algo que nenhum dos dois produziria sozinho. É pensamento vegetal materializado em escultura.

A cannabis como caso singular
Dentro do universo vegetal, a cannabis ocupa uma posição singular, e não apenas pela relação com o sistema endocanabinoide que explorei no artigo anterior. A cannabis é uma das plantas que mais profundamente moldou culturas humanas ao longo da história.
Do uso ritual nos templos hindus à medicina tradicional chinesa, do papel de cânhamo nas rotas comerciais medievais à cultura rastafári, à contracultura dos anos 1960, ao movimento pela legalização que hoje ganha força em todo o mundo, a planta esteve presente nos momentos decisivos da história humana com uma consistência que poucas outras espécies podem reivindicar.
E ainda assim, durante quase um século, essa presença foi silenciada, criminalizada e apagada. O proibicionismo não apenas proibiu o uso, tentou apagar a memória. Tentou fazer com que a cannabis deixasse de ser uma planta professora para se tornar uma ameaça sem história, sem cultura, sem raízes.
Colocar a cannabis como referencial teórico de uma pesquisa artística é, portanto, um gesto de recuperação. É afirmar que essa planta tem uma história intelectual, espiritual e cultural que merece ser investigada com a mesma seriedade com que investigamos qualquer outro campo do conhecimento humano.
A planta como matéria e como signo
Nas minhas trocas de ideias com meu caderno, há uma frase que me acompanha há muito tempo: as matérias são palavras. Cada material que escolho para uma escultura não é neutro, ele carrega significados, histórias, associações. A seda remete ao ritual do fumar. O galho seco remete à natureza que persiste mesmo depois da poda. A cerâmica fria remete ao artesanato, ao trabalho da mão, à paciência do fazer lento.
Quando esses materiais encontram formas inspiradas na cannabis, a geometria do bud, a estrutura do tricoma, o padrão de crescimento das folhas, criam-se camadas de significado que vão além do decorativo. A obra se torna um campo semiótico, isto é, um espaço onde diferentes sistemas de signos se encontram e produzem sentido novo. Vai além da beleza estética enquanto escultura É uma proposição sobre o que a planta significa, e sobre o que ela poderia significar se a déssemos a chance de ensinar.

O filósofo Umberto Eco, na sua teoria da obra aberta, argumenta que uma obra de arte é aquela que pode ser compreendida segundo múltiplas perspectivas sem jamais se esgotar em nenhuma delas. A planta, como referencial teórico, funciona da mesma forma. Ela é ao mesmo tempo biologia, cultura, política, espiritualidade, história e matéria. Cada perspectiva revela uma dimensão. Nenhuma perspectiva a esgota.
É por isso que a coloco no centro da pesquisa. Não porque seja simples, mas porque é inesgotável.
O contemporâneo que não coincide
Volto à frase de Agamben com a qual abri este artigo. O contemporâneo não é quem está na moda, quem segue o zeitgeist, quem reproduz o que o mercado de arte pede. O contemporâneo é quem enxerga no escuro do próprio tempo, quem percebe o que está sendo silenciado, o que está sendo esquecido, o que está sendo proibido de existir.
Pesquisar a cannabis no campo da arte é um ato contemporâneo nesse sentido preciso. É enxergar no escuro do proibicionismo, da censura algorítmica, do estigma cultural, e insistir que essa planta tem algo a dizer, sobre o corpo, sobre a história, sobre as formas de existir que o pensamento dominante tentou tornar invisíveis.
A planta não é o tema da minha pesquisa. É a lente através da qual olho para o mundo. E o que ela revela, cada vez que pego num galho, numa folha de seda, num filamento de plástico modelado para imitar a geometria de um bud, é que o invisível sempre encontra uma forma de aparecer.
A arte é uma dessas formas.
Deixo abaixo um reel sobre as pesquisas que venho desenvolvendo no audiovisual, acende aquela e vem comigo. “Boas Brisas”.

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Revisão: Vitória Linné, cientista social formada pela UFSCar (São Carlos). vitorialinne@gmail.com| @vitoria_linne | Currículo Lattes






