No dia 20 de outubro, terça-feira, ocorreu mais um evento histórico na cena reggae no Rio de Janeiro “‘Reggae rude pela democracia” com produção e curadoria de Juju Rude, mulher negra, favelada, compositora e cantora. Teve a presença de vários convidados especiais do reggae no Rio e outros estados, mostrando que o reggae se posiciona frente à ameaça à democracia e de novo, na luta contra o fascismo.
Nesse texto introduziremos o papel do reggae na luta pelos direitos democráticos do povo brasileiro, protagonismo feminino das mulheres negras que vem contribuindo para o crescimento do reggae no Brasil e um panorama geral da situação política.
A extrema direita nos últimos anos ganhou espaço na política nacional com seus deputados e senadores no congresso, também com apoio externo do imperialismo norte americano e outras influências mais degeneradas e genocidas como por exemplo, Netanyahu (Primeiro-ministro de Israel). Além disso, os acordos políticos e ganhos da bancada do boi e da bíblia foram fundamentais para esse crescimento e desenvolvimento.
É importante começar por esses fatores políticos nacionais porque é onde o reggae brasileiro se integra hoje em dia, o reggae sempre foi um gênero musical da cultura preta negligenciado pelo seu papel revolucionário e disruptivo de levar o empoderamento e transformação para as pessoas, por isso é tão revolucionário o reggae nesse momento de tensões e conflitos.
Em plenas ameaças democráticas dos nossos direitos e continuidade da nossa existência, é revolucionário sim o evento “Reggae Rude pela democracia” com produção de uma mulher negra, com uma roda de conversa com três mulheres negras de áreas diferentes do reggae expressando suas contribuições e posicionamentos frente ao cenário da música e política.
Vários artistas convidados mostrando suas produções musicais e posicionamentos contra a extrema direita e SLAM mostrando que a rua é palco de poesia mesmo. Na prática é um dever de todos os artistas e uma tarefa revolucionária de não separar a arte dos dilemas do povo, principalmente um gênero musical como o reggae que esteve à frente de tantos processos de luta do povo jamaicano contra a opressão dos colonos ingleses e da burguesia branca jamaicana.
Aqui no nosso país, também não será diferente. O SLAM foi marcado pela presença forte de vários guerreiros das artes, transformando rima e poesia em um grito de guerra contra as mazelas sociais. A roda de conversa “Dona do Meu Reggae — Mulheres que Fazem Acontecer, com Carol Santos, Cindy Jones e Denise Brito” foi um momento de troca necessária para entendermos onde estamos, qual nosso caminho e onde conjuntamente queremos chegar.

Esse tipo de encontro me ocorreu a lembrança de momentos decisivos da história que os negros se reuniam para se organizar, enfrentar e derrubar o colonizador, vimos isso acontecer principalmente no Haiti, onde através da religião do Vodu os negros conseguiram protagonizar uma das principais história revolucionário dos negros na América. Celebrar a cultura reggae é refletir coletivamente quais serão os próximos passos para uma transformação social de fato efetiva para o nosso povo e não se iludir com as leis desse sistema.
Durante o evento os artistas convidados foram os selectas Carlos Marley, Juca, Lion Dornelas, Ajani e Gunn.R. Artistas no microfone foram, Jeru Banto, Jr. Ramus, Jef Rodrigues, Breddas, Mis Ivy (SP), Patchamora e Arcanjo Ras (SP) são nomes que vem representando o reggae raiz em solo carioca, com uma contribuição rica e necessária, expressando as realidades, sentimentos, aspirações e mudanças que desejamos que ocorra. Todos os participantes desse evento representam corpos políticos na Babilônia e nesse jogo de interesse dos patrões onde os corpos negros são sempre alvos.
Nesse encontro falamos sobre racismo, desigualdade, machismo e a precarização do trabalho dos artistas de reggae.
A desvalorização do reggae não é um problema ocasional, a desvalorização do reggae é um projeto político acordado entre as pessoas brancas com dinheiro. São várias medidas de invisibilidades e negações da existência dos artistas, criando uma corda invisível no pescoço para impedir que o artista de reggae cresça e tenha seu devido valor como trabalhador das artes em nome da nossa cultura.
Por isso que o “Reggae rude pela democracia” foi um acontecimento histórico, sobretudo diante do cenário político que se insere. Como forma de compreender melhor a dimensão desse momento, retomamos às raízes africanas do reggae para evocar a resistência heroica do povo etíope diante da invasão fascista liderada por Mussolini. Um contexto em que Haile Selassie ganha papel de destaque, não apenas pelo seu papel de destaque político, mas também pelo simbolismo de sua trajetória que contribuiu para a construção da identidade rastafári.

Para nós que fomos ensinados desde crianças a criar rechaço com o continente africano, como se toda história negra se resumisse à escravidão, descobrir que a Etiópia representa a luta por libertação do povo negro.
É nesse processo que o reggae se torna essa ponta de lança: resgata histórias e fortalece a auto estima negra através da música, unindo pessoas de diferentes lugares e cores, na luta contra o racismo e exploração colonial. É assim que a música mostra seu poder e força, se manifestando como uma tecnologia ancestral necessária de conscientização e coletivização do povo oprimido.
O reggae rude ocorre em uma semana marcada por inúmeras manifestações populares por todo país, há décadas que não se vê uma manifestação popular tão grande como essa que está ocorrendo nesse momento, bairros populares como São João de Meriti, São Gonçalo, Méier, Madureira e outros foram ocupados por milhares de pessoas, entre eles: adultos, crianças, jovens. Todos reunidos de uma forma empolgantes, confiantes e fortalecedores.
Felizmente o resultado eleitoral presidencial despertou no povo um desejo imparável de transformação e continuidade dos nossos direitos. Muitas pessoas que no último período estavam sem consciência e esperança foram tomadas por esse sentimento de novo, verdade que a revolução se manifesta assim, com indignação popular e luta coletiva.
Estamos contentes de ser parte disso, de mostrar que o reggae tem lado sim, não existe reggae de direita, não existe artista de reggae que defende a extrema direita, o lado do reggae é um só, ao lado do povo oprimido de todo e qualquer lugar do mundo. Lembrando sempre para todos nós que a revolução virá e trará nosso direito à música e poesia por completo.












