Aconteceu neste sábado a 1ª Marcha da Maconha de Saquarema, que é uma forma de manifestação reproduzida em diversas cidades não só do Brasil, mas também no mundo. Construída de forma autônoma, com forte participação feminina, por mãos de trabalhadores comuns que para além da correria cotidiana, se dedicaram a pensar em como realizar uma atividade que levasse informação, crítica social e a necessidade da urgência da pauta.
Essa edição de Saquarema, contou com diversos setores de trabalhadores da área da saúde, psicólogos, farmacêuticos, comerciantes, artesãos, palhaços, professores, pintores, motoristas, advogados, ciclistas, skatistas, crianças e até cachorros que acompanharam do início ao fim pelo bairro de Itaúna. O som foi sob comando da Dj Zazá que abriu o evento, embalou a oficina que aconteceu com as crianças até o microfone ser aberto para as falas dos ativistas.
Em quase uma hora de microfone aberto, foi falado sobre o negacionismo, pânico moral, chacinas e repressão como desdobramentos da proibição, a necessidade e aplicação prática das políticas já existentes de distribuição do medicamento pelo SUS, as diversas possibilidades de aplicações na construção civil, indústria têxtil, alimentícia e desburocratização para acesso ao tratamento (que hoje, no Brasil, em sua maioria ainda está reservado às pessoas com melhores condições financeiras) e por tanto, a urgência da reparação histórica.
O Bloco Planta na Mente também entrou em cena, e de forma lúdica chamou atenção por onde passava trazendo os moradores aos portões para verem a banda passar, interagirem e receberem os panfletos e revistas informativas que foram distribuídos durante o percurso.

Sob o tema “Natural é a planta, não a proibição”, o movimento na cidade surge da necessidade de ampliar o debate sobre política de drogas para além dos grandes centros, trazendo essa discussão para um território marcado por contrastes sociais e forte presença turística. Sobretudo em Saquarema, cidade marcada pelo conservadorismo, que apesar de ter muitos usuários, ainda são muito estigmatizados pelo uso.
A cidade do Rio de Janeiro foi o primeiro local no mundo a proibir a maconha em 1830 com a Lei do Pito do Pango –na época, cidade com uma das maiores concentrações da população negra no Brasil-, mostrando seu caráter evidentemente racista, aplicando, inclusive, pena mais pesada aos negros. A perseguição não ficou só aí, se estendeu aos praticantes da capoeira e religiões de matrizes africanas e também contou com o mau caratismo de José Rodrigues Dória, médico que consolidou o discurso higienista sobre a planta e os usuários.
Posteriormente, foram se desenvolvendo várias narrativas da maconha como “um problema social”. A Marcha vem justamente para romper com esse discurso anticientífico construído a 196 anos. Provocar e ocupar as ruas, se organizar é sair da passividade, além de ser uma das formas de nos colocarmos como autores e motores da realidade que queremos. Pelo acesso, autonomia, reparação e paz: que venham tantas marchas quanto forem necessárias.








