Construído diferente: o movimento que está mudando a relação entre cannabis, recuperação e alta performance na América Latina

Em entrevista à Sports Cannabis, falei sobre Ironman, ciência e como evidências estão substituindo antigos estigmas sobre os canabinoides no esporte
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O futuro da cannabis no esporte talvez não seja definido pela controvérsia, mas pela ciência. Em diferentes partes do mundo, uma nova geração de atletas começa a questionar décadas de percepções construídas em torno da cannabis, trazendo para o centro do debate temas como recuperação, sono, saúde mental, longevidade esportiva e qualidade de vida.

Na América Latina, um dos nomes envolvidos nessa transformação é o brasileiro Fernando Paternostro, fundador do Atleta Cannabis, plataforma dedicada à educação científica sobre cannabis, esporte e performance humana. Atleta de endurance, duas vezes finalista de provas Ironman, quatorze vezes finalista de Ironman 70.3 e um dos poucos atletas a completar todas as etapas oficiais Ironman realizadas no Brasil durante a temporada de 2025 — conquistando o reconhecimento Warrior Trophy — Fernando construiu sua trajetória entre milhares de quilômetros nadando, pedalando e correndo.

Mas sua principal contribuição talvez não esteja apenas nas linhas de chegada. Ao unir experiência esportiva, educação científica e comunicação, ele busca ampliar uma discussão ainda cercada por preconceitos: qual pode ser o papel dos canabinoides dentro de uma abordagem moderna de saúde, recuperação e alta performance?

Em entrevista à Sports Cannabis, Fernando falou sobre ciência, disciplina, regulamentação antidoping, limites humanos e a importância de substituir opiniões por evidências.


Minha missão é conectar ciência, esporte e educação sobre cannabis


Sports Cannabis: Você construiu uma trajetória como atleta de endurance e também como educador baseado em ciência no universo da cannabis. Como define sua missão hoje nessa interseção entre esporte, saúde e educação?

Fernando Paternostro: Meu nome é Fernando Paternostro. Sou empreendedor brasileiro, atleta de endurance e educador sobre cannabis. Completei diversas provas de Ironman e Ironman 70.3, incluindo todos os eventos oficiais Ironman realizados no Brasil durante a temporada de 2025.

Sou fundador do Atleta Cannabis, uma plataforma baseada em ciência dedicada a explorar a relação entre canabinoides, performance humana, recuperação e saúde. Meu trabalho é traduzir evidências científicas em conhecimento prático para atletas, pacientes, profissionais da saúde e para o público em geral. Minha missão é construir uma ponte entre ciência, esporte e educação sobre cannabis.

Existe uma enorme quantidade de desinformação sobre cannabis, especialmente dentro do ambiente esportivo. Quero ajudar a criar uma conversa baseada em evidências, onde decisões sejam guiadas por dados, não por ideologia. Seja um atleta de elite, alguém que pratica esporte por qualidade de vida ou um paciente buscando melhora de saúde, todos merecem acesso a informações confiáveis.


Disciplina é mais importante do que motivação


Sports Cannabis: Antes do Atleta Cannabis, você já competia em alto nível no triathlon. O que levou você ao esporte de endurance e o que essa jornada ensinou sobre disciplina, resiliência e performance humana?

Fernando Paternostro: O que me atraiu para os esportes de endurance foi o desafio de descobrir onde realmente estavam meus limites. O triathlon é único porque expõe constantemente nossas fraquezas. Você não consegue se esconder delas. Com o passar dos anos, o esporte me ensinou que disciplina é muito mais importante do que motivação.

A motivação aparece e desaparece. A consistência é o que realmente constrói performance. O esporte de resistência também me mostrou que resiliência não significa simplesmente suportar sofrimento indefinidamente. Resiliência é adaptação. É aprender, ajustar e continuar avançando apesar dos obstáculos.


A recuperação virou quase uma responsabilidade em tempo integral


Sports Cannabis: Completar todas as provas oficiais Ironman do Brasil em uma mesma temporada é algo raro. Qual foi o custo físico e mental desse desafio?

Fernando Paternostro: O custo físico foi grande, mas o mental foi ainda maior. A recuperação passou a ser quase uma responsabilidade em tempo integral. Cada treino, cada refeição, cada hora de sono e cada estratégia de recuperação importavam.

O que mais me surpreendeu foi perceber que muitas vezes o corpo é capaz de muito mais do que a mente acredita inicialmente. Essa experiência mudou minha compreensão sobre limites. Muitos limites que percebemos são mecanismos de proteção do cérebro, não necessariamente barreiras fisiológicas reais.


Meu interesse inicial pela cannabis não era performance. Era recuperação.


Sports Cannabis: Em qual momento da sua carreira esportiva você começou a perceber uma conexão entre cannabis, recuperação e desempenho?

Fernando Paternostro: No início, meu interesse não era melhorar performance. Era recuperação. Como muitos atletas de endurance, eu buscava maneiras de melhorar qualidade do sono, reduzir percepção de dor muscular, controlar ansiedade e recuperar melhor entre blocos intensos de treinamento.

O ponto de virada aconteceu quando percebi uma grande desconexão entre aquilo que atletas relatavam, aquilo que pacientes experimentavam e aquilo que a literatura científica começava a investigar. Essa lacuna fez com que eu quisesse estudar o tema de maneira mais profunda e documentar minhas próprias experiências de forma estruturada e baseada em evidências.


Experiência pessoal gera hipóteses, não conclusões


Sports Cannabis: Você testa e documenta o uso de canabinoides em condições reais de endurance. Como separa experiência individual de evidência científica?

Fernando Paternostro: Esse é um dos princípios mais importantes do meu trabalho. Experiência pessoal gera hipóteses, não conclusões. Se eu percebo alguma mudança no sono, recuperação ou ansiedade após utilizar um canabinoide, essa observação vira uma pergunta, não uma prova.

Depois disso, busco literatura científica, estudos clínicos, pesquisas sobre mecanismos biológicos e consensos de especialistas para entender se existe evidência sustentando aquela observação. Relatos individuais podem ser pontos de partida importantes. Mas nunca devem substituir evidência científica.


A cannabis ainda é vista através de estereótipos antigos


Sports Cannabis: Dentro da cultura do triathlon de alta performance, onde precisão e pequenos ganhos fazem diferença, a cannabis ainda é mal compreendida?

Fernando Paternostro: Em muitos ambientes esportivos, a cannabis ainda é vista através de estereótipos ultrapassados. Muitas pessoas associam exclusivamente ao uso recreativo, prejuízo de desempenho ou falta de motivação. Essa percepção ignora a complexidade do sistema endocanabinoide e o crescente volume de pesquisas investigando canabinoides em áreas como sono, dor, ansiedade, inflamação e recuperação.

Mas a conversa mudou muito na última década. Mais atletas, treinadores, médicos e pesquisadores estão dispostos a tratar o assunto com seriedade. O estigma ainda não desapareceu, mas a curiosidade começa a substituir o preconceito. Estamos vendo uma transição: menos opiniões emocionais e mais discussões baseadas em evidências.

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Fernando Paternostro em prova do Ironman. | Foto: Arquivo pessoal

Como nasceu o Atleta Cannabis


Sports Cannabis: O Atleta Cannabis se tornou uma das plataformas mais reconhecidas sobre cannabis e esporte na América Latina. O que você criou?

Fernando Paternostro: O Atleta Cannabis evoluiu para uma das principais plataformas educacionais da América Latina focadas na relação entre cannabis e esporte. Por meio de redes sociais, conteúdos educativos, entrevistas, análises científicas e experiências reais de atletas, construímos uma comunidade formada por atletas, médicos, profissionais da saúde, pacientes, pesquisadores e lideranças da indústria.

Percebi que praticamente não existia uma fonte confiável em português falando sobre cannabis e performance esportiva. A conversa era muitas vezes excessivamente promocional ou excessivamente ideológica. Faltava equilíbrio científico. Construir confiança exige consistência.

Nós focamos em transparência, evidências, conversas com especialistas e também em discutir limitações dos canabinoides. A confiança surge quando as pessoas percebem que você está disposto a seguir a ciência mesmo quando ela desafia suas próprias opiniões.


Ciência raramente cabe em respostas simples


Sports Cannabis: Qual foi um dos maiores desafios para manter esse padrão científico?

Fernando Paternostro: O maior desafio é resistir à simplificação. As redes sociais recompensam certezas absolutas, polêmicas e afirmações extremas. A ciência raramente funciona assim. A maioria das respostas exige contexto. O desafio é comunicar temas complexos de maneira acessível sem perder integridade científica. Sempre priorizamos precisão em vez de sensacionalismo, mesmo quando esse caminho cresce mais devagar.


CBD, WADA e o futuro da cannabis no esporte


Sports Cannabis: Você acredita que já existe educação científica suficiente sobre cannabis dentro do esporte e da medicina?

Fernando Paternostro: Não acredito que seja suficiente ainda. Um dos desafios mais interessantes é que a adoção da cannabis medicinal está avançando mais rápido do que a própria ciência. Pacientes, médicos e atletas já utilizam terapias baseadas em canabinoides no mundo real enquanto pesquisadores ainda trabalham para gerar o nível de evidência exigido pelos padrões tradicionais da medicina esportiva. Ao mesmo tempo, as regras antidoping tentam acompanhar essa evolução.

A decisão da WADA (Agência Mundial Antidoping) de remover o CBD da lista de substâncias proibidas foi um marco importante. Ela reconheceu que nem todos os canabinoides devem ser analisados da mesma forma e abriu espaço para pesquisa e uso terapêutico em atletas. A discussão atual sobre limites de THC também representa uma evolução, pois considera a diferença entre comprometimento durante a competição e exposição residual.

Um conceito que considero muito interessante é o dos canabinoides como possíveis agentes ergogênicos indiretos. Eles talvez não melhorem diretamente a performance durante o exercício, mas podem influenciar fatores como sono, ansiedade, recuperação e disponibilidade para treinar.

A melhora da performance pode ser consequência de uma recuperação melhor e de um atleta mais preparado. A discussão precisa ir além da pergunta simples: “cannabis deve ser permitida ou proibida?”. Precisamos falar sobre saúde do atleta, segurança, recuperação e integridade competitiva.


Impacto dura mais do que performance


Sports Cannabis: Olhando para trás, qual considera sua conquista mais importante?

Fernando Paternostro: Curiosamente, minha maior conquista não é um resultado esportivo. É ver atletas, médicos e pacientes mudando sua visão depois de terem acesso a informação de qualidade. Saber que nosso trabalho ajudou a criar conversas mais conscientes significa mais para mim do que qualquer medalha. Impacto dura mais do que performance.


O próximo capítulo


Sports Cannabis: O que vem agora para sua carreira esportiva e para o Atleta Cannabis?

Fernando Paternostro: Como atleta, quero continuar competindo em alto nível e documentando a realidade da performance de endurance no longo prazo. Meu grande objetivo é conquistar uma vaga para o Campeonato Mundial de Ironman 70.3 e levar a discussão sobre cannabis ao nível máximo da experiência Ironman.

Como educador, quero transformar o Atleta Cannabis em uma plataforma global, conectando atletas, pesquisadores, médicos e marcas através da educação baseada em ciência. A visão de longo prazo é ajudar a estabelecer a educação sobre cannabis no esporte como um campo legítimo de estudo, não apenas um nicho.


Quebrar o estigma não significa convencer todos a usar cannabis


Sports Cannabis: O que significa quebrar o estigma e normalizar essa conversa?

Fernando Paternostro: Quebrar o estigma não significa convencer todo mundo a usar cannabis. Significa criar um ambiente onde as pessoas possam discutir o tema de maneira honesta, crítica e científica. Também significa separar a cannabis de ideias antigas dentro do esporte. Atletas utilizam diversas ferramentas de recuperação: estratégias nutricionais, otimização do sono, fisioterapia, tecnologias de compressão, imersão no frio e suplementação legal.

Se os canabinoides demonstrarem capacidade de melhorar recuperação, reduzir ansiedade, favorecer sono e apoiar a saúde do atleta sem comprometer a justiça competitiva, eles merecem ser avaliados pelos mesmos critérios científicos usados para qualquer outra intervenção. O objetivo não é normalização pela ideologia. É normalização pela evidência.


Um movimento construído pela ciência


Movimentos raramente são construídos da noite para o dia. Eles nascem da consistência, da credibilidade e de inúmeras conversas capazes de substituir incerteza por conhecimento. O que começou como a busca de um atleta por respostas se transformou em uma das vozes mais relevantes da América Latina na discussão sobre cannabis, recuperação, saúde e alta performance.

Ao escolher evidência em vez de sensacionalismo e educação em vez de ideologia, Fernando Paternostro mostra que o verdadeiro avanço não é medido apenas por resultados esportivos ou momentos de visibilidade. Ele é medido pela qualidade das conversas que conseguimos construir.

À medida que a ciência evolui e atletas buscam novas formas de aumentar longevidade, recuperação e saúde, a cannabis se consolida como uma das discussões emergentes mais importantes do esporte moderno. O futuro pertence aos que estão dispostos a desafiar antigas ideias com curiosidade, responsabilidade e evidência. Esse é o significado de ser um agente de mudança.





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