Cruzar a linha de largada de um Ironman é o resultado de meses, às vezes anos, de planejamento, disciplina e renúncias. Treinos intermináveis, alimentação controlada, horas de recuperação, métricas monitoradas e uma rotina que passa a girar em torno de um único objetivo. O corpo se transforma em projeto.
Mas existe uma dimensão da preparação esportiva que continua recebendo menos atenção do que deveria: a saúde mental. O Ironman Brasil 2026, em Florianópolis, me ensinou isso da forma mais dura possível.
Fisicamente, eu estava pronto. Talvez mais preparado do que em qualquer outro momento da minha vida esportiva. Os treinos haviam sido cumpridos, as metas alcançadas e os indicadores apontavam que eu chegaria competitivo à prova.
O problema surgiu nas semanas finais da preparação. Para evitar qualquer risco de incompatibilidade com as regras antidoping aplicáveis ao esporte de alto rendimento, optei por interromper parte do meu tratamento e manter apenas o CBD isolado. Foi nesse período que percebi algo que muitos atletas ainda têm dificuldade de admitir: a mente também treina.
Nos quinze dias que antecederam a prova, justamente quando a ansiedade costuma aumentar, senti uma diferença importante. O sono ficou pior. As preocupações ganharam mais espaço. A capacidade de lidar com o estresse diminuiu. Nada disso aparecia nos números do relógio, nos watts da bicicleta ou nos quilômetros acumulados ao longo da preparação. Mas estava lá.
Talvez esse seja um dos maiores desafios quando falamos sobre saúde mental no esporte. Seus sinais nem sempre são visíveis. Muitas vezes, o atleta mantém a condição física intacta enquanto o equilíbrio emocional começa a se deteriorar silenciosamente. No dia da competição, entrei na água com toda a preparação física necessária para completar a prova.
Porém, um Ironman não é apenas uma disputa de resistência muscular ou cardiovascular. É uma sucessão de decisões tomadas sob fadiga extrema. A cada etapa, o atleta precisa interpretar sinais do corpo, administrar desconfortos, controlar emoções e ajustar estratégias em tempo real.
Quando as dificuldades começaram a aparecer, eu precisava de tranquilidade para analisar a situação e tomar decisões racionais. Precisava da mesma clareza mental que havia demonstrado durante meses de treinamento. Ela não estava lá.
Meu abandono não aconteceu por falta de condicionamento físico. Aconteceu porque, diante das adversidades inevitáveis de uma prova de longa duração, eu não estava com a mesma capacidade de regular emoções, controlar a ansiedade e tomar decisões sob pressão que havia demonstrado durante os meses de preparação.
Em vez de administrar os problemas, me precipitei. Em vez de adaptar a estratégia, permiti que a ansiedade assumisse o controle. E acabei abandonando a competição. Durante muito tempo, o esporte de alto rendimento tratou a mente como um complemento do corpo. Hoje sabemos que essa visão é insuficiente.
A ginasta Simone Biles talvez tenha protagonizado o exemplo mais emblemático dessa mudança. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021, ela se retirou de provas após enfrentar os chamados “twisties”, um bloqueio psicológico que compromete a percepção espacial e pode colocar a integridade física do atleta em risco. Sua decisão provocou um debate global sobre a pressão emocional enfrentada por atletas de elite.
Outros nomes igualmente consagrados seguiram o mesmo caminho. A tenista Naomi Osaka falou abertamente sobre ansiedade e depressão ao se afastar temporariamente das competições. O multicampeão olímpico Michael Phelps revelou ter enfrentado episódios severos de depressão ao longo da carreira.
Nos últimos anos, atletas de diferentes modalidades passaram a expor publicamente desafios relacionados à saúde mental que antes permaneciam escondidos nos bastidores do esporte profissional.


Apesar dessa mudança cultural entre os atletas, a saúde mental ainda não recebe a mesma atenção sistemática dedicada aos indicadores físicos de desempenho, recuperação e prevenção de lesões. O esporte moderno monitora frequência cardíaca, variabilidade cardíaca, potência, composição corporal, qualidade do sono e uma infinidade de marcadores fisiológicos. Entretanto, aspectos como ansiedade, sobrecarga emocional, medo do fracasso e desgaste psicológico continuam sendo avaliados de forma muito menos estruturada.
A consequência é que muitos atletas chegam às competições com excelente condição física, mas sem os recursos emocionais necessários para lidar com pressão, dor, frustração e tomada de decisão em situações extremas. Talvez seja hora de abandonar a ideia de que a mente serve apenas para motivar o corpo.
Na prática, ela regula atenção, percepção de risco, controle emocional, adaptação a situações inesperadas e capacidade de julgamento. Em provas de longa duração, essas competências podem ser tão decisivas quanto a força muscular ou a resistência cardiovascular.
Nesse contexto, a cannabis medicinal surge como um tema que merece ser debatido com menos preconceito e mais ciência. Não como uma substância capaz de transformar atletas em super-humanos. Não como um atalho para resultados.
Mas como uma ferramenta terapêutica potencialmente útil para pessoas que convivem com ansiedade, distúrbios do sono, dor crônica ou outras condições capazes de afetar diretamente a recuperação física e o equilíbrio emocional. Os avanços regulatórios observados em diferentes países apontam nessa direção.
Em 2026, a WNBA aprovou um novo acordo coletivo que removeu a cannabis da lista de substâncias proibidas da liga, acompanhando uma tendência que já vinha sendo observada em outras organizações esportivas norte-americanas.
A mudança não foi motivada pela crença de que a cannabis melhora o desempenho esportivo. Pelo contrário. Ela reflete uma compreensão crescente de que as políticas antidoping precisam diferenciar substâncias utilizadas para fins terapêuticos de agentes efetivamente associados ao ganho de performance.
Até o momento, as evidências científicas disponíveis não demonstram de forma consistente que a cannabis produza ganhos diretos de desempenho comparáveis aos observados com substâncias classicamente consideradas dopantes. Por isso, as discussões mais avançadas sobre o tema já não giram apenas em torno da proibição ou da liberação. Elas envolvem saúde, bem-estar, recuperação e qualidade de vida dos atletas.
A tendência parece clara. À medida que a ciência avança e mais evidências se acumulam, as políticas antidoping tendem a se tornar mais sofisticadas, menos ideológicas e mais alinhadas ao conhecimento científico disponível. Minha experiência no Ironman Brasil 2026 não terminou da maneira que eu imaginava. Mas talvez tenha produzido uma lição mais valiosa do que qualquer resultado esportivo.
Aprendi que performance não é apenas potência, velocidade ou resistência. É também clareza mental. Porque, no esporte de endurance, e talvez na própria vida, o verdadeiro desafio não é apenas preparar o corpo para suportar as dificuldades. É preparar a mente para atravessá-las.







