Endocanabinologia Veterinária: a nova especialidade na veterinária do Brasil

Resolução do CFMV reconhece oficialmente a especialidade no Brasil e habilita a AMEC-VET como entidade responsável pela concessão do título de especialista
Endocanabinologia veterinária


Há alguns meses, durante uma live sobre Cannabis, meu cachorro Charrua resolveu participar da transmissão do jeito que sabe fazer melhor: latindo sem parar. Entre uma pergunta e outra, alguém comentou: “Dá CBD para esse doguinho.” Todo mundo riu, e é fato que cada vez mais tutores procuram alternativas para melhorar a qualidade de vida de seus animais.

Seja para dor crônica, epilepsia, ansiedade, osteoartrite ou cuidados paliativos, a Cannabis passou a fazer parte das conversas dentro dos consultórios veterinários. E hoje essa discussão teve um marco histórico.

Hoje troquei uma ideia com a médica-veterinária Dra. Caroline Campagnone,que explicou o quanto a planta é uma excelente ferramenta terapêutica, e que a Endocanabinologia estuda todo o Sistema Endocanabinoide e todas as formas de modular esse sistema. 

Segundo ela, essa diferença é fundamental. O reconhecimento da especialidade endocanabinologia veterinária passa a estudar o funcionamento do Sistema Endocanabinoide como parte da fisiologia do organismo. Em outras palavras, deixa-se de olhar apenas para a planta e passa-se a compreender um sistema biológico inteiro.


Ninguém ensinou na escola e eles não sabem o que fazer com o sistema endocanabinoide


Segundo Caroline, praticamente todos os médicos-veterinários formados no Brasil carregam uma lacuna importante de conhecimento: o Sistema Endocanabinoide foi deixado de fora na  graduação.


“O sistema entra em desequilíbrio em praticamente todas as patologias, sejam bacterianas, virais, metabólicas, neurológicas ou dermatológicas.”


Até agora existiam cursos, pós-graduações e capacitações. Mas não existia uma especialidade oficialmente reconhecida. Com a nova resolução isso muda completamente.


Como ter o título de especialista em Endocanabinologia Veterinária no Brasil?


Os profissionais que desejarem utilizar oficialmente o título de especialista precisarão cumprir critérios definidos pela AMEC-VET e passar por um processo de certificação.

A prova deverá ocorrer já em 2027 e será composta por duas etapas: uma avaliação objetiva e uma prova oral. Após aprovação, os nomes serão encaminhados ao Conselho Federal de Medicina Veterinária para registro oficial do título profissional.


O maior desafio continua sendo o acesso


Apesar do avanço científico, Caroline lembra que a regulamentação dos produtos veterinários ainda caminha lentamente. Hoje o Brasil não possui medicamentos veterinários à base de cannabis registrados para comercialização. Na prática, quando indicados, utilizam-se produtos destinados à medicina humana.


“Ainda não existe um produto legalmente registrado para uso veterinário disponível no mercado brasileiro”, explica.


Existem iniciativas importantes em andamento. A própria AMEC-VET atua judicialmente para ampliar o acesso e construir um modelo regulatório específico para os animais. Enquanto isso, médicos-veterinários continuam utilizando produtos humanos quando há indicação clínica e respaldo técnico.


O que muda para o tutor?


Talvez não mude imediatamente. O tutor ainda não encontrará um medicamento veterinário de cannabis na farmácia. Também continuará precisando de acompanhamento médico-veterinário para qualquer indicação terapêutica.

Mas existe uma mudança importante acontecendo nos bastidores. A partir de agora, o Brasil passa a reconhecer oficialmente profissionais especializados em um sistema fisiológico presente em todos os mamíferos. E isso significa mais pesquisa. Mais formação. Mais segurança clínica. Mais conhecimento.

Talvez daqui a uma década seja difícil imaginar que houve um tempo em que o Sistema Endocanabinoide sequer era ensinado nas universidades.

CFMV Endocanabinologia veterinária
Resolução do CFMV que habilita a AMEC-VET a conceder títulos de especialista em Endocanabinologia Veterinária. | Imagem: Reprodução/CFMV.

“A Endocanabinologia Veterinária passa a existir oficialmente no Brasil”


— A publicação da Resolução CFMV nº 1.705/2026 representa, de fato, o reconhecimento da cannabis medicinal na Medicina Veterinária?

Dra. Caroline Campagnone — Sim, com certeza. O Conselho Federal de Medicina Veterinária publicou essa resolução habilitando a AMEC-VET como a entidade responsável por regular a especialidade. A cannabis surge como uma grande ferramenta terapêutica, mas a Endocanabinologia estuda muito mais do que a planta. Ela envolve todo o Sistema Endocanabinoide, sua fisiologia e todas as formas de modular esse sistema nos pacientes. Esse reconhecimento traz um posicionamento completamente diferente para o médico-veterinário que trabalha com essa área.


— Então podemos dizer que nasce uma nova especialidade na Medicina Veterinária?

Dra. Caroline Campagnone — Exatamente. É importante fazer uma diferenciação entre especialização e especialidade. Quando o profissional faz uma pós-graduação, ele se torna especializado naquela área. Já a especialidade possui uma entidade reconhecida que estabelece critérios para certificar quem realmente pode ser considerado especialista.

Agora teremos uma regulamentação formal. Os profissionais interessados deverão atender aos requisitos estabelecidos, passar por um processo de avaliação e, após aprovação, serão reconhecidos oficialmente pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária. Esse título ficará registrado junto ao CRMV do profissional.


— Quais ainda são os maiores desafios enfrentados pelos médicos-veterinários que desejam trabalhar com cannabis medicinal?

Dra. Caroline Campagnone — Eu acredito que o principal desafio ainda seja o acesso aos produtos. Apesar de hoje existirem associações que fornecem produtos, nós ainda não temos uma cadeia produtiva veterinária completa no Brasil. O médico-veterinário consegue acessar produtos de uso humano e também aqueles disponibilizados por associações autorizadas judicialmente, mas ainda aguardamos avanços regulatórios importantes.

Hoje essas associações funcionam por meio de decisões judiciais e nenhuma delas foi criada especificamente para a Medicina Veterinária. Também não existe um produto veterinário registrado para prescrição. Embora existam processos de registro em andamento, ainda não há nenhum medicamento veterinário à base de cannabis oficialmente aprovado no país.


— Apesar disso, esse reconhecimento fortalece a área?

Dra. Caroline Campagnone — Sem dúvida. O reconhecimento reforça a importância do Sistema Endocanabinoide como um sistema fisiológico que, infelizmente, ficou de fora da formação da maioria dos profissionais.

Nós não aprendemos sobre esse sistema durante a graduação, apesar de ele estar relacionado a inúmeras doenças. Recebemos diariamente pacientes com alterações do Sistema Endocanabinoide sem que esse sistema seja devidamente avaliado.

Por isso esse reconhecimento é tão importante. Ele fortalece uma área da fisiologia que precisa ser conhecida não apenas pelos médicos-veterinários, mas por todos os profissionais da saúde. Esperamos que esse movimento também incentive outros conselhos profissionais a reconhecerem oficialmente especialidades semelhantes.

Dra. Caroline Campagnone
Dra. Caroline Campagnone (ao centro), diretora da Amec-Vet. | Foto: Eduardo Brêda / Plantando Conhecimento


— Podemos dizer que este é um marco para a Medicina Veterinária brasileira?

Dra. Caroline Campagnone — Sim, sem dúvida. É um marco histórico. Agora teremos, no início de 2027, a primeira prova para concessão do Título de Especialista em Endocanabinologia Veterinária. Os profissionais precisarão comprovar experiência e formação na área para poder realizar o exame.

A prova terá duas etapas. A primeira será objetiva, de múltipla escolha. Depois haverá uma avaliação oral, na qual serão analisados os conhecimentos do candidato. Os aprovados serão encaminhados ao Conselho Federal e passarão a constar oficialmente como especialistas.


— Quais são hoje as principais aplicações da Endocanabinologia na Medicina Veterinária?

Dra. Caroline Campagnone — Sempre que existe uma alteração no Sistema Endocanabinoide, existe potencial para atuação clínica. Esse sistema entra em desequilíbrio em praticamente todas as doenças: infecções bacterianas, virais, fúngicas, doenças neurológicas, metabólicas, dermatológicas, endócrinas e muitas outras.

Todas essas áreas conversam diretamente com o Sistema Endocanabinoide. Também existem aplicações em cardiologia, oncologia, imunologia e diversas outras especialidades. Por isso a Endocanabinologia vai muito além do tratamento da dor.

Claro que dor, inflamação e câncer são áreas bastante conhecidas, mas estamos falando de um sistema presente em praticamente todos os tecidos do organismo.

O mais importante é compreender que deixamos de enxergar esse profissional apenas como um prescritor de cannabis. Agora falamos em um médico-veterinário endocanabinologista, que possui uma visão muito mais ampla sobre fisiologia e prática clínica.

Foi justamente a cannabis que permitiu que a ciência conhecesse melhor o Sistema Endocanabinoide, mas hoje entendemos que essa especialidade vai muito além da planta.


— Qual é o papel da AMEC-VET nesse processo?

Dra. Caroline Campagnone — A AMEC-VET é uma associação que há anos atua na esfera judicial buscando ampliar o acesso à cannabis para uso veterinário. Inclusive, durante nosso processo judicial, o Conselho Federal de Medicina Veterinária participou como amicus curiae, apoiando tecnicamente a iniciativa perante a Justiça.

Hoje a associação reúne médicos-veterinários que trabalham com Endocanabinologia em todo o Brasil. Nosso objetivo é fortalecer o reconhecimento científico da área, organizar a formação dos especialistas e também lutar pelo acesso a produtos desenvolvidos especificamente para uso veterinário.


— Para o tutor que está lendo esta entrevista, como está hoje o acesso aos produtos?

Dra. Caroline Campagnone — Hoje ainda não existe, no Brasil, um medicamento à base de cannabis registrado especificamente para uso veterinário. Na prática, os médicos-veterinários utilizam produtos destinados ao uso humano, sempre quando há indicação clínica e respaldo técnico.

Existem associações trabalhando para ampliar esse acesso e buscando autorização para fornecer produtos veterinários, mas isso ainda está em construção. Também existe um projeto na Universidade Federal de Santa Catarina, porém ele é voltado exclusivamente para pesquisa e não para fornecimento aos pacientes.

Ou seja, ainda não temos um produto veterinário disponível no mercado brasileiro. No mercado internacional esses produtos já existem, mas, atualmente, eles ainda não podem ser importados para uso veterinário no Brasil.


denise tamer


maconhometro
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