Ayahuasca e pós-derrame

Relatos psicodélicos de uma sobrevivente de um derrame cerebral
Ayahuasca psicodelicos dmt


“Quanto mais Exu comia, mais fome Exu sentia”. Começo o texto parafraseando um itan que me marca profundamente e no qual eu gosto de comparar a fome de Exu com a minha fome de conhecimento.

Junto com a minha luta pela legalização da planta, caminha lado-a-lado o meu fascínio por enxergar o mundo além da minha visão, talvez isso explique minha admiração por substâncias psicodélicas.

Não sei quando exatamente me surgiu a vontade de integrar a medicina psicodélica na minha recuperação do fatídico AVC, muito menos sei informar de onde tirei essa ideia, talvez tenha sido em um breve momento de epifania seguido de um “A-HA! E se eu…” (nenhuma ideia 100% segura surge quando penso isso, inclusive).

Minha teoria era simples, uma experiência psicodélica de expressiva potência, como a da Ayahuasca, poderia fazer com que meu corpo se “reconectasse”, restaurando a linha tênue entre corpo-mente-espírito com base na neuroplasticidade. Isso ou eu iria de vez, mas por algum motivo meu cérebro pensou “é, compensa o risco”.


Roleta Russa


Janeiro de 2026, me preparo para a minha primeira consagração de Ayahuasca. Chego em um espaço lindo que me lembrava uma floresta, muitas árvores ao redor, pássaros cantando e um cheiro inconfundível de incenso, todas as pessoas ao meu redor estavam sorridentes e vestidas de branco, foram gentis e me explicaram os possíveis efeitos adversos.

Eu já tinha feito a anamnese antes, mas mesmo assim expressei o meu medo de que a minha primeira experiência fosse a última. Depois de uma longa conversa, finalmente chego em um local ainda mais bonito, era um paredão de pedra com estátuas de várias entidades, algumas luzes verde e roxo juntamente com uma potente fogueira que se fazia de berço para o fogo sagrado, como o chamavam.

Na primeira dose do chá de ayahuasca confesso que estava assustada, foi o momento que me peguei me perguntando: “o que que eu tô fazendo aqui?”. Na segunda dose, tudo bem. Na terceira dose já me encontrei em uma reunião extraordinária com outras duas personalidades minhas, estávamos tendo uma conversa acalourada sobre o que exatamente eu estava fazendo com a minha vida.


Pós-daime


Os efeitos após o chá foram extremamente interessante e eu os observo até hoje. Senti uma maior conexão corpo-mente, antes era como se ambos estivessem separados e meus pensamentos não se comunicavam com o meu agir.

Parece que meu corpo está se lembrando do lado direito e aos poucos estou retomando a consciência corporal que foi perdida, isso está me ajudando a andar melhor e me equilibrar mais.


Teoria 1: Neuroplasticidade e o fator BDNF


A ayahuasca tem demonstrado em estudos científicos a capacidade de estimular a produção de BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor), uma proteína fundamental para a neuroplasticidade. O BDNF atua na sobrevivência, crescimento e manutenção dos neurônios.

Essa proteína age como um “adubo” para os neurônios, facilitando a criação de novas sinapses ou o fortalecimento de caminhos neurais que estavam “dormentes” ou enfraquecidos, isso pode significar que o meu cérebro pode estar encontrando novas rotas para enviar sinais motores para o lado direito, contornando bloqueios antigos.

O que, de certa forma, conversa com a 2ª teoria.


Teoria 2: Dissolução da “Rede de Modo Padrão” (DMN)


A Rede de Modo Padrão (DMN, do inglês Default Mode Network) é um conjunto de áreas cerebrais que se ativa automaticamente quando o cérebro está em repouso. É o “modo padrão” de funcionamento, responsável pela introspecção, devaneios, memória do passado, planejamento do futuro e processamento emocional, o que a leva a interferir no processamento de traumas.

Imagina: um dia você é uma simpática adolescente, tem uma vida social ativa e pratica esportes, isso requer um grande autoconhecimento corporal. Em um outro, você tem um AVC e seu corpo já não responde como antes (em grande parte das vezes, sequer responde).

Isso cria uma dissociação entre o físico e o mental, tentar dar um passo e cair ou tentar algo simples como somente mexer o braço e não conseguir cria um certo bloqueio, isso envia mensagens ao cérebro de que não posso confiar em eu mesma e aos poucos a autoconfiança vai sendo minada juntamente com a auto percepção.

Segundo Matthew Brown, um especialista em DMN, compara a hiperatividade da DMN a experiências de “hipercrítica”, “padrões de pensamento rígidos” e “ciclos automáticos de pensamentos negativos” sobre si mesmo.

O que isso pode significar na minha vivência é que a partir do momento que tentei dar um passo e acabei caindo, meu cérebro enviou uma mensagem ao meu corpo: “você não consegue mais fazer isso”.

ayahuasca pós derrame DMN

Quando somos crianças recebemos essa mensagem com certo desdém e o pensamento “não consigo, tentarei até conseguir”, porém quando nos tornamos adultos traumatizados com a vida estamos completamente absortos na ruminação mental e conseguimos ser bem criativos em pensar o pior cenário possível, algo como “vou tentar dar um passo, cair, bater a cabeça, ter um traumatismo craniano e morrer”.

De acordo com dr. Simon Ruffell, psiquiatra e pesquisador sênior do King’s College London, “estudos de neuroimagem sugerem que, quando substâncias psicodélicas são absorvidas, elas diminuem a atividade na rede do modo padrão. Como resultado, a noção de si parece se desligar temporariamente e, portanto, as ruminações podem diminuir.”

Quando a DMN está hiperativa, ela pode se tornar uma prisão de hábitos mentais e físicos. A Rede de Modo Padrão é importante para termos uma identidade, mas quando ela se torna rígida demais, ela nos desconecta da nossa biologia.

Acredito que o chá da ayahuasca atuou na diminuição da DMN, permitindo que meu sistema motor e sensorial recuperasse um espaço que sempre o pertenceu, mas que meus traumas me faziam acreditar que não me pertencia mais.

A vida é horrorosa quando você está vivendo trilhando só o caminho alheio, de fato existe uma Helen antes e outra após a experiência com a Ayahuasca.

O intuito dessa pesquisa não é incitar o uso e nem trazer como única solução possível. Estou falando da minha experiência pessoal e teorias, trazendo a lógica dos psicodélicos como tratamento pós-trauma, mas gostaria de deixar algo cada vez mais claro: eu fiz por minha conta em risco, trabalho sempre com a possibilidade de que no mínimo descuido, não estaria aqui relatando isso hoje.

Medicinas sagradas como a ayahuasca merecem respeito e esse respeito passa pelo entendimento que elas podem não ser para todo mundo.


Helen Sampaio


maconhometro
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