Meu nome é Aníbal Júnior. Sou artista visual, com formação em arquitetura e urbanismo. E a maconha tem uma importância imensa na minha vida pessoal e profissional, como ferramenta real de transformação da percepção, do processo criativo e do olhar sobre o mundo.
Comecei a usar a planta já adulto, por volta dos vinte e cinco anos. Quando ela entrou na minha vida, transformou minha relação com o álcool, me fez questionar hábitos e, mais fundo, me fez enxergar artista, me colocou diante de perguntas que não tinha coragem de fazer antes, sobre propósito, sobre criação, sobre o que eu queria dizer com o meu trabalho.
Como afirma o neurocientista Sidarta Ribeiro, “a maconha é uma planta professora”. Na minha história, foi exatamente isso.
A planta no processo criativo
Utilizo a maconha como ferramenta essencial no meu trabalho artístico. Ela me permite entrar num estado de concentração profunda onde a criatividade flui de forma não linear, conexões que o pensamento cotidiano não faria surgir com naturalidade.
Cada obra do Ganja3D tem uma história e processo único por trás: um estudo de referências, croquis, testes de materiais, camadas de decisão. A planta participa desse processo como agente de inspiração interna e externa.

Existe uma analogia que sempre me pareceu verdadeira: criar uma escultura é muito parecido com preparar um beck. Ambos exigem etapas de minúcia manual, atenção ao detalhe, escolhas que parecem pequenas mas definem o resultado final.
Assim como você observa e estuda qual planta vai usar (prensado também conta viu rs), com quais misturas, qual seda, qual piteira, o mesmo cuidado e presença são necessários na criação de cada obra. Do croqui inicial, um esboço que serve de esqueleto para a ideia, até a materialização tridimensional: é um processo meticuloso, que não admite pressa.
As rodas de conversa também são parte fundamental desse processo. São espaços onde ideias circulam, onde perspectivas diferentes se encontram, onde o processo criativo se alimenta de vozes que não são só a minha. A roda não é apenas um ritual cultural, é uma metodologia.
A dimensão que coube numa pergunta
Tudo começa com uma pergunta que parece simples mas não tem resposta curta: o que é a planta?
Não no sentido botânico, embora a botânica esteja lá dentro. Mas no sentido cultural, político, fisiológico, espiritual, histórico. A planta é ao mesmo tempo remédio e ameaça, sacramento e contravenção, matéria-prima e signo. Ela atravessa séculos de história humana e ainda assim é tratada como se tivesse sido inventada ontem por alguém mal intencionado.
Quando falo em “dimensões”, estou falando exatamente disso: das múltiplas camadas de sentido que a cannabis carrega e que raramente aparecem juntas. O debate público costuma achatar a planta numa só dimensão, legal ou ilegal, medicinal ou recreativa, boa ou má. Minha pesquisa existe para recusar esse achatamento.
De onde vem o Ganja3D
Cresci dentro da funilaria do meu pai, e foi ali, entre chapas, ferramentas e o cheiro de tinta, que minhas mãos aprenderam a linguagem do fazer. Esse aprendizado artesanal, construído desde pequeno até a vida adulta, está na base de tudo que produzo hoje como artista.
Mais tarde, passei alguns anos no grupo de pesquisa Nomads USP, entre 2014 e 2017, desenvolvendo trabalho com prototipagem rápida, impressão 3D e modelagem paramétrica. Aprendi a pensar forma com precisão milimétrica. Aprendi que tecnologia é linguagem.
Quando esse repertório técnico encontrou minha relação com a planta, algo mudou na forma como eu produzia. A impressão 3D entrou no meu processo não como fim, mas como ponto de partida, ela gera alguns dos elementos que compõem cada obra, mas as esculturas nunca são inteiramente impressas.
O que existe é uma técnica mista: partes modeladas digitalmente e impressas convivem com cerâmica fria trabalhada à mão, espuma expansiva, filamento plástico, fibras naturais, galhos, seda. Cada material entra no momento certo, respondendo ao que a forma pede.
É um diálogo constante entre a precisão da máquina e a imperfeição do gesto artesanal, e é exatamente nessa tensão que a obra respira. Nenhuma máquina sozinha consegue reproduzir a lógica viva do crescimento da planta. Mas a mão também não chega lá sem a máquina. O processo é os dois juntos.
As séries que compõem a pesquisa
As Dimensões da Planta, título da minha pesquisa e da exposição apresentada em 2024 na Matilha Cultural, em São Paulo, e que ganhou uma extensão ao ser convidada para a 2ª edição da Expo Cannabis Brasil, é composta por cinco séries que vão aparecer em detalhes nos próximos artigos desta coluna:
Trans Espécie é a série central. Parte do conceito de “espécies companheiras”, criado pela filósofa, bióloga e zoóloga Donna Haraway, para propor que humanos e cannabis formam uma aliança evolutiva e que o sistema endocanabinoide, presente em todos os mamíferos, é a prova fisiológica dessa conexão. As esculturas mostram corpos que transicionam entre o humano e o vegetal: rostos com flores brotando do corpo, mantos que são ao mesmo tempo pele e folha.
Botânica parte de um paradoxo que me fascina: para mimetizar a perfeição geométrica da natureza, os humanos precisaram criar tecnologias de precisão extrema e ainda assim nunca chegamos lá. O que resta ao artista é tentar eternizar o que é vivo.
Micro-Macro amplia o invisível. O tricoma, estrutura microscópica que concentra os canabinóides e que a maioria das pessoas nunca viu de perto, ganha escala escultórica. Ver grande o que é pequeno muda a relação com a planta.
Fibras trabalham com os materiais da cultura do fumar: seda, galhos, piteira. Não como suporte, mas como linguagem. O que era resíduo vira obra.
Surreal é onde o imaginário botânico encontra o sonho. Paisagens que não existem, figuras que emergem de folhas, composições onde a planta define a lógica do espaço.
Por que escrever aqui
A planta sempre existiu antes das palavras que tentaram defini-la, antes das leis, antes dos diagnósticos, antes dos estigmas. A arte opera nesse mesmo lugar anterior: não explica, não argumenta, não convence pela razão. Ela cria imagens que ficam.
Que reorganizam a percepção antes mesmo de você entender por quê. É nesse espaço, entre o que se sente e o que ainda não tem nome, que a linguagem artística encontra a cannabis e revela dimensões que nenhum outro campo consegue tocar.

Cada obra do Ganja3D é um testemunho do meu processo criativo e da importância da planta na minha vida. Ao compartilhar essas histórias e processos, quero que quem lê possa ver além da superfície das obras e apreciar a profundidade e o significado por trás de cada peça. Não é só arte. É uma história, uma cultura e um movimento que celebra a planta e tudo o que ela representa.
Se liguem as próximas colunas mensais, tenho muitas brisas para compartilhar e a planta tem muitas dimensões.
Deixo aqui ⬇️ um reel sobre as pesquisas que venho desenvolvendo no audiovisual, acende aquela e vem comigo. “Boas Brisas “.

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Revisão: Vitória Linné, cientista social formada pela UFSCar (São Carlos).
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