A roda como espaço político

A roda que a cannabis convoca é fluida. Ela acontece. Ninguém precisa propô-la, ninguém precisa organizar. Os corpos se encontram e a forma emerge
Roda Eu Planta Ganja 3d


Existe um momento que quem fuma conhece sem precisar nomear. É quando o círculo se fecha, quando os corpos se organizam, as vozes baixam um pouco, o tempo muda de velocidade. Não é um protocolo. Não tem regra escrita. É uma geometria que acontece naturalmente, como se os corpos soubessem, antes da mente, que aquele é o formato certo para o que vai vir.

A roda.

Não estou falando apenas de um hábito. Estou falando de uma das formas mais antigas e persistentes de organização humana, uma forma que a cannabis ajudou a construir e que carrega, inscrita na sua circularidade, uma proposta sobre como existir junto.


A geometria do encontro


O círculo não tem hierarquia. Não tem frente nem fundo, não tem quem lidera e quem segue, não tem palco e plateia. Todos os pontos da circunferência estão igualmente distantes do centro. Quando pessoas se organizam em roda, estão, mesmo que inconscientemente, recusando a lógica da fila, da tribuna, do poder que se projeta de cima para baixo.

A roda que a cannabis convoca é fluida. Ela acontece. Ninguém precisa propô-la, ninguém precisa organizar. Os corpos se encontram e a forma emerge. É nesse sentido que a roda é ao mesmo tempo ritual e política, ela não precisa se declarar política para sê-lo. Ela já é uma outra proposta de mundo simplesmente por existir da forma como existe.

Nas minhas anotações de pesquisa, há uma observação que carrego há muito tempo: a planta é a ferramenta que constrói a roda. Não é a roda que convoca a planta, é a planta que convoca a roda. Ela cria as condições para um tipo de presença que o cotidiano costuma negar: presença desacelerada, porosa, disponível para o outro.


O tempo da roda


A roda tem um tempo próprio. Não é o tempo da produtividade, não é o tempo do agendamento, não é o tempo que se conta em metas e entregas. É um tempo que se expande, onde uma conversa pode durar horas sem que ninguém perceba, onde o silêncio também tem lugar, onde o pensamento pode se mover sem pressa.

O neurocientista Sidarta Ribeiro fala sobre como os canabinóides atuam desacelerando certos processos cognitivos, criando janelas de flexibilidade onde conexões inesperadas se tornam possíveis. O que acontece na roda é, em parte, uma expressão coletiva disso: a planta não apenas altera a percepção individual, ela altera o ritmo do encontro. Faz com que as pessoas ouçam de forma diferente, falem de forma diferente, percebam o outro com uma atenção que a vida acelerada costuma impossibilitar.

Há algo profundamente decolonial nesse tempo. O tempo colonial é o tempo da extração, da eficiência, da produção. O tempo da roda é o tempo da circulação, onde o que passa de mão em mão não é apenas um objeto, mas um gesto de confiança, uma declaração de pertencimento.


A história que a roda carrega


A roda não nasceu ontem. O uso coletivo e ritualístico de plantas psicoativas é uma das práticas mais antigas da humanidade, presente em culturas africanas, indígenas, orientais, muito antes de qualquer estado-nação existir para proibi-lo.

No Brasil, a cannabis chegou com os povos escravizados trazidos da África. A palavra maconha tem raízes no idioma banto. O uso coletivo, em roda, era parte de práticas espirituais e comunitárias que atravessaram o Atlântico junto com os corpos que foram forçados a cruzá-lo.

Em 1830, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou a Lei de Posturas, conhecida como “Lei do Pito do Pango” , primeira norma a punir o uso da erva em solo brasileiro. Ela não criminalizou apenas uma planta, criminalizou uma cultura, uma forma de estar junto, um patrimônio de povos que o colonialismo já havia tentado apagar de todas as outras formas. Não por acaso, a lei mirava explicitamente escravizados e libertos, o controle da planta nasceu, desde o início, atrelado ao controle de corpos negros. 

Quando nos sentamos em roda hoje, estamos, mesmo sem saber, mesmo sem intenção, participando de uma continuidade histórica que o proibicionismo tentou interromper. A roda é um arquivo vivo. Ela guarda na sua geometria a memória de todos os círculos que vieram antes.


EU PLANTA: a instalação e o corpo no espaço

A instalação funcionou como uma roda em outro formato: não a roda do fumar, mas a roda do sentir. Um convite para que cada pessoa que entrasse no espaço percebesse seu próprio corpo em relação, com as obras, com os materiais, com as memórias que a planta evoca. A seda e o vidro não são decoração, são extensões sensoriais, membranas que deixam passar a luz e o olhar, convites à respiração, à desaceleração, ao encontro com o invisível.

O ambiente fez parte da proposta. O lugar, uma biblioteca universitária pública, um espaço de produção e circulação de conhecimento, não foi escolhido por acaso. Levar a pesquisa canábica para dentro da UFSCar foi também um gesto político: afirmar que esse conhecimento pertence ao espaço acadêmico, que a cannabis tem uma história intelectual que merece ser investigada com rigor e abertura.

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Imagens da Instalação: EU PLANTA. | Foto: Aníbal Junior


A roda como metodologia


Nas rodas de conversa que integram minha pesquisa, aprendi que o círculo não é apenas um formato espacial, é uma metodologia. Uma forma de produzir conhecimento que não hierarquiza quem sabe e quem não sabe, mas que circula o saber como se circula um beck, de mão em mão, de voz em voz, sem que ninguém precise ser o centro.

O filósofo Edgar Morin fala sobre pensamento complexo, a capacidade de compreender fenômenos na sua interdependência, sem reduzi-los a uma causa única ou a uma perspectiva única. A roda pratica pensamento complexo. Ela coloca em contato diferentes corpos, diferentes histórias, diferentes formas de sentir a planta, e do encontro dessas diferenças emerge algo que nenhuma pessoa sozinha produziria.

É por isso que a roda aparece na minha pesquisa não apenas como tema, mas como forma. Cada obra que produzo passa, de alguma maneira, pelo crivo da roda, das conversas, dos encontros, das perspectivas que circulam e que me formam como artista.

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Imagens da Instalação: EU PLANTA. | Foto: Aníbal Junior


O que a roda propõe


A roda propõe que o outro existe. Que o encontro importa. Que há formas de estar junto que não passam pela competição, pela hierarquia, pela produtividade. Que uma noite em que nada foi “produzido”, nada foi vendido, nada foi publicado, nada foi entregue, pode ser uma das noites mais densas e necessárias de uma vida.

Num mundo que trata o tempo como recurso a ser otimizado, a roda é uma recusa. Uma recusa gentil, fumacenta, que não precisa de manifesto para se declarar, porque ela já é, na sua existência mais simples, uma outra proposta de mundo.

A planta constrói a roda. A roda constrói comunidade. E a comunidade, quando se reconhece como tal, torna-se capaz de imaginar futuros que o isolamento nunca alcançaria.


Anibal Junior Ganja 3D
Vista CM Gostoso Demais

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