O trabalho nas associações de pacientes de cannabis

A legitimidade da geração de renda digna para quem produz cuidado em saúde
Associações de pacientes


Vale trazer aqui outra questão histórica: a divisão sexual do trabalho. Ao longo do capitalismo, atividades de cuidado — atribuídas a corpos feminilizados e à esfera doméstica — foram afastadas do que se reconhece como trabalho produtivo (Federici, 2023). Nas associações canábicas essa sobreposição é particularmente relevante: mulheres que mobilizaram saberes e redes para cuidar de seus filhos passaram a sustentar a estrutura das organizações. Legitimar economicamente essas atividades é reconhecer que cuidado e ativismo também constituem trabalho.

Além disso, esperar que quem gere e sustenta uma associação dedique seu tempo sem remuneração digna pressupõe que essa pessoa disponha de outra fonte de sustento. A dedicação voluntária pode, assim, funcionar como um filtro: quem tem renda de outro trabalho, patrimônio ou apoio familiar tem mais condições de se manter na associação.

A discussão pode ainda ser atravessada por um recorte racial. Embora não tenhamos localizado estatísticas sobre os quadros e lideranças das associações canábicas por gênero, raça e classe, é possível formular uma hipótese a partir dos dados sobre os efeitos da política de drogas: o cultivo e a produção de cannabis, individual ou coletivo, não oferecem o mesmo risco para todos.

Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 69,6% da população privada de liberdade é negra e 94% são homens (FBSP, 2026); entre as mulheres presas, 66,99% também são negras, contra 32,05% de brancas (SENAPPEN, 2026). Outra pesquisa aponta que 65,7% dos processados por tráfico de drogas nos tribunais estaduais são negros, nos casos em que essa informação constava do processo (Ipea, 2023, p. 96).

Cabe questionar as condições sociais e os privilégios necessários para liderar, cultivar ou produzir derivados de cannabis num campo marcado pela criminalização. A hipótese é que a racialização da política de drogas também define quem consegue ocupar, com menor exposição ao risco penal, os espaços emergentes dessa economia associativa. A ausência de dados sobre quem exerce essas funções — sobretudo as diretivas — impede confirmar essa relação empiricamente e deixa a questão em aberto para pesquisas futuras.


Conclusão


Este ensaio permite compreender que a existência de finalidade lucrativa das associações de pacientes de cannabis não se confunde com a possibilidade e a pertinência de remunerar o trabalho necessário à sua atividade. Diante da complexidade, dos riscos e da relevância desse trabalho de produção de cuidado em saúde, a remuneração dos colaboradores é instrumento de reconhecimento e valorização dessas organizações.

A questão ganha relevância porque participar sem remuneração pressupõe condições materiais para dedicar tempo à atividade associativa. Em outras palavras, a remuneração não diz respeito só ao reconhecimento individual de quem trabalha nas associações, mas à ampliação das possibilidades de participação e permanência de quem, sem renda vinculada à atividade, talvez não sustentasse esse trabalho no longo prazo. Sob essa perspectiva, mobilizar recursos da finalidade social para criar postos de trabalho dignamente remunerados pode constituir uma dimensão de justiça distributiva.

Isso, por si só, não enfrentaria as desigualdades estruturais de gênero, raça e classe que atravessam o trabalho de cuidado e a política de drogas. A ausência de dados sobre a composição dessas organizações a partir desses marcadores é uma lacuna que demanda investigação empírica futura. Se a história do associativismo canábico evidencia o protagonismo de mulheres, muitas delas mães, e de ativistas feministas e antiproibicionistas, os efeitos racializados da criminalização permitem questionar quem consegue ocupar, com menor exposição a riscos, os espaços de cultivo, produção, gestão e liderança abertos pela regulamentação do setor.

A questão não é apenas se as associações podem ou devem remunerar quem produz o cuidado em saúde, mas quem consegue transformar a expansão da economia regulada da cannabis em trabalho e renda. A profissionalização das associações, com mecanismos de fomento público, pode fazer com que parte dos recursos mobilizados também produza emprego e renda digna — inclusive para quem historicamente teve seu trabalho desvalorizado ou foi afastado do mercado formal pelas desigualdades sociais e pelos efeitos da política proibicionista.

Litza Aoni
Bruna Pfiffer
Advocacia da Maconha


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