No último dia 28, o Tem Reggae teve a oportunidade de apoiar e experienciar o Negril Sound System Festival, em um lugar hiper marcante e simbólico para comemorar a cultura jamaicana no Rio de Janeiro, o MUHCAB, Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira. Pensado e idealizado por Juju Rude, já entrevistada na nossa coluna (leia aqui), o festival se propôs a entregar uma experiência pioneira de cultura jamaicana, construída por pessoas negras e atravessada pela consciência de que reggae é para além de música e ritmo, pois contempla também território, memória, corpo, educação e resistência.
Ao se aproximar do espaço, já dava para sentir o grave da radiola maranhense Rebel Music, na presença de Carlos Rebel Music, e antes mesmo da programação se abrir por completo, já pudemos ver as caixas, os vinis, as bandeiras, famílias, crianças, encontros, reencontros e a beleza das cores vermelho, amarelo e verde, que desenhou todo o cenário que sustentou a tarde e à noite.

E tudo começou com Gatha Queen, colocando os corpos presentes para mexerem ao som do dancehall, experiência que embelezou desde o princípio pela participação de mulheres em seus diversos corpos, colocando em pauta todos os movimentos possíveis e relembrando cenas momentâneas de um carnaval jamaicano, que faz entender como dança, rua e liberdade contam histórias e mantém a cultura.
Não só por sustentar uma produção enraizada na negritude, o festival também abriu espaço para o conhecimento, com Jef Rodriguez, rapper, DJ e arte-educador, conduzindo a palestra sobre a influência da música jamaicana no Hip-Hop e na música pop mundial, costurando pontes entre ritmos, tecnologias de rua, diáspora e linguagem urbana. Marcando a lembrança importante de que o sound system atravessa fronteiras, funda cenas, educa escutas e ajuda a organizar comunidades em torno do som.
Ao final da fala, para percorrer pesquisa, memória e linguagem, Jef ainda abriu um pocket show, cantando uma versão de ‘Slave Driver’, de Bob Marley, atravessada por um rap incidental de OQuadro, banda da qual também é vocalista.
Por sua vez, Carolina Santos, pedagoga e pesquisadora, reafirmou a memória e espiritualidade africana, apresentando a história da Etiópia através das cores do reggae, destacando o impacto histórico, político e cultural do Pan-Africanismo e da herança etíope contida nas bases estéticas e identitárias do movimento rastafari.

Bruna Cafuza trouxe aos nossos paladares os sabores territoriais da ilha caribenha, proporcionando uma explosão gastronômica com pratos e drinks inspirados, com ingredientes característicos da cultura alimentar jamaicana. O alimento entrou no texto como eixo, porque, em um festival que se propõe a falar de cultura, ancestralidade e coletividade, comer também é uma forma de lembrar, de circular afeto e de sustentar presença.
Com o passar dos acontecimentos, pudemos ver um público rico e diverso em gerações, famílias e suas crias, tinha gente chegando pela música, gente chegando pela cultura, gente chegando pela curiosidade e gente que já carrega o reggae como caminho há muito tempo.
Apreciamos a presença de Riba, DJ da Dinossauro Disco Records, lançando seus vinis mais raros do reggae nacional e internacional e no line de DJs, também contamos com uma diversidade territorial que fortaleceu a proposta do Negril: RudGirl, diretamente de BH; IBEJIZ, de Santa Catarina; Lys Ventura, de São Paulo; além de BNegão Bota Som, Juju Rude convidando Breddas e Luana Karoo, e a própria Radiola Rebel Music, do Maranhão, que nos fez ouvir as diferentes vertentes da mesma cultura.
E, para além do que estava desenhado no line, o evento também foi atravessado por presenças convidadas que somaram força à noite, como Mistah Jordan e Jerubanto. Jerubanto transformou o espaço em uma espécie de culto, com o público inteiro convertido em seu rebanho e ele, naquele instante, assumindo a condução como nosso pastor, não no sentido de afastar a festa do chão, mas de ampliar sua vibração coletiva e comunitária.
Essa diversidade importou porque o Negril não se colocou como um evento de consumo rápido, mas se apresentou como um espaço de circulação de linguagens e tecnologias negras. O sound system, nesse sentido, saiu da forma de equipamento para uma forma de organização, com voz, seleção musical, pesquisa, dança, culinária, fala pública, memória afro-diaspórica e encontro intergeracional.
E foi nesse percurso que a apresentação de Juju Rude com Breddas ganhou uma força especial. O Breddas Reggae Music é formado por três MCs/toasters e um DJ do Rio de Janeiro, Wellington Fyah, cantor e chef de culinária I-tal; Haroldjah, músico e artista audiovisual; Alexandre Kdoum, músico e artista plástico; e Dän-K, que é quem bota o som dessa crew.
Em conversa de apuração para esta coluna, Wellington contou que o Breddas surgiu há aproximadamente dez anos, depois que o trio, até então em trabalhos solo, se apresentou em uma sessão de Sound System produzida pelo coletivo Ginga Rainha Sistema de Som, originário do Jardim Catarina, periferia de São Gonçalo. Rolou uma conexão musical imediata, que possibilitou depois, a integração do DJ Dän-K, o grupo fortaleceu suas apresentações e consolidou uma identidade própria dentro da cultura Sound System.
O nome Breddas carrega uma ideia de irmandade, inspirado nas variações linguísticas do patois jamaicano e rastafari, próximas da noção de brother, bredren, irmão, o grupo se afirma como encontro de vozes, repertórios e vivências. Não por acaso, sua trajetória também passa por territórios simbólicos da cultura rastafári no Rio de Janeiro, como o Jamaicasana, e lembrado pelo grupo como lugar importante para a memória rastafari brasileira.
Mas o ponto que mais ficou suspenso de quem assistiu, foi o final da apresentação: a performance do pergaminho, Breddas transformou a música em uma cena de manifesto e compromisso. Não se tratou de adereço ou recurso teatral gratuito; o pergaminho apareceu naquele contexto da apresentação, como um documento vivo, aberto diante do público para dizer que a cultura também planta e alimenta, e o pergaminho trouxe isso em forma de denúncia e convocação. Diga-se de passagem, é nesse lugar que mora o reggae.
Naquela apresentação, o grupo executou ao vivo, pela primeira vez, a música ‘Soberania Alimentar’, faixa que será lançada em breve e que, foi acompanhada por um manifesto em formato de pergaminho. A canção dialoga diretamente com agricultura urbana, agroecologia, educação ambiental, cuidado comunitário, compostagem, hortas, relação com o lixo e com o tempo da terra. Em vez de apenas cantar sobre natureza de forma abstrata, Breddas aproxima o discurso da vida cotidiana: acordar cedo, plantar, esperar germinar, cuidar e entender que nem tudo responde ao tempo acelerado e desumanizado da produtividade.
No percurso do Breddas, esse tema também se conecta à atuação de Wellington, que atualmente está na linha de frente da movimentação junto ao grupo da Horta dos Prazeres, com oficinas de plantio, atividades para crianças e a implementação da composteira comunitária.

No manifesto escrito como parte da performance ao vivo de ‘Soberania Alimentar’, Breddas anunciou:
“Manifesto Expresso. Florestania!
Essa é uma homenagem a todos os agricultores, camponeses e urbanos. Mantenedores da vida.
Saudações à agricultura familiar, aos povos originários que resistem.
A exemplo, dentro da maior floresta urbana do mundo, o Rio de Janeiro, uma cidade-luz.
Pequenos focos causam grande impacto.
Salve as iniciativas de Agroecologia.
Herança ancestral, resgatem, mantenham, tragam para dentro das cidades.
Florestania.
Salvem-se!”
A palavra Florestania, apresentada no manifesto, abre uma chave importante para esta coluna no Cannabis Monitor, porque, quando falamos de cannabis dentro de uma perspectiva cultural, rastafari e antiproibicionista, também é necessário falar de todas as plantas, de todos os cultivos e de todos os modos de vida que foram criminalizados, apagados ou arrancados de seus territórios. Breddas ampliou a conversa, tratando a cannabis dentro de uma cosmologia vegetal maior, onde a terra é um corpo vivo, as plantas são sagradas e o alimento precisa voltar a ser entendido como direito, tecnologia ancestral e uma prática de liberdade.
E é por isso, que Soberania Alimentar não aparece como tema deslocado em um festival de reggae, pelo contrário, ela revela uma das raízes mais profundas dessa cultura. O reggae sempre falou de fome, desigualdade, espiritualidade, libertação, diáspora e retorno, e falar de agricultura familiar, povos originários, camponeses e agricultores urbanos é também tratar de quem mantém a vida de pé enquanto a cidade tenta esquecer de onde vem a comida.
A presença do DJ Dän-K, e associado pelo grupo às práticas de agricultura urbana e educação ambiental, também ajuda a compreender o gesto do pergaminho, porque, a performance não diz que a música termina quando acaba o show, ela vai continuar lá na horta, na composteira, podendo ser na escola, na cozinha, na feira, na quebrada, no quintal ou em quem saiu dali se perguntando o que pode cultivar, preservar ou devolver para a cidade.
O mais bonito é que tudo isso aconteceu sem quebrar o fluxo da festa, pelo contrário, o manifesto veio de dentro do ritmo, depois de uma tarde inteira em que dança, palestra, comida, vinil e sound system já tinha preparado o público para compreender que a cultura é um organismo, e completo.
Pode parecer simples, mas não é. Em tempos em que muitas experiências culturais são reduzidas a programação, foto e circulação de marca, o Negril Sound System Festival afirmou uma outra possibilidade, a de um evento que se organiza a partir de pertencimento, consciência negra, memória afro-brasileira, cultura jamaicana e compromisso comunitário. O fato de acontecer no MUHCAB intensificou tudo isso, trazendo o museu como cenário e também parte da narrativa.
O Tem Reggae chegou para apoiar e experienciar, mas saiu também com a sensação de ter presenciado uma edição que aponta caminhos. O Negril reuniu artistas, selectas, pesquisadores, cozinheiras, dançarinas, famílias, comunicadores e coletivos em torno de uma cultura que respeitam, e que se reinventa para permanecer viva. E, no meio desse movimento, Breddas deixou um recado que merece destaque para além de apenas um dia: soberania alimentar é também soberania de corpos, de territórios, de sementes, de plantas e de futuros possíveis.
No fim, o grave que recebeu o público na chegada, se transformou em várias outras coisas. Continuou grave, é claro, mas também ajudou fincar a raiz do reggae na Pequena África do Rio de Janeiro, permeando a lembrança que a cidade também é floresta, alimento é política, planta é memória e a cultura, sustenta a raiz do mundo.








