Nós somos a planta

Não somos estranhos à cannabis. Somos, em algum nível profundo, feitos para ela
Ganja 3D Nós somos a planta

Escultura da série Trans Espécie: Eu Planta. | Foto: Aníbal Junior

Três décadas depois, entre 1992 e 1995, Mechoulam e sua equipe identificaram os primeiros endocanabinóides produzidos pelo próprio corpo humano, a anandamida e o 2-AG, abrindo caminho para a compreensão do sistema endocanabinoide: uma rede complexa de receptores presentes no cérebro e no corpo de todos os mamíferos, dedicada a regular funções essenciais como humor, memória, dor, apetite e sono.

O detalhe que transforma tudo é perceber que esse sistema foi moldado ao longo de milhões de anos de evolução para receber exatamente os compostos que a cannabis produz, os fitocanabinóides. Mechoulam dedicou mais de 60 anos à pesquisa canabinóide e faleceu em 2023, aos 92 anos, deixando uma das maiores contribuições da ciência moderna. 

Quando descobri isso, algo se reorganizou dentro de mim. A relação intuitiva, criativa e pessoal, que eu tinha com a planta, ganhou uma nova dimensão em que a ciência confirmava o que meu  corpo já sabia. Não somos estranhos à cannabis. Somos, em algum nível profundo, feitos para ela. E ela, ao longo de milênios de cultivo e seleção, foi sendo feita por nós.


Espécies companheiras


A filósofa e antropóloga Donna Haraway cunhou o conceito de “espécies companheiras” para descrever relações de coevolução entre espécies diferentes, relações em que cada uma molda e é moldada pela outra ao longo do tempo. Haraway desenvolveu o conceito pensando principalmente em cães e humanos, mas a ideia se expande com força para a relação entre a espécie humana e a cannabis.

Pense assim: ao longo de milênios, cultivamos, selecionamos e aprimoramos a planta para fins rituais, medicinais e recreativos. Escolhemos as variedades que mais nos serviam, desenvolvemos técnicas de cultivo, criamos culturas inteiras em torno do seu uso. Mas a relação não foi de mão única. Enquanto transformávamos a planta, nossa fisiologia respondia a ela, e o sistema endocanabinoide é a prova viva dessa troca.

Nós somos a planta. E a planta é parte de nós. 

Haraway nos lembra que não existem sujeitos e objetos pré-construídos nessas relações, o que existe são trocas, propagações, dependências mútuas que se constroem ao longo do tempo. A cannabis não é um objeto que usamos. É uma presença com quem nos relacionamos, e essa relação nos transformou tanto quanto transformou a ela. A domesticação foi recíproca.

Como afirma o neurocientista Sidarta Ribeiro, a cannabis é uma planta professora. Não apenas no sentido metafórico, mas no sentido literal de que ela interage com nossa biologia de formas que ainda estamos aprendendo a compreender. E aprender com uma planta exige humildade, exige reconhecer que existem formas de inteligência e de relação que precedem e excedem o que chamamos de Ciência.


O sistema que foi silenciado


O sistema endocanabinoide foi descoberto décadas depois que a proibição da cannabis já estava em vigor no Brasil e em boa parte do mundo. Isso significa que proibimos uma planta antes de entender que nosso próprio corpo foi feito para recebê-la. A proibição não apenas criminalizou uma planta, mas silenciou um campo inteiro de pesquisa científica por décadas.

Mas o que exatamente nosso corpo estava preparado para receber? A resposta passa pela homeostase: o equilíbrio interno do organismo. É exatamente isso que o sistema endocanabinoide regula, mantendo o corpo em equilíbrio diante das variações do ambiente interno e externo.

Quando esse sistema está em desequilíbrio, o corpo adoece. Quando a cannabis entra em cena, os fitocanabinoides se encaixam nos receptores como uma chave numa fechadura, uma fechadura que a evolução passou milhões de anos construindo.

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Escultura da série Trans Espécie: Sistema Endocanabinoide. | Foto: Aníbal Junior.


E essa fechadura não esperou a planta para começar a funcionar. Há um dado que poucos conhecem: o nosso próprio organismo produz substâncias chamadas endocanabinoides, como a anandamida, cujo nome vem do sânscrito e significa “bem-aventurança”. Ou seja, antes mesmo de qualquer contato com a planta, nosso corpo já fabrica versões internas dessas moléculas. A cannabis, nesse sentido, não invade um sistema estranho, ela ressoa com algo que já existe em nós.

Esse silenciamento científico, porém, não foi acidental. Foi político. A proibição da cannabis no Brasil carregou desde o início um viés racial e colonial, associando a planta às populações negras e periféricas como forma de controle social. Ao negar a ciência do sistema endocanabinoide, negou-se também a legitimidade de uma relação milenar entre povos e planta. E a arte tem o papel de tornar visível o que o poder tentou apagar.


As esculturas como corpo dessa tese


Na série Trans Espécie, que compõe a pesquisa As Dimensões da Planta, tento materializar essa aliança evolutiva em forma escultórica. O termo trans espécie, que em outros contextos explora identidades que transitam entre o humano e o não humano, aparece aqui como proposição – somos seres híbridos, que carregamos no próprio corpo a marca de uma relação milenar com a planta.

Eu Planta investiga as relações de interdependência entre seres humanos e a planta da cannabis, propondo uma reflexão sobre os limites entre natureza, cultura e identidade. A obra apresenta duas formas que se encaram. Entre elas, um rosto subtraído do corpo-vegetal, elemento que atravessa e une os dois corpos numa mesma existência. Essa conexão materializa visualmente uma relação construída ao longo de séculos de convivência, cultivo, uso e transformação mútua.

Mais do que representar a planta como objeto, a obra a posiciona como agente de troca e influência recíproca, sugerindo que humano e vegetal participam de uma mesma rede de existência. Ao aproximar elementos orgânicos e artificiais por meio da escultura, Eu Planta convida o público a perceber que as fronteiras entre espécies são menos rígidas do que parecem, revelando um campo de relações onde o “eu” se constitui também a partir do encontro com o “outro”.

Colônia ou Alastrar segue na mesma direção, mas pelo caminho da distopia e da esperança, ao mesmo tempo. A obra integra a série Trans Espécie e investiga os processos de coexistência, transformação e atravessamento entre humano e vegetal. Uma cabeça humana gradualmente tomada por uma estrutura orgânica que remete simultaneamente ao crescimento de uma planta, a uma colônia e a um organismo em expansão.

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Escultura da série Trans Espécie: Colônia ou Alastrar. | Foto: Aníbal Junior.


A forma vegetal não aparece como adorno, ela ocupa, modifica e reconfigura o corpo, sugerindo o surgimento de uma identidade híbrida. Inspirada no conceito de “fazer da ruína jardim” da antropóloga Anna Tsing, que pesquisa relações interespecíficas em tempos de colapso, a obra questiona a ideia de autonomia do sujeito humano e convida o espectador a imaginar futuros em que as fronteiras entre espécies se tornam porosas, dando origem a novas formas de existência, percepção e inteligência.

Essas obras são construídas em técnica mista: modelagem digital, impressão 3D, cerâmica fria trabalhada à mão, espuma expansiva, filamento plástico, tinta spray. A máquina começa onde a mão ainda não chega e a mão termina onde a máquina não sente. O processo em si já é uma encenação da tese: assim como a relação entre humano e planta, é uma coexistência de lógicas diferentes que produz algo que nenhuma das duas produziria sozinha.


Trans espécie como posição no mundo


Ser trans espécie não é uma fantasia nem uma metáfora poética. É uma forma de reconhecer que as fronteiras entre o humano e o não humano são muito mais porosas do que a cultura ocidental moderna nos ensinou. Somos feitos de outros seres, de bactérias, de fungos, de vínculos com plantas que atravessam nossa história há muito mais tempo do que qualquer estado-nação ou sistema jurídico.

A cannabis faz parte dessa trama. Ela não entrou na nossa história ontem. Ela está conosco desde antes da escrita, desde antes das cidades, desde antes de qualquer lei que tentasse separar o que a evolução uniu. E quando coloco isso numa escultura, quando dou forma a um corpo que é ao mesmo tempo humano e vegetal, estou propondo uma outra forma de existir no mundo, mais porosa, mais atenta, mais disposta a reconhecer as alianças que nos constituem.

O sistema endocanabinoide é a confirmação da ciência de algo que a arte já sentia. E a arte é o espaço onde essa confirmação pode ser habitada, não apenas compreendida.


O que a arte faz que a ciência não faz


A ciência descreve o sistema endocanabinoide. A arte o habita.

Quando alguém para diante de uma obra e sente algo que não consegue nomear, uma proximidade estranha, uma familiaridade inesperada ou mesmo um estranhamento, é porque foi tocado por algo que o dado científico, sozinho, não alcança.

A arte não busca provar relações, ela as torna sensíveis. Cada pessoa vê, sente e interpreta a obra a partir de sua própria experiência. Há uma diferença profunda entre conhecer uma informação e vivê-la. É nesse espaço entre o saber e o sentir que a arte produz seus significados. 

Sentir, às vezes, é o que precede entender. E entender, outras vezes, só se completa quando o corpo também participa.

Nas próximas colunas vou falar sobre as outras séries da pesquisa e sobre os conceitos que as atravessam: semiótica, neurociência da criatividade, botânica decolonial, a cultura do fumar como linguagem. 

A planta tem muitas dimensões. Estamos só começando.


Anibal Junior Ganja 3D


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