A cantora e compositora Marina Peralta (Foto: Reprodução/redes sociais)
Maio ficou para trás, mas não deixaríamos de registrar que maternidade não é só simbologia; é vivência no cotidiano, trabalho invisível, muita política e arte, e nesta ocasião, se manifestou em forma de música. Esta edição da coluna ganhou corpo para homenagear o Mês das Mães, mas também acabou sendo um presente para esta colunista que vos escreve.
Afinal, fechei o mês comemorando meu aniversário e, como também sou mãe, não haveria presente mais emocionante: ouvir quem transforma cuidado em mensagem pública por meio de uma conversa matinal, deliciosa e acolhedora, sem nos deixarmos cair na armadilha social do “romantiza que passa”. Hoje, poucas vozes (sem exclusividade de gênero) vêm fazendo isso com a força e a serenidade que contemplam Marina Peralta.
Diretamente de Campo Grande (MS), Marina trata a música com base no cotidiano da vida, sem separar uma coisa da outra, carregando uma identidade, que menciona ser “fora do eixo”, e que resiste ao molde pronto do mercado. Ela sustenta essa resistência com uma narrativa que sempre escolheu, a verdade para além da fórmula.
Marina nos contou que o reggae entrou na sua trajetória, através da palavra e não do ritmo: “o reggae chega na minha vida… não foi nem pela sonoridade inicialmente, foi pela narrativa”. Uma narrativa que já vinha desenhada na sua história familiar, ela pontua: “a gente sempre teve muita música” e sua relação com a igreja, que não foi uma escola de moral, mas uma escola que podemos dizer, de espírito crítico: “graças a Deus eu tive uma relação com a igreja inspirada na vida de Jesus… Jesus ser um cara revolucionário.”
Um detalhe que nos ajuda a entender por que, em sua obra, o reggae não é só “vibe boa” … Para Marina, a música tem seu valor na coragem de encostar nos conflitos, e foi assim que ela se percebeu no reggae brasileiro antes mesmo de se aprofundar nas raízes jamaicanas: “antes de conhecer o reggae jamaicano, eu conheci o reggae brasileiro.” E, nomear uma porta de entrada, ela traz destaque: Ponto de Equilíbrio aparece como encontro de espiritualidade, denúncia e esperança.
Ao falar de referências, Marina foge de um lugar-comum pois, rejeita a ideia de uma lista parada no tempo e se define como alguém em permanente escuta: “eu amo tá antenada nas mina nova que estão chegando… no rap, no trap, no funk… em tudo que tá acontecendo.”
Ainda assim, ela revela camadas do que a formou: o samba do pai, os discos “mais românticos” da mãe, o reggae nacional (Mato Seco, Ventania, Adão Negro) e o rap, que funcionou como espelho e permissão, especialmente quando viu mulheres rimando e ocupando espaço: “eu olhava e falava: nossa, acho que eu posso fazer isso.” Nomes como Negra Li, Flora Matos e Stefanie foram fundamentais, segundo ela, para abrir caminhos e permitir essa identificação.
Mato Grosso do Sul: cena autoral e sound system
Marina relembrou de Campo Grande como uma cidade que “borbulha” criação, marcada pela fronteira com Paraguai e Bolívia, e por uma vida cultural em movimento, repleta de festivais e uma cena autoral forte. Um ponto específico onde a história dela tomou densidade foi o Rockers Bar, espaço de reggae que operava com sound system.
Foi ali que ela começou tocando violão e encontrou espaço para crescer, tornando-se pioneira na linha de frente das sessões: “fui uma das primeiras mulheres a pegar o microfone na sessão de sound… a tentar riscar umas rimas durante as sessões do sound system.”
Ela também destacou a importância do ambiente local para que artistas se habituassem a inserir repertório autoral nos shows, mesmo sob o desafio comercial de “fazer as pessoas conhecerem as canções”.
Essa “escola” teve um efeito direto na forma como ela entende sua carreira: cedo, Marina montou um repertório majoritariamente autoral, mesmo sabendo o tamanho do desafio de colocar música própria nos ouvidos do público. Ela fala disso com orgulho e com a lembrança de que a ousadia é coletiva: foi um movimento local, de gente “botando a cara a tapa”, que ajudou a pavimentar o caminho dela.
Grande palco, raiz “fora do eixo” e o risco de padronização
Quando Marina se vê convidada para um palco gigantesco e ela faz questão de contar que o convite chegou até ela (“eu não fui atrás, eu recebi esse e-mail”) — a emoção a toma através de um pensamento que muita gente de fora do eixo conhece: “será que dá?”, “será que tem espaço para o que eu canto?”.
E o que ela canta não é neutro, nem nunca foi, o que torna sua chegada a esse espaço ainda mais simbólica: “fiquei muito orgulhosa… representando as mulheres… venho de um lugar fora do eixo.” Ela interpreta esse movimento como parte de uma disputa por visibilidade de regiões fora do eixo tradicional (Sudeste), mencionando que Mato Grosso do Sul costuma ter menor presença em editais e circuitos nacionais, apesar de sua potência artística.
Uma das partes mais preciosas dessa conversa foi também, ela revelar sobre viver hoje em São Paulo. Em vez de se entregar à narrativa de “crescimento”, Marina falou do conflito e identidade: “cada vez que eu estou aqui eu vou percebendo mais o quanto eu não sou daqui.”
Ela descreveu a pressão (muitas vezes silenciosa) para se parecer com o que já está acontecendo — para se “homogeneizar” — e admitiu que houve um momento em que sentiu estar perdendo a própria marca, mas como saída, fez o “caminho de volta”: observar a própria métrica, o próprio timbre, as escolhas de nota, as referências da infância, a memória do que a formou… inventando o futuro sem apagar sua origem.
Militância, universidade e as canções como ferramenta
Marina faz uma ponte biográfica entre música e política ao contar que entrou na universidade por volta de 2010, começou em Filosofia, depois migrou para Psicologia (UFMS) e, desde o início, se juntou à militância. Ela descreveu frentes diversas que atuou, na ideia de que a luta não pode ficar dentro do campus, e a importância de uma relação respeitosa com povos indígenas — presença em rodas, conferências, visitas aos territórios, apoio real, não “pesquisa e sumiço”.
Ela conclui com uma frase que explica muito do que vem depois: “é automático que isso apareça dentro das minhas canções.” Assim, Marina define o começo de sua discografia através da estética do necessário: linguagem simples, sem rebuscamento, mas com um “grito sincero” de mudança.
Maternidade: rotina, tempo e rede de apoio
Então chegamos ao coração de maio: maternidade. Falta de tempo, energia que se divide, cabeça com “diversas abas abertas”, Marina entrou no assunto com verdade e falou que “A maternidade transforma todas as coisas” descrevendo algo que muita mãe reconhece sem precisar explicar.
Há um trecho particularmente honesto (e raro) sobre criatividade no puerpério: quando a primeira filha nasce, Marina sentiu como se toda a potência criativa tivesse sido usada ali, em uma “obra” que é a de gerar uma criança, resultando em um vale criativo.
Ela dá o nome sem culpa, lembrando que cada mulher tem um tempo, e que esse tempo é atravessado por classe, rede de apoio e condições materiais: “depende do contexto, depende das condições sociais… depende da sua rede de apoio.”
“Mama Respect” certamente funciona como um espelho para muitas mulheres, principalmente para esta mama que vos escreve. Logo após o nascimento da minha filha, eu a fazia ninar ao som de canções como “Ela encanta”, “Deusa do Gueto” e “Agradece”.
Foi em algum momento dessas escutas que me surgiu “Mama Respect”, caindo como uma luva e fazendo total sentido para aquele momento do puerpério. Vivíamos ali tempos muito próximos em nossas gravidezes. Essa faixa, que embalou meus dias, é tratada por Marina como uma canção que não foi planejada: “foi tão natural… eu não racionalizei.”
Ela conta que, ainda hoje, às vezes a voz embarga no palco ao cantá-la, evidenciando como sua arte e sua vida estão coladas, e de como a maternidade ocupa tudo, exatamente como no verso: “eu até tentei falar de outro assunto, mas… ocupou tudo.”
Clipe de “Mama Respect”:
Mãe de duas meninas, Marina fala da diferença concreta “ser mãe de uma é muito diferente de ser mãe de duas”: o amor duplica, mas “o cansaço também, a organização também.” E é aqui que ela traz uma das falas mais úteis, como um conselho de saúde mental, para mães que trabalham e criam: escolher bem as referências. Se você se mede por gente que vive outro ritmo (especialmente sem filhos), a frustração vira rotina. “Se referenciar em pessoas que vivem uma vida muito diferente… a gente vai sofrer demais, porque o ritmo é diferente.”
O respeito às mães não pode ser só discurso
Quando colocamos à mesa o tema feminicídio, a partir do verso “peço mais vida pra quem gera vida”, Marina faz uma virada certeira: ela aponta a contradição cultural do discurso de respeito “ninguém mexe com a minha mãe” coexistindo com a negligência cotidiana.
Um clássico exemplo do homem que idolatra a mãe no discurso, mas deixa todo o trabalho invisível de cuidado nas costas dela em casa. E juntas concordamos: às vezes, se trata de um homem adulto, de 40 anos, incapaz de lavar uma louça.
A crítica não para no privado e ela mostra como esse apagamento aparece até em espaços ditos “progressistas”, em eventos pensados para mulheres onde, no fim, as mães ficam no canto cuidando da criança e não conseguem vivenciar o que também deveria ser para elas. Levando essa provocação para o palco, Marina descreve uma dinâmica de seus shows: quando pergunta “tem pai aí?”, muitos homens confirmam a presença orgulhosos. É nesse momento que ela lembra, de forma cirúrgica, que para aquele pai estar ali, pode haver uma mãe em casa impedida de sair.
O ponto central dela é simples e radical sobre maternidade precisar ser comunidade, não isolamento. “As crianças precisam ser criadas em comunidade”, ela diz e, junto, vem o chamado para normalizar ajuda real. Se alguém oferece apoio, ela avisa: “eu vou ligar.” Porque lembrar da mãe, incluir a mãe, perguntar “tem com quem deixar as crianças?” também deve ser política do cotidiano.
Voltando ao contexto de violência de gênero, na pergunta “como isso atravessa sua criação, sendo mãe de meninas?”, Marina responde sem blindagem: “com medo.” O que ela constrói, é um método afetivo de proteção: um espaço doméstico onde as filhas não tenham medo de contar o que acontece, mesmo quando erram, e uma educação que não esconde o mundo, apenas organiza o tempo certo para entendê-lo.
Lua, a primogênita (hoje com 9 anos) “já sabe que o mundo é mil grau”, e isso convive com um esforço diário de desconstrução de padrões desde as coisas “pequenas” (roupa, brinquedo, liberdade de expressão do corpo e da imaginação), porque, como ela bem resume, “essas coisinhas… moldam padrões de comportamento.”
Cannabis: educação, responsabilidade e o fim do método de culpa
Como essa coluna é publicada aqui no Cannabis Monitor, a conversa também atravessou um tema que costuma vir carregado de julgamento, especialmente quando encosta na maternidade. Marina trata a cannabis como assunto de educação, responsabilidade e, principalmente, de desmontagem de estigma. Isso fica explícito em seus versos de “Gente de Bem”: “Mulher e mãe maconheira, feminista / Pega a pistola de ideia pra mirar mais um fascista”.
Clipe de “Gente de Bem”:
Ela explica por que não gosta de “esconder” ou “fingir que não fuma”: para ela, o segredo reforça a ideia de crime moral e produz uma maternidade baseada em medo e culpa. Na casa dela, a escolha é da seguinte forma: não há normalização de álcool, não há exibição de descontrole e há uma compreensão de que se trata de uma planta, sem negar os limites: “fumar não faz bem pra saúde”, então o cuidado precisa existir.
Mas Marina vai além do doméstico e diz que não consegue falar de maconha sem falar de criminalização, racismo e classe. E a forma de educar passa por questionar a própria proibição: “é proibido…, mas por que é proibido? de onde veio essa proibição?”. Na visão dela, crianças não devem ser treinadas a aceitar interditos como fossem “da natureza”; devem aprender a pensar criticamente sobre o que é tratado como regra.
O papo caminha para o papel da mídia e da informação, e Marina é direta: veículos sérios são “fundamentais”. Ela conta que recebe muitas perguntas de mães, em especial grávidas, amamentando ou na lida com o cuidado e percebe que ainda há escassez de material validado e, sobretudo, de espaços sem julgamento, produzidos por mulheres e com escuta real. Ela insiste em dois eixos: informação para reduzir culpa e cuidado para proteger as crianças, sem transformar mães em santas obrigatórias: “parece que a gente vira mãe e tem que virar a Madre Teresa… eu não gosto disso.”
Coletivo e mercado musical
A conversa se aproxima do processo criativo e das parcerias, e Marina devolve tudo para o lugar social: “na música se reflete o que já é tido na sociedade”. Ela nomeou a competição ensinada às mulheres, a mudança que o movimento feminista vem provocando e confessou algo que vale como diagnóstico de cidade grande: em São Paulo, o “corre individual” pode adoecer. Por isso, ela está num momento de “recoletivizar”: “eu preciso de coletivo para lembrar das minhas potências… sozinha eu esqueço.”
E, em meio a essa busca, vem uma surpresa gostosa: Marina prepara um disco novo para agosto, um trabalho que não será um “disco de reggae” estrito, mas um disco que amplia perspectivas, atravessado por corpo, maternidade, cidade e origem. Como ela mesma diz, carrega a “responsa do reggae” com orgulho, mas ama a música em sua totalidade e quer experimentar outras texturas também.
Um recado de maio
Por fim, encerramos esse diálogo riquíssimo com Marina materializando essa realidade materna: a conversa precisou terminar porque era hora do almoço e de levar as crias para a escola. Ela nos deixou uma mensagem que soa como antídoto contra a culpa: confiar na singularidade da própria contribuição.
Marina reconhece o equilíbrio quase impossível entre correr e não negligenciar os filhos e, ao mesmo tempo, afirma que esse movimento também educa – a criança cresce vendo uma mãe que não apagou a própria existência.
“A gente não é só mãe”, diz ela. E arremata como quem sabe que viver sem poesia é pior: não romantizar a dureza e a dificuldade, mas procurar beleza suficiente para não enlouquecer, resistindo, “devagarzinho”, “com os filhos nos braços.”
Novo Lançamento “Indomables”:








