Não é de hoje que o turismo ligado à Cannabis deixou de ser nicho e passou a integrar a estratégia econômica de alguns destinos, como a Holanda, por exemplo. A combinação entre regulação, experiência turística e mercado legal já movimenta bilhões de dólares, e no Uruguai o tema vem com força dentro do IRCCA, o Instituto de Regulación y Control del Cannabis.
Não é para menos, só em 2025 o país recebeu mais visitantes do que habitantes. Foram 3.604.488 visitantes ano passado. No mesmo período, o turismo gerou US$ 2,04 bilhões em receitas, com crescimento de 16,6% nos gastos turísticos, segundo dados oficiais do Ministério do Turismo uruguaio. Agora, diante dessa crescente, o país discute um novo movimento estratégico: abrir o acesso legal à Cannabis para turistas estrangeiros.
Mas, conforme explicou, e fez questão de destacar, o diretor executivo do IRCCA, Martín Rodríguez, a regulação uruguaia da Cannabis não foi criada para “promover um negócio”.
“Ela nasceu da saúde pública, da segurança e dos direitos individuais. E o desenvolvimento do mercado existe como consequência da substituição de um mercado ilegal por um mercado legal”, disse em uma conversa exclusiva.
Fato é que hoje, os visitantes temporários não conseguem acessar a Cannabis por um canal legal no Uruguai. O modelo atual não contempla os turistas. Segundo Martín, a proposta em discussão é permitir que estrangeiros possam comprar uma das variedades de Cannabis que são oferecidas nas farmácias credenciadas do país.
“Estamos trabalhando nessa direção, embora ainda não possamos divulgar datas para quando irá começar. O Uruguai foi pioneiro com foco em saúde pública e liberdade individual, e agora surge a oportunidade de ampliar esse acesso também aos turistas, com o devido registro”.
Além disso, Martín acredita que a mudança pode ajudar inclusive no combate ao mercado paralelo. “Permitir que estrangeiros tenham acesso legal ajudaria a reduzir parte do mercado informal que ainda persiste”.
Clubes defendem participação no modelo turístico
Apesar da possibilidade de abertura via farmácias, parte do setor uruguaio acredita que limitar o acesso apenas a esse canal pode gerar gargalos. É o que afirma Rodrigo Fagúndez, proprietário da Arachanes Grow Shop em Montevidéu e responsável técnico de um clube canábico no país.
Segundo ele, turistas já conhecem a regulação uruguaia e muitos acabam recorrendo ao mercado informal.
“Hoje os turistas já entendem bastante bem como funciona a regulação no Uruguai. No começo eles acreditavam que também poderiam acessar legalmente, mas era explicado como funcionava. Mesmo assim, muitos conseguiam e ainda conseguem Cannabis no mercado informal”.

Para Rodrigo, liberar apenas as farmácias pode não resolver totalmente o problema. “Entendo que somente a farmácia não seja a melhor opção para o turista. Muitas vezes elas ficam sem estoque e o visitante acaba recorrendo ao mercado informal.”
Ele defende que os clubes canábicos também façam parte do modelo futuro. “Como dono de grow shop e responsável técnico de clube canábico, entendo que os clubes estão mais preparados para receber turistas. O ideal seria ter as duas opções para que o visitante possa escolher”.
Outro ponto, é em relação às desigualdades regionais no acesso:
“Se habilitarem apenas as farmácias, muitos departamentos (que são os estados do Uruguai) ficarão sem cobertura, porque há regiões onde não existem farmácias vendendo Cannabis. Já os clubes estão presentes em praticamente todo o país e oferecem mais variedades e qualidade”, finaliza.
O que está em jogo no Uruguai
Nos Estados Unidos, lugares como Califórnia e Colorado transformaram a Cannabis em parte da experiência turística, com dispensários, hotéis, tours e eventos especializados.
Há um tempo, investidores tentaram realizar um hotel temático no Uruguai de Cannabis, mas era outro timing e a iniciativa foi sem sucesso. Sabe-se que o fracasso foi mais por falta de regulação do que de interessados na experiência.
Uruguai: um lab latino da Cannabis?
Desde 2013, o modelo uruguaio foi estruturado em três formas legais de acesso: o cultivo doméstico, os clubes canábicos e a venda em farmácias.
A proposta nasceu com foco em saúde pública, redução do mercado ilegal e garantia de direitos individuais, transformando o país em uma referência internacional no debate sobre regulação da Cannabis.
Mais de uma década depois da legalização, os números mostram a consolidação desse sistema. Um informe, divulgado recentemente pelo IRCCA aponta que o país já soma 120.083 usuários registrados nas três vias legais de acesso à Cannabis.

Deste total, 88.955 pessoas estão cadastradas para adquirir produtos em farmácias, enquanto 20.798 fazem parte de clubes canábicos registrados. Atualmente, o Uruguai conta ainda com 60 farmácias habilitadas para a venda de Cannabis em diferentes regiões do país.
O relatório também revela um crescimento contínuo do mercado regulado uruguaio, tanto em produção quanto em vendas. Os dados mostram expansão da rede de farmácias, aumento da quantidade de usuários registrados e crescimento da circulação legal de Cannabis dentro do sistema monitorado pelo governo uruguaio.
Se avançar, o Uruguai pode inaugurar uma nova fase no continente: a de primeiro país da América Latina a estruturar um modelo regulado de acesso turístico à Cannabis.
Já existem empreendedores que recebem turistas com experiências exclusivas no país, como Larica Uruguay, onde, entre outras opções, alimentos com cânhamo são servidos. Criada, coincidência ou não, por uma brasileira radicada no país, este é um gostinho do que o Uruguai poderá oferecer a mais como experiência para seus visitantes.







