A cannabis avançou no Judiciário brasileiro, ganhou espaço na regulação sanitária e passou a integrar o cotidiano de milhares de pacientes, médicos e associações. Claro que ainda não é como gostaríamos, nem da forma que queríamos, mas o avanço é evidente.
No entanto, essa transformação não se refletiu com a mesma intensidade no ambiente digital. Ao contrário, perfis continuam sendo removidos, conteúdos são derrubados, publicações têm seu alcance reduzido e contas são impedidas de anunciar. A censura continua existindo e cada vez mais forte, com impactos incomensuráveis. Forma-se, assim, uma contradição evidente, já que, enquanto o Estado flexibiliza, as plataformas continuam proibindo.
Essa dinâmica costuma ser atribuída a “erros do algoritmo”, mas essa explicação é insuficiente. O que se observa, na prática, é a reprodução de um padrão estrutural de censura que não se apresenta de forma explícita, mas opera de maneira difusa, muitas vezes disfarçada sob justificativas técnicas ou neutras.
Como demonstram estudos recentes sobre liberdade de expressão no Brasil, práticas censórias contemporâneas tendem a se camuflar para não serem reconhecidas como censura, ainda que produzam efeitos concretos de limitação de vozes e conteúdos no espaço público (ORLANDINI et al., 2025). Nesse sentido, o ambiente digital não representa uma ruptura com o histórico de restrições à expressão, mas sua atualização sob novas formas.
No caso da cannabis, essa lógica se intensifica. Conteúdos educativos, perfis de associações, profissionais da saúde, operadores do direito, pacientes e usuários, são frequentemente enquadrados em políticas genéricas sobre “drogas”, sem qualquer distinção entre uso medicinal, informação científica ou debate jurídico. Adendo importante, defendo que usuários falem sobre maconha nas redes sociais e não tão somente o conteúdo medicinal.
É a fala do usuário que quebra os paradigmas e mostra a realidade brasileira, entre esse Brasil maconheiro medicinal e o Brasil maconheiro do uso adulto. Usuários são silenciados todos os dias, em casa, no ambiente de trabalho, nas ruas, nos círculos de amizade, nas famílias e, também, nas redes sociais, onde todos os outros silenciadores se aglomeram.
Essa ausência de diferenciação revela que não se trata de falha técnica, mas de uma política de moderação orientada por critérios amplos e pouco transparentes, que priorizam a redução de risco reputacional das plataformas em detrimento da pluralidade do debate. O capitalismo paga, né? Paga as redes sociais. O interesse fiel das redes é e sempre será no capital. No dinheiro. Em mão de obra barata ou menos custosa. O bem estar de quem as utiliza pouco importa.
Os efeitos dessa dinâmica ultrapassam a esfera simbólica e atingem diretamente a dimensão econômica. Perfis ligados à cannabis enfrentam bloqueio de anúncios, redução de alcance, como shadowban, instabilidade constante e limitação de crescimento. Na prática, cria-se um ciclo recorrente de crescimento orgânico seguido de restrição de visibilidade e impossibilidade de monetização.
Não se trata apenas de censura de conteúdo, mas de exclusão de mercado. Se o próprio mercado é excludente com pessoas pretas e periféricas, imagina o que as plataformas fazem com essas pessoas… A invisibilização digital compromete não apenas a circulação de informações, mas a própria sustentabilidade de iniciativas ligadas à cannabis.

Esse processo dialoga com uma característica central das práticas censórias contemporâneas: a capacidade de silenciar sujeitos e temas historicamente marginalizados, reduzindo sua presença no debate público e limitando sua participação social (ORLANDINI et al., 2025). No contexto da cannabis, isso significa que pacientes, usuários, pesquisadores e empreendedores continuam sendo empurrados para a margem, mesmo diante de avanços jurídicos e científicos.
A própria trajetória da cannabis no Brasil evidencia que o debate em torno da planta nunca foi exclusivamente técnico ou sanitário, mas profundamente político, social e racista.
Manifestações culturais associadas à cannabis historicamente funcionaram como instrumentos de crítica e denúncia das desigualdades estruturais. Como demonstrado em estudos sobre a produção musical brasileira, especialmente no contexto dos anos 1990, discursos ligados à cannabis não se limitavam ao entretenimento, mas atuavam como formas de conscientização e tensionamento da realidade social, evidenciando problemas como violência, desigualdade e ausência de políticas públicas (VARGAS JR., 2017).
Essa dimensão política da cannabis ajuda a explicar por que sua presença no espaço público, inclusive digital, continua sendo objeto de controle. Além disso, o tratamento desigual dado à cannabis em comparação com outras substâncias socialmente aceitas, como o álcool, evidencia que o problema não é apenas regulatório, mas também moral e histórico.
A cannabis carrega um estigma construído ao longo de décadas de política proibicionista, que ainda influencia decisões institucionais, inclusive no setor privado. Esse estigma não é neutro. Ele se articula com processos mais amplos de seletividade social e racial.
Pesquisas recentes sobre acesso à cannabis medicinal no Brasil demonstram que, mesmo com avanços legais, o acesso continua profundamente desigual, privilegiando determinados grupos sociais enquanto outros permanecem sob risco de criminalização (BERNARDO, 2025).
Essa seletividade, já presente no sistema jurídico, tende a ser reproduzida no ambiente digital, onde perfis com maior estrutura e capacidade de adaptação conseguem contornar restrições, enquanto iniciativas menores permanecem invisibilizadas ou vulneráveis. Quantos perfis de “Marcha da Maconha” você já viu ser censurado nas redes sociais?
Dessa forma, o ambiente digital passa a desempenhar, na prática, um papel regulatório. As plataformas definem o que pode ser dito, quem pode crescer e quem pode acessar mecanismos de monetização. Essa regulação ocorre sem debate público, sem controle democrático e sem alinhamento necessário com o ordenamento jurídico nacional. Em um cenário em que a política pública sobre cannabis ainda é fragmentada e incompleta, o algoritmo assume uma função que deveria ser institucional.
O resultado é um descompasso evidente. O Judiciário reconhece direitos, a medicina avança, a regulação sanitária evolui, mas o ambiente digital permanece operando sob uma lógica proibicionista. A cannabis existe juridicamente, mas continua sendo tratada como ilícita na infraestrutura digital. Assim como fora das redes, apesar dos avanços.
O digital copia o mundo fora das redes ou o mundo fora das redes copia o digital? Tenho me perguntado isso faz uns meses. Ainda não sei a resposta. Mas sei que tudo que é feito no mundo externo, o digital reproduz e censura.
Não se trata de atraso tecnológico, mas de uma escolha estrutural. O mundo externo não trata a maconha como deveria ser tratada, logo, o ambiente digital reproduz aquilo que é dito no mundo externo. Seria essa a resposta? Não sei, mas ao que tudo indica, isso não é uma falha do sistema, mas parte do seu próprio funcionamento.
REFERÊNCIAS
BERNARDO, Jéssica Djully da Silva. Salvo conduto para quem? Uma etnografia acerca do acesso à maconha medicinal por uma perspectiva antirracista, antiproibicionista e territorializada. Santa Rita: Universidade Federal da Paraíba, 2025.
ORLANDINI, Maiara; OLIVEIRA, Bruna Silveira de; CAMISASCA, Marina Mesquita; SANGLARD, Fernanda Nalon. Das ações censórias à resistência: mobilizações em defesa da liberdade de expressão artística no Brasil. Comunicação e Sociedade, Especial, 2025.
VARGAS JR., Paulo. Planet Hemp – Usuário: a relação entre o discurso da legalização da cannabis e o Brasil dos anos 1990. Pelotas: Universidade Federal de Pelotas, 2017.







