Onde o sistema impõe limites, eu construo caminhos 

Eu sou Marilene Esperança. E antes de qualquer rótulo, eu sou uma mulher que aprendeu, através da vida, que ninguém pode definir até onde eu sou capaz de chegar
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Não sou uma coitada por ser negra. Não sou menos importante por ser periférica. Não sou frágil por ser mãe atípica. Essas características não me diminuem e também não me tornam melhor do que ninguém. 

Elas apenas mostram a realidade de milhares de mulheres brasileiras que todos os dias precisam lutar duas vezes mais para ocupar espaços que sempre deveriam ter sido nossos também.

Minha trajetória não é sobre pena. É sobre força, dignidade e construção. Eu venho da periferia, conheço as dores da desigualdade e sei o que é precisar sobreviver enquanto o mundo insiste em dizer que determinados lugares não foram feitos para pessoas como nós. Mas eu nunca aceitei que minha origem definisse o tamanho dos meus sonhos.

Ser mãe do Lucas transformou completamente minha vida. Foi através da maternidade atípica que encontrei na cannabis medicinal uma esperança real de qualidade de vida, cuidado e dignidade. E aquilo que começou dentro da minha casa ganhou um propósito muito maior: lutar para que outras famílias também tivessem acesso à informação, acolhimento e tratamento.

Hoje, estar na presidência da AbraRio e ser a primeira ou talvez a única  mulher  negra a liderar uma associação de cannabis medicinal no Brasil não faz de mim privilegiada. Pelo contrário. Isso revela o quanto o preconceito ainda existe e o quanto ele continua impedindo mulheres negras de ocuparem espaços de liderança e destaque.

Porque a verdade é que capacidade nunca faltou para nós. O que sempre faltou foi oportunidade, reconhecimento e abertura.

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Marilene Esperança, presidente da Associação AbraRio. | Foto: AbraRio


Quando uma mulher negra ocupa um espaço onde quase não existem outras iguais a ela, isso não deveria ser visto como exceção. Deveria servir de reflexão sobre quantas mulheres foram silenciadas, invisibilizadas e desacreditadas antes dela.

Eu não quero ser símbolo de sofrimento romantizado. Não quero que olhem para mim apenas pela dor da minha caminhada. Quero que reconheçam minha competência, minha inteligência, minha coragem e minha capacidade de liderar, construir e transformar vidas.

Minha história não é só minha. Ela representa muitas mulheres negras, periféricas e mães atípicas que todos os dias seguem resistindo mesmo quando o sistema tenta convencê-las de que não pertencem a determinados lugares.

Eu pertenço. E quero que outras mulheres entendam que pertencem também. Que podem ser o que quiserem, ocupar o espaço que desejarem e sonhar sem pedir permissão para existir.

Porque mulheres como eu não nasceram para aceitar limites impostos pelo preconceito. Nós nascemos para abrir caminhos.


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