Prevenção e Educação sobre Álcool e Drogas nas Escolas: uma conversa com a especialista Maria Elena Goroso

Maconhômetro Educação recebe a psicóloga e pesquisadora Maria Elena Goroso e aprofunda o debate sobre a prevenção ao uso de álcool e outras drogas no ambiente escolar
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Psicóloga com experiência na área, Goroso compartilhou sua trajetória de pesquisa, que a levou do estudo sobre as trajetórias de vida de jovens usuários de drogas em Tucumã, na Argentina, à implementação de programas de prevenção em escolas, e discutiu os principais desafios e estratégias para um trabalho efetivo com adolescentes.


A trajetória da pesquisa à prática preventiva


Maria Elena iniciou sua fala explicando como sua pesquisa de mestrado, que investigava as histórias de vida de jovens usuários de substâncias, revelou um padrão de vulnerabilidades sociais e individuais. Questões como violência intrafamiliar, evasão escolar e precarização do trabalho eram comuns entre os entrevistados, que viam no uso de drogas uma “ferramenta para fugir dessa realidade”.

“Eles manifestavam dificuldade de controle de emoções, autoconhecimento, autodesvalorização negativa por ser usuário de substâncias, o medo, a vergonha de si mesmo diante desse estigma social de seu usuário”, relatou a pesquisadora.


Essa constatação a levou a buscar, em seu doutorado e pós-doutorado, alternativas de cuidado e prevenção que pudessem oferecer aos jovens “ferramentas mais saudáveis para eles poderem afrontar esses desafios da adolescência”. Foi nesse contexto que ela se aproximou da abordagem das habilidades de vida, uma proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS).


Habilidades de vida e a educação popular


A abordagem de habilidades de vida, segundo Goroso, consiste em um conjunto de competências psicossociais que auxiliam os indivíduos a tomar decisões mais informadas e a lidar com os desafios da vida cotidiana. No entanto, ela aponta que a implementação tradicional dessa abordagem muitas vezes peca por ser hierárquica.

Para superar essa limitação, a pesquisadora integrou à sua prática os referenciais da educação popular latino-americana.

“A gente toma as bases metodológicas [da educação popular] para justamente gerar essa horizontalidade, esse diálogo com o aluno e poder compreender também como que esse sujeito se torna um sujeito crítico da sua realidade, a tomada de decisão sobre os próprios cuidados da saúde e não só de si mesmo, também dos outros”, explicou.


Desafios no contexto escolar


Ao ser questionada sobre os principais desafios para a implementação de programas de educação sobre drogas nas escolas, Maria Elena Goroso destacou uma série de obstáculos, tanto estruturais quanto pedagógicos:

DesafioDescrição
Modelo de PalestraA preferência por palestras informativas em detrimento de metodologias mais dialógicas, como rodas de conversa, que são mais valorizadas pelos próprios alunos.
Dinâmica InstitucionalA dificuldade de integrar ações de educação em saúde ao currículo escolar devido à priorização de conteúdos e horários.
EstigmatizaçãoA tendência das escolas em direcionar as atividades apenas para os “alunos problemáticos”, reforçando estigmas e dificultando uma abordagem universal.
Formação DocenteA falta de capacitação e sobrecarga dos professores, que, apesar da boa vontade, não se sentem preparados para lidar com a complexidade do tema.
Falta de Políticas PúblicasA dificuldade na execução de leis e diretrizes existentes por falta de investimento e de profissionais de saúde nas escolas.


“Aparece essa dificuldade da transversalidade de incluir no currículo escolar a educação em saúde, que isso a gente já vem olhando há bastante tempo”, lamentou Goroso.


O álcool como ponto de partida


Outro ponto interessante da conversa foi a discussão sobre a necessidade de diferenciar as substâncias na abordagem pedagógica. Para Goroso, embora todas as drogas mereçam atenção, o álcool deveria ser o foco principal nas ações com adolescentes, por ser a substância de primeira experimentação e ter seu uso naturalizado culturalmente.

“As estatísticas mostram como tanto na região das Américas, da Argentina e do Brasil, é a primeira substância que os jovens têm acesso para fazer a experimentação, incluso quando eles têm menos de 12 anos. E a partir do uso de álcool, eles vão para o que eles chamam de drogas ilegais”, alertou.


Recursos e o panorama Brasil-Argentina


Ao final do episódio, a pesquisadora compartilhou materiais e recursos para educadores interessados no tema, como cartilhas e livros desenvolvidos pelo Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Outras Drogas (CREPEIA/UFJF) e por núcleos de pesquisa da Unifesp.

Ela também traçou um paralelo entre as realidades do Brasil e da Argentina, destacando que, embora as legislações existam no papel, a falta de investimento e de estrutura dificulta sua aplicação prática em ambos os países.

“Somos países vizinhos e tem muito mais coisas em comum do que diferenças, seja em questões de políticas, de saúde e de atravessamentos que fazem parte do nosso contexto latino-americano”, concluiu.


A conversa com Maria Elena Goroso no Maconhômetro Educação reforça a urgência de se repensar as estratégias de educação sobre drogas, movendo-se de um paradigma proibicionista e informativo para uma abordagem mais humana, dialógica e focada no desenvolvimento de habilidades para a vida, com a escola atuando como um espaço central de cuidado e promoção da saúde integral dos jovens.


O ep. Educação #15 | Álcool e Outras Drogas nas Escolas, com Maria Elena Goroso contou com produção, roteiro e edição de Gustavo Maia (CM), apresentação de Francisco Coelho e Cauê Galvão (GPED/UERJ), e edição de Antonio Said (Pinzeiro).


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