O 15º episódio do podcast Maconhômetro Educação, uma parceria entre o Cannabis Monitor e o Grupo de Pesquisa Educação e Droga (GPED/UERJ), trouxe uma discussão aprofundada sobre a educação para as drogas com a convidada Maria Elena Goroso.
Psicóloga com experiência na área, Goroso compartilhou sua trajetória de pesquisa, que a levou do estudo sobre as trajetórias de vida de jovens usuários de drogas em Tucumã, na Argentina, à implementação de programas de prevenção em escolas, e discutiu os principais desafios e estratégias para um trabalho efetivo com adolescentes.
A trajetória da pesquisa à prática preventiva
Maria Elena iniciou sua fala explicando como sua pesquisa de mestrado, que investigava as histórias de vida de jovens usuários de substâncias, revelou um padrão de vulnerabilidades sociais e individuais. Questões como violência intrafamiliar, evasão escolar e precarização do trabalho eram comuns entre os entrevistados, que viam no uso de drogas uma “ferramenta para fugir dessa realidade”.
“Eles manifestavam dificuldade de controle de emoções, autoconhecimento, autodesvalorização negativa por ser usuário de substâncias, o medo, a vergonha de si mesmo diante desse estigma social de seu usuário”, relatou a pesquisadora.
Essa constatação a levou a buscar, em seu doutorado e pós-doutorado, alternativas de cuidado e prevenção que pudessem oferecer aos jovens “ferramentas mais saudáveis para eles poderem afrontar esses desafios da adolescência”. Foi nesse contexto que ela se aproximou da abordagem das habilidades de vida, uma proposta da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Habilidades de vida e a educação popular
A abordagem de habilidades de vida, segundo Goroso, consiste em um conjunto de competências psicossociais que auxiliam os indivíduos a tomar decisões mais informadas e a lidar com os desafios da vida cotidiana. No entanto, ela aponta que a implementação tradicional dessa abordagem muitas vezes peca por ser hierárquica.
Para superar essa limitação, a pesquisadora integrou à sua prática os referenciais da educação popular latino-americana.
“A gente toma as bases metodológicas [da educação popular] para justamente gerar essa horizontalidade, esse diálogo com o aluno e poder compreender também como que esse sujeito se torna um sujeito crítico da sua realidade, a tomada de decisão sobre os próprios cuidados da saúde e não só de si mesmo, também dos outros”, explicou.
Desafios no contexto escolar
Ao ser questionada sobre os principais desafios para a implementação de programas de educação sobre drogas nas escolas, Maria Elena Goroso destacou uma série de obstáculos, tanto estruturais quanto pedagógicos:
| Desafio | Descrição |
|---|---|
| Modelo de Palestra | A preferência por palestras informativas em detrimento de metodologias mais dialógicas, como rodas de conversa, que são mais valorizadas pelos próprios alunos. |
| Dinâmica Institucional | A dificuldade de integrar ações de educação em saúde ao currículo escolar devido à priorização de conteúdos e horários. |
| Estigmatização | A tendência das escolas em direcionar as atividades apenas para os “alunos problemáticos”, reforçando estigmas e dificultando uma abordagem universal. |
| Formação Docente | A falta de capacitação e sobrecarga dos professores, que, apesar da boa vontade, não se sentem preparados para lidar com a complexidade do tema. |
| Falta de Políticas Públicas | A dificuldade na execução de leis e diretrizes existentes por falta de investimento e de profissionais de saúde nas escolas. |
“Aparece essa dificuldade da transversalidade de incluir no currículo escolar a educação em saúde, que isso a gente já vem olhando há bastante tempo”, lamentou Goroso.
O álcool como ponto de partida
Outro ponto interessante da conversa foi a discussão sobre a necessidade de diferenciar as substâncias na abordagem pedagógica. Para Goroso, embora todas as drogas mereçam atenção, o álcool deveria ser o foco principal nas ações com adolescentes, por ser a substância de primeira experimentação e ter seu uso naturalizado culturalmente.
“As estatísticas mostram como tanto na região das Américas, da Argentina e do Brasil, é a primeira substância que os jovens têm acesso para fazer a experimentação, incluso quando eles têm menos de 12 anos. E a partir do uso de álcool, eles vão para o que eles chamam de drogas ilegais”, alertou.
Recursos e o panorama Brasil-Argentina
Ao final do episódio, a pesquisadora compartilhou materiais e recursos para educadores interessados no tema, como cartilhas e livros desenvolvidos pelo Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Outras Drogas (CREPEIA/UFJF) e por núcleos de pesquisa da Unifesp.
Ela também traçou um paralelo entre as realidades do Brasil e da Argentina, destacando que, embora as legislações existam no papel, a falta de investimento e de estrutura dificulta sua aplicação prática em ambos os países.
“Somos países vizinhos e tem muito mais coisas em comum do que diferenças, seja em questões de políticas, de saúde e de atravessamentos que fazem parte do nosso contexto latino-americano”, concluiu.
A conversa com Maria Elena Goroso no Maconhômetro Educação reforça a urgência de se repensar as estratégias de educação sobre drogas, movendo-se de um paradigma proibicionista e informativo para uma abordagem mais humana, dialógica e focada no desenvolvimento de habilidades para a vida, com a escola atuando como um espaço central de cuidado e promoção da saúde integral dos jovens.
O episódio completo do Maconhômetro Educação está disponível abaixo, nos principais agregadores de podcasts disponíveis, no Youtube do Cannabis Monitor e aqui também no site. Confira!
O Podcast Maconhômetro Educação é um projeto do Cannabis Monitor em parceria com o Grupo de Pesquisa Educação e Drogas (GPED), que é um grupo de pesquisa vinculado à Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Você pode conhecer mais sobre ele, suas ações, projetos de pesquisa e pesquisadores em gped.net ou no perfil do Instagram @gped.uerj.
O ep. Educação #15 | Álcool e Outras Drogas nas Escolas, com Maria Elena Goroso contou com produção, roteiro e edição de Gustavo Maia (CM), apresentação de Francisco Coelho e Cauê Galvão (GPED/UERJ), e edição de Antonio Said (Pinzeiro).






