Legalização da cannabis nos Estados Unidos

Por Alexandre Biasi

A votação simbólica dos Estados Unidos na ONU (Organizações das Nações Unidas) a favor do rebaixamento da cannabis na classificação das drogas, repercutiu mundialmente pelo fato dos Estados Unidos terem, por 60 anos, votado contra o rebaixamento, sendo este um momento histórico. Um dia após a votação, foi aprovado na Câmara dos Deputados um projeto de legalização federal da cannabis no país. Mas afinal, o que muda?

As leis nos Estados Unidos, ao contrário do que muitas pessoas pensam, além de federais, são feitas também pelos estados e muitas vezes pelos próprios municípios. Como exemplo, posso citar algumas cidades da Califórnia, que são proibidas por decreto da própria prefeitura a terem dispensários, forçando seus cidadãos a se deslocarem para as cidades vizinhas para terem acesso a erva e seus derivados.

Este movimento do congresso americano leva a crer que a legalização foi, principalmente, uma estratégia comercial, pois hoje, a produção e o faturamento de uma empresa de cannabis não pode sair do estado e esta mudança criará uma flexibilização entre os estados e consequentemente uma flexibilização global, permitindo a exportação da cannabis para o mundo, seguindo países como o Canadá e o Uruguai.

 

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Hoje, nos Estados Unidos, existe toda uma indústria preparada para a expansão do mercado. O país promove feiras para o agronegócio, mercado medicinal e social. Em breve veremos plantações de cânhamo industrial espalhadas pelo mundo, onde grande parte dos equipamentos para o processamento da erva será americano, que já possui maquinários específicos, do arado à colheitadeira. O país que criou o “lobby” para a proibição e para a legalização da cannabis, não poderia ficar de fora desta nova “commodity” que está nascendo.

Muitas coisas irão se expandir neste mercado nos próximos 10 anos. O Brasil com sua presença no agronegócio mundial, o clima perfeito e sua expertise em plantações, deveria resgatar a cultura que já foi presente em nosso país durante os períodos da Colônia e do Império, onde até jornais da época citavam a potência do cânhamo como negócio, conforme descrito por Pedro Borges Correia de Sá, capitão de mar e guerra e diretor das obras de cordoaria da Marinha, em um jornal da época:

Que a cordoaria é de utilidade para a nação se prova com evidência do que fica expendido, e se – o Império do Brasil não pode prescindir de ser uma potência essencialmente marítima, sem quebra de sua glória, de sua dignidade, e de seus mais caros interesses – ser-lhe-ia necessário elevar sua marinha a um número proporcionado a sua extensão e grandeza: logo carece de cordoaria, assim como todas as nações marítimas, para prover de insarcia as suas esquadras: Todos clamam que o Brasil precisa marinha, e alguém há que diz e afirma, que o Brasil não pode ter cordoaria por falta de matéria prima (linho), que futilidade! Esta asserção só a profere quem tem pouco senso, e nenhum conhecimento das produções do Império, cujo terreno tem produzido imenso cânhamo, que se remeteu para Lisboa, e muito se arruinou e destruiu por falta de quem o laborasse: Produção do brasil é o algodão, e os teares da fábrica estão há anos sem exercício depois de haverem fabricado 17.607 varas de excelente pano, que servia para velas e toldos de embarcações; e quando as províncias do sul não fossem propícias para a cultura do cânhamo, seria impraticável ir comprar este gênero onde o há em abundância? A nação inglesa, que pode servir de modelo em administração de marinha, manda à Rússia comprar o linho para manufaturar nas suas cordoarias, e ainda que lhe seria muito mais econômico comprar a insarcia já fabricada, por ser da melhor da Europa, prefere a compra do linho para não cessarem de trabalhar as suas fábricas, onde emprega indivíduos de todas as idades e sexos e dá exercício aos maquinistas, que são os meios de desenvolver a indústria nacional (Diário Fluminense Ed. 14, p. 208, 1829.)

 

Legalização da cannabis nos Estados Unidos

Um terço da população dos EUA mora em um estado que permite o uso adulto da cannabis (Imagem: Reprodução/Marijuana Business Daily)

Resumindo, a legalização federal nos Estados Unidos não muda em nada para o usuário final, o cidadão deve seguir as regras estabelecidas pelo seu município ou estado. Para o negócio da cannabis mundial é um grande passo para o
desenvolvimento do mercado.

No Brasil, para que o mercado se desenvolva, os dirigentes precisam deixar o preconceito e os interesses comerciais de lado, apoiar a regulamentação, seguindo uma tendência mundial, criando uma nova industrialização, gerando empregos e desenvolvimento de novas tecnologias, ou, sempre seremos lembrados com uma colônia.

 

Ouça o Podcast Maconhômetro #11: O avanço da legalização da maconha nos EUA

 

Alexandre Biasi Franchi é diretor da Medical Hemp Brasil e Advisor especializado no mercado da Cannabis medicinal e industrial. Reside nos Estados Unidos há 2 anos.

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