Finalmente o Brasil parou de fingir que a Cannabis não existe

Uma leitura técnica e sempre otimista do novo marco regulatório
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Durante anos, o país operou sob um modelo paradoxal. A prescrição médica foi sendo gradualmente aceita, a importação individual foi regulamentada, associações de pacientes ganharam espaço por via judicial e a RDC 327 criou um regime provisório para produtos à base de cannabis.

Ainda assim, o elo mais básico da cadeia — a planta — permanecia fora do território nacional. O resultado foi um mercado caro, dependente do câmbio, com baixa previsibilidade logística e pouca capacidade de desenvolvimento tecnológico local.

A nova regulamentação rompe esse modelo ao permitir, sob autorização sanitária rigorosa, o cultivo de cannabis com teor de THC limitado a 0,3%, alinhando o Brasil aos principais referenciais internacionais. Esse ponto é central.

Ao adotar um critério técnico amplamente reconhecido, a Anvisa desloca o debate da esfera penal e moral para o campo sanitário e industrial. Não se trata de flexibilização recreativa, mas de enquadramento farmacêutico: controle de sementes, rastreabilidade de lotes, validação analítica, inspeções e destinação clara da produção.


RDC anvisa regulação cultivo cannabis



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Outro ponto relevante, frequentemente mal compreendido, é a classificação do canabidiol. O CBD permanece listado na categoria C1 da Portaria 344, o que significa controle especial, prescrição médica e rastreabilidade. Isso não é um obstáculo, mas uma condição necessária para que o uso terapêutico seja tratado com seriedade.

Ao contrário do discurso que tenta empurrar o CBD para a lógica de suplemento ou bem-estar genérico, o marco atual reforça que estamos lidando com uma substância farmacologicamente ativa, que exige responsabilidade clínica e regulatória.

Do ponto de vista industrial, o impacto é significativo. A possibilidade de produção nacional de insumos derivados de cannabis cria condições para desenvolvimento de IFAs, fortalecimento da pesquisa clínica local, formação de mão de obra especializada e integração com outros setores. Mais do que um novo mercado, trata-se de incorporar a cannabis à política industrial e sanitária do país.

Nada disso elimina desafios. O modelo ainda é altamente regulado, os custos de conformidade serão elevados e o risco de concentração de mercado existe. O sucesso dessa virada dependerá da capacidade do Estado de regular sem asfixiar, e do setor privado de operar com rigor técnico, transparência e responsabilidade. O tempo das exceções acabou; começa agora o tempo da governança.

Depois de anos tratando a cannabis como um problema a ser contornado, o Brasil finalmente a trata como um tema a ser gerido. Para um país historicamente avesso a assumir debates complexos sem reduzi-los à moral ou à ideologia, esse movimento não é trivial. Não é uma revolução, mas é um sinal claro de amadurecimento institucional — e, para quem acompanha esse tema há anos, isso já representa uma mudança profunda.


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