O mercado de cannabis medicinal no Brasil entrou definitivamente em uma nova fase: a da consolidação clínica, expansão econômica e incorporação tecnológica. Entre 2020 e 2026, o número de pacientes se aproximou de 900 mil – dados da Kaya Mind, refletindo um crescimento sustentado tanto pelo aumento do acesso quanto pela maior aceitação médica.
Os dados mais recentes reforçam esse movimento. Em 2025, o país registrou 194.682 autorizações de importação — mais de 200 vezes acima de 2015. Hoje, mais de 500 empresas operam sob a RDC 660 da Anvisa, com cerca de 600 produtos disponíveis, em sua maioria importados. No canal farmacêutico, as vendas cresceram 20,5%, enquanto grandes indústrias começam a consolidar presença no segmento.
A projeção é clara: o mercado deve atingir cerca de R$ 1 bilhão em 2026. E nesse contexto, São Paulo receberá a Cannabis Fair & Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal – o maior encontro da medicina endocanabinoide de 21 a 23 de maio, no Transamerica Expo Center.
Uma nova fronteira para a prática médica
Se por um lado o mercado cresce, por outro, o comportamento dos médicos também passa por transformação. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 61 mil prescritores de cannabis medicinal — sendo que 64% começaram recentemente, indicando uma forte entrada de novos profissionais no segmento.

Dados da Close-Up International mostram ainda que:
- houve crescimento de 31,1% nas prescrições entre médicos já ativos
- a média de pacientes por prescritor subiu de 10,7 para 14 por CRM
- novos médicos ainda apresentam baixa densidade de prescrição (2,5 pacientes por CRM), revelando espaço relevante de amadurecimento clínico
Esse cenário evidencia uma lacuna importante: há interesse e entrada de profissionais, mas ainda existe necessidade de formação, segurança clínica e suporte à decisão — fatores que ajudam a explicar o protagonismo de eventos científicos no setor.
O módulo Business do Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal (CBCM) 2026 contará com a participação de Filipe Campos, líder de Market Insights na Close-Up e especialista em análise de mercado, que trará uma visão estratégica sobre a evolução, oportunidades e tendências do setor de cannabis medicinal no Brasil.
Cannabis Fair e Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal: onde ciência, prática e mercado se encontram
É nesse contexto que a Cannabis Fair e o Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal (CBCM) ganham relevância estratégica para médicos.

“A Cannabis Fair é hoje o grande hub do setor da cannabis no país. É o momento em que saímos da teoria e vemos, na prática, negócios, tecnologias e produtos chegando ao mercado com seriedade, segurança, qualidade e eficácia. Com destaque ainda para questões do cultivo e toda a cadeia que está surgindo nesta industria”, afirma Daniel Jordão, diretor e sócio-fundador da Sechat.
A 5ª edição da CF & CBCM 2026 acontece entre 21 e 23 de maio, no Transamérica Expo Center, em São Paulo, reunindo cerca de 60 expositores e consolidando-se como o principal encontro profissional e científico da cannabis na América Latina.
Além da área de exposição, a feira contará com o palco interativo Sechat Talks, que reunirá aproximadamente 100 palestras abertas ao público, conectando profissionais de saúde, empresas e especialistas em discussões sobre ciência, saúde, mercado e inovação.
IA aplicada à prescrição: o que muda na prática clínica
Entre os destaques da feira está a incorporação da inteligência artificial na rotina médica — um dos temas mais sensíveis e promissores para o futuro da prescrição.
Ferramentas como assistentes clínicos baseados em IA começam a surgir com foco em cannabis medicinal, oferecendo suporte em tempo real com base em evidências científicas, protocolos terapêuticos e segurança farmacológica. Essas soluções atuam como um “segundo cérebro”, auxiliando na sugestão de condutas, análise de interações medicamentosas e personalização de tratamentos.
Na prática, isso responde a uma dor crescente entre prescritores: a necessidade de maior segurança clínica em um campo ainda em expansão e constante atualização científica.
“DrWeedy.AI é um agente de IA treinado com conhecimento clínico que conjuga protocolos, recomendações e dados de especialistas para apoiar decisões individualizadas. A ferramenta funciona como um segundo cérebro, mas a decisão final e a responsabilidade seguem sendo do médico”, afirma Guilherme Nery.
Mais do que substituir o médico, essas tecnologias reforçam a autonomia profissional, ao mesmo tempo em que ampliam a capacidade de tomada de decisão baseada em dados — especialmente em contextos como telemedicina.
Experiência imersiva em química aplicada
Outra novidade da Cannabis Fair é o estande do Conselho Federal de Química, que aposta em uma experiência imersiva e interativa para aproximar o público da aplicação prática da ciência no setor. Com demonstrações, mini palestras e atividades hands-on, o espaço permitirá que visitantes — inclusive profissionais de saúde — participem diretamente dos processos, utilizando equipamentos de proteção e vivenciando, na prática, conceitos ligados à cannabis medicinal.
“As pessoas não vão apenas assistir. Elas vão participar dos experimentos, com jaleco e óculos de proteção, vivenciando na prática como esses processos acontecem”, ressaltou Ubiracir Fernandes Lima Filho.
Congresso com foco clínico e especialização

Paralelamente à feira, o Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal (CBCM) reúne uma programação científica robusta, com mais de 130 palestrantes distribuídos ao longo de três dias.
Os conteúdos são organizados em módulos exclusivos, incluindo:
- Medicina
- Odontologia
- Medicina Veterinária
- Química e Farmácia
- Agro & Tech
- Business
A proposta é oferecer uma visão multidisciplinar da cannabis medicinal, com aprofundamento técnico e aplicação prática para diferentes áreas da saúde e da indústria.
Tendências clínicas e oportunidades
Outro ponto de atenção está nas especialidades médicas. Dados de mercado mostram maior concentração de prescrições em áreas como neurologia, psiquiatria e clínica geral, com destaque para o uso em condições como epilepsia e transtornos neuropsiquiátricos.
Ao mesmo tempo, análises indicam que muitos médicos que já atuam com anticonvulsivantes sintéticos começaram a testar derivados de cannabis — mas ainda há uma ampla oportunidade de expansão do uso clínico .
Esse cenário reforça o papel de eventos como o CBCM na atualização científica e na consolidação de protocolos mais robustos.
O doutor em Química Orgânica da Unicamp, Nelson Ferreira Claro Júnior, palestrante confirmado do Módulo QuimFarma do CBCM 2026, destacou o papel do evento como ambiente de conexão e geração de oportunidades.
“A participação de congressos é motivada por diferentes objetivos, como a possibilidade de networking, de buscar ou aprofundar conhecimento sobre temas atuais, a ainda de identificar tendências futuras. Desejo que o CBCM 2026 seja exitoso em todas estas frentes, e que possa proporcionar aos participantes um ambiente de informação de qualidade e de novos negócios.”, afirmou.
Mais do que tendência, uma mudança estrutural
O avanço da cannabis medicinal no Brasil já não pode ser visto apenas como uma tendência emergente. Trata-se de uma transformação estrutural que envolve regulação, prática clínica, indústria farmacêutica e tecnologia.
Para os médicos, o momento é particularmente relevante: há crescimento da demanda, ampliação do arsenal terapêutico e surgimento de ferramentas que reduzem barreiras de entrada. Nesse cenário, a CF e o CBCM 2026 se posicionam não apenas como eventos do setor, mas como pontos de convergência entre ciência, inovação e prática médica — um espaço onde o futuro da prescrição começa a ser desenhado.







