O que o reggae do Rio não deixa esquecer

Tem Reggae cobriu e participou ativamente do evento Movimento Reggae pelo Rio de Janeiro. Confira!
Movimento Reggae RJ

Movimento Reggae pelo Rio | Foto: @efolens

O evento iniciou pelas mesas de conversa, que reuniu nomes como Junior China, Patrícia Moreira, Mário Seixas, Léo Feijó e Mônica Silva, junto a representantes da cadeia da música como Vanessa Schütz, da UBC, Rafael Galhardo, Teo Lima, do Sindicato dos Músicos, Ricardo Barros, nosso visionário do Tem Reggae, além de artistas e articuladores como Babi Roots, Patrícia Veiga, Marcelo Campos, do Ponto de Equilíbrio, e a deputada Verônica Lima.

Todos alinhados e conectados através do reggae como uma ferramenta de construção coletiva, independente das diferentes trajetórias.


Memória, Papel Histórico e Desafios Atuais


Na primeira mesa, “Memória Viva”, ouvimos Junior China contar como tudo começou despretensiosamente sobre o “Planeta Reggae Tijuca”, após uma festa de aniversário de sua filha, fazendo entender a dimensão que tudo tomou e persistiu durante 6 anos e possibilitando pensar em quantas histórias da cena puderam nascer através do improviso.

Em seguida, Mário Seixas trouxe a importância de espaços, como a Cantareira, em Niterói, Teatro de Lona da Barra, pequenas casas de show, e o próprio Circo Voador, evidenciando que o reggae sempre encontrou um jeito de existir, apesar das dificuldades.

E é aí que chega uma surpresa, mas não obstante, muito por conta das pesquisas desenvolvidas sobre a cena; o recorrente nome de Marcelo Yuka (esta entidade musical merecerá destaque em nossa coluna em breve) aparece com forte presença de alguém que fortaleceu toda a base, desta vez, emprestando equipamentos para que iniciativas como o Planeta Reggae ganhassem vida. Já já, volto a falar dele aqui!

Os palestrantes destacaram os desafios atuais para manter a cultura reggae ativa, passando pela dificuldade de sustentabilidade econômica dos artistas, já que o gênero ainda não ocupa um lugar comercial amplo, até a preocupação com a renovação de público para a continuidade geracional.

Tiveram também, apontamentos sobre a necessidade de fortalecer políticas de fomento, com editais voltados para pequenos espaços e a formalização da rede de palcos, além de um reconhecimento institucional mais consistente, que acompanhe a relevância histórica do reggae no Brasil e não chegue de forma tardia.


Organização, Direito e Conexão


Na segunda mesa o pé fincou mais firme para a estrutura da cadeia produtiva da música. Vanessa Schütz, com 25 anos de experiência na área, deu uma aula sobre direitos autorais e a importância da organização dos artistas junto às sociedades de gestão, possibilitando perceber o quanto ainda precisamos nos mobilizar enquanto cena.

Ela também apontou o fomento à cena, orientando que a UBC mantém projetos como a “Casa UBC” para conectar artistas independentes com o mercado (festivais e gravadoras) fora dos algoritmos.

Rafael Galhardo, músico e proprietário do estúdio Vila Musical, provocou reflexões sobre as transformações no fazer musical, alertando para a perda dos encontros presenciais e o impacto disso na criação.

E, Téo Lima, baterista com vasta carreira (ex-Djavan) e presidente do Sindicato dos Músicos, reforçou a importância da luta sindical e da garantia de direitos históricos da categoria, através de momentos históricos, como:

  • Greve de 1987: Relembrou a greve nacional que paralisou as gravações no Brasil para garantir direitos à categoria.

  • Sindicalização e Apoio: O sindicato oferece hoje assessoria jurídica (trabalhista e previdenciária) e cursos de música a preços acessíveis para os filiados.

  • Defesa da Categoria: Discutiu a importância de leis que protegem o músico nacional frente a artistas estrangeiros (Artigo 53) e as pressões contratuais do modelo MEI na televisão.


Ricardo Barros finalizou a mesa, apresentado o Tem Reggae como um hub de informação criado a partir da ausência de um espaço que centralizasse a agenda cultural do reggae no Rio, destacando também o lançamento do futuro “Espaço Vivo Tem Reggae”, pensado como centro de convivência e residência artística no centro da cidade.

Em sua fala, reforçou ainda a importância de organização da cena, sugerindo que o reggae se inspire no modelo do Hip-Hop para ampliar seu acesso a editais e espaços educacionais. Aqui, eu tive um baita orgulho de fazer parte disso tudo!


O Reggae como Direito Político


Na terceira mesa, o debate ganhou um tom mais direto no campo político. A deputada Verônica Lima destacou a urgência de transformar discurso em estrutura, defendendo políticas públicas contínuas, com investimento e reconhecimento, para que o reggae seja tratado como um direito, através da criação de leis específicas de fomento ao seu reconhecimento como patrimônio imaterial, pois, o reggae também é um motor de empregabilidade e geração de renda no estado.

Babi Roots compartilhou a experiência de uma década de militância em São Paulo, destacando conquistas como a criação do Dia Municipal do Reggae e de um edital específico para a cultura reggae e rastafári, além de reforçar a importância da organização coletiva e da pressão constante para garantir a aplicação efetiva de recursos públicos.

Na mesma linha de transformação, Patrícia Veiga apresentou o caso do Sana, em Macaé, onde o reggae impulsionou mudanças sociais e econômicas, saindo de uma base agrícola de subsistência para se tornar um polo de turismo e economia criativa.

Ela trouxe o exemplo do “Sana Reggae Festival”, que é realizado há 15 anos e hoje sobrevive com recursos próprios e de editais como a Lei Aldir Blanc, unindo conscientização ecológica e social ao longo dos anos.

Junior China relembrou o percurso da deputada Verônica Lima desde o movimento estudantil, destacando a importância de representantes acessíveis à classe artística, enquanto Marcelo Campos abordou os desafios de sustentar o reggae sem incentivos, a necessidade de adaptação e o enfrentamento aos estigmas que cercam a cultura.

Marcelo também trouxe o entendimento do reggae como um veículo de emancipação, ligado às lutas do povo preto e periférico e comprometido com mensagens humanitárias e socioambientais.


Celebração e Homenagem


Celebramos todo diálogo com a apresentação do pitch de artistas sorteados. Mulheres à frente: Sistah Wolf, com mais de 20 anos na cena, subiu ao palco carregando história em seu flow; ela falou das caminhadas em outra década, até o espaço Donana, das dificuldades, da presença de nomes como Maico Dias e Marrone nesse percurso, afirmando sua trajetória.

As apresentações seguiram com a banda Maragaia, diretamente de Saquarema, com seu reggae surf rock cheio de energia, e as meninas do Instituto Bola de Fogo, de São Paulo, que chegaram com a força ancestral do Nyahbinghi, difundindo a cultura rastafari e reafirmando o reggae como ferramenta de consciência.

Um dos momentos mais bonitos da noite foi a homenagem a Marrone Recarregue. Impossível de não se emocionar, um por vê-lo sendo reconhecido em vida dentro da própria cena e outro, por ver alguém que construiu tanto. Ele trouxe sua fala sobre se “recarregar”, que não soa só como metáfora, mas como filosofia de vida e aproveitou para anunciar o lançamento do curta da KMD-5.

Aproveitando o gancho… Eu que assisti e não perderia a oportunidade de hablar novamente sobre esse documentário, tenho dito: permaneço atravessada por ele. Muito porque traz a história de uma banda e sua origem, envolvendo território e família, além da autenticidade em fazer música mesmo quando nem se sabe exatamente o nome do que se está fazendo.

Rewind má selecta… Voltando à conexão com Marcelo Yuka, apoiando iniciativas lá atrás e depois vê ele dentro da história que constrói a KMD-5, ajudando a moldar uma estética e um som, abre a reflexão que quando Marrone é homenageado, é por ele sim, e por toda uma geração que abriu esse caminho. Não é à toa que KMD-5 influenciou diretamente, grupos como Cidade Negra e O Rappa.

Todo o acervo apresentado, no documentário dirigido por Azis Gabriel (também “filho” do Centro Cultural Donana), vem afirmar que o reggae que a gente vive hoje nasce de uma raiz coletiva e periférica pois, o que a KMD-5 fazia lá atrás, com letras de denúncia, valorização da Baixada e uma sonoridade que misturava o peso do baixo, o dub e elementos do Nyahbinghi, os firmaram como uma banda que não tinha referência, mas que se tornaram referência.

Compartilho do sentimento de que eventos como o Movimento Reggae pelo RJ e registros como o documentário da KMD-5 impedem que memórias essenciais sejam apagadas.


Celebração e Continuidade…


Para fechar a noite, a música tomou conta com a banda Bob Marley cover que trouxe o repertório que todo mundo cantou junto e de pé, transformando o palco em um ponto de encontro de diferentes gerações dividindo aquele momento.

Tivemos a honra máxima de assistir Mário Seixas, Maico Dias, Francisco Rasta, Marcelo Campos, Luan Satyro, Petrus Munhoz, Robson da ComJah, Jef Rodriguez, Vitória da Glória e, fechando com a força maior do Sana, Dom Luis, materializando tudo que foi dito até aqui.

Esse é o relato que deixo para mostrar que o reggae no Rio permanece vivo e deve continuar para além da minha permanência e insistência em registrar o passado, o agora e quem sabe, o futuro dessa cena que só enriquece cultural e espiritualmente.

Seguimos escrevendo essa história. Até a próxima!

ingrid oliveira tem reggae


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