Quando a Ciência é instrumentalizada por uma leitura neoliberal disfarçada de rigor

Uma resposta ao artigo neoliberal "Cannabis, Judiciário e Ciência", de Irapuã Santana, publicada no Jornal O Globo em 23/03/2026
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O artigo de Irapuã pega um estudo sério e transforma em ferramenta de militância neoliberal. Recorta os dados, omite resultados positivos e distorce a percepção de risco para empurrar uma conclusão que já estava pronta: menos Estado e menos acesso a tratamento.

No entanto, a forma como os dados são organizados revela algo diferente de um esforço de compreensão científica. O texto funciona como um exercício de seleção orientada de evidências para sustentar uma conclusão que já está dada de antemão, alinhada a uma perspectiva neoliberal de redução do papel do Estado.

Os dados citados não são falsos. A meta-análise conduzida por Jack Wilson e sua equipe realmente aponta limitações importantes na qualidade dos estudos disponíveis e ausência de eficácia robusta para determinadas condições, como ansiedade, psicoses e transtorno de estresse pós-traumático. Esses elementos são corretamente mencionados no artigo de opinião publicado no jornal O Globo.

O que se alterou não foram os dados, mas o seu arranjo. Irapuã ignora propositalmente que a mesma metanálise descreve um cenário mais complexo, no qual coexistem limitações metodológicas e sinais de potencial terapêutico em contextos específicos.

Há evidências de redução de sintomas de abstinência e do consumo em transtorno por uso de cannabis, melhora na gravidade de tiques em pacientes com Síndrome de Tourette, aumento do tempo de sono em quadros de insônia e indícios de melhora em traços do espectro autista.

Esses resultados, ainda que classificados com baixo grau de certeza, integram a conclusão científica do estudo e apontam para a necessidade de aprofundamento da pesquisa que o autor do artigo no O Globo optou por omitir.

A exclusão desses elementos não é um detalhe editorial. Ela reorganiza o sentido da evidência e produz uma leitura que aparenta ser mais negativa e conclusiva do que o próprio estudo permite. A ciência, que opera por nuance e incerteza, é convertida em uma narrativa linear. Uma resposta fácil para quem precisa justificar os próprios dogmas.

O mesmo padrão aparece na abordagem sobre segurança. A ênfase no número necessário para causar dano, apresentada sem contextualização adequada, desloca a percepção de risco. O estudo indica que não houve aumento de eventos adversos graves nem maior taxa de abandono do tratamento entre os pacientes que utilizaram canabinoides.

Os eventos relatados são, em sua maioria, leves e conhecidos. Ao suprimir esse enquadramento clínico, o texto amplia artificialmente a dimensão do risco. A narrativa de Irapuã cria uma sensação de insegurança que não possui lastro no artigo de origem de Jack Wilson, pelo contrário, Wilson está justamente defendendo a necessidade de mais estudos e não o contrário.

A conclusão da metanálise também sofre um deslocamento relevante. Os autores do artigo de origem apontam que o uso clínico rotineiro ainda é limitado pela qualidade das evidências disponíveis e defendem a realização de estudos mais robustos. Trata-se de uma posição de cautela científica, compatível com um campo em desenvolvimento.

Ocorre que Irapuã no texto jornalístico faz com que essa cautela seja reinterpretada como fundamento para restrição de acesso e contenção de políticas públicas. Essa passagem não decorre diretamente dos dados do artigo de Wilson. Ela depende de um enquadramento normativo que não é explicitado, mas que se manifesta na forma como a evidência é selecionada e hierarquizada, revelando as premissas ultra liberais do Direito que Irapuã defende.

Esse enquadramento corresponde a uma lógica neoliberal, na qual a atuação estatal é vista como problema a ser contido, e não como instrumento de garantia de acesso. A ciência, nesse contexto, não é negada, mas filtrada. Apenas os elementos que reforçam a necessidade de limitação do Estado são mantidos visíveis. O restante desaparece como mágica.

O resultado é uma argumentação que preserva a aparência de rigor técnico, mas que opera a partir de uma premissa externa à própria ciência. A análise não parte da totalidade da evidência para construir uma conclusão. Ela parte de uma conclusão e organiza a evidência para sustentá-la. O neoliberalismo de Irapuã salta aos olhos numa leitura mais atenta.

A ciência, enquanto método, admite contradição, incerteza e revisão contínua. Quando esses elementos são suprimidos, não se alcança maior precisão, mas maior controle sobre o significado dos dados. Nesse ponto, o discurso deixa de ser científico no sentido pleno e passa a funcionar como legitimação técnica de uma posição ideológica completamente liberal, beirando a religiosidade antiestatal

Em um debate que envolve saúde pública, decisões judiciais e acesso a tratamento, essa operação não pode ser neutra. Ela redefine os termos da discussão ao apresentar como inevitável uma conclusão que, na verdade, depende de escolhas políticas que permanecem implícitas. Irapuã sabe disso e opta por defender a omissão do Estado como método.

Nós, ao contrário, defendemos o aprofundamento dos estudos, para que a biosegurança já praticada e vivida por milhares de pacientes de cannabis terapêutica no Brasil e no mundo tenha cada vez mais lastro científico.


LUIZ GARCEZ


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