Foto: @vevemilk
Acabamos de nos despedir de março, mês que reforça a luta por direitos e visibilidade das mulheres. Para a coluna deste mês, conversamos com Juju Rude.
Rapper, ativista e filha da periferia carioca, Juju traduz em suas rimas o que chama de “Feminismo Favelado”, uma ferramenta de empoderamento que conecta vivências, dores e uma busca incessante por liberdade através da arte.
A Trajetória e o Legado “Rude”
Tem Reggae: Na cultura Reggae, o termo “Rude” remete a uma subcultura de jovens jamaicanos dos anos 60. Como você conecta esse legado ao seu nome artístico?
Juju Rude: Eu vejo muitas semelhanças entre a juventude da Jamaica e a do Rio de Janeiro. Escolhi esse nome para deixar claro o caminho das minhas influências jamaicanas, mesmo quando estou mais dedicada ao rap. Os termos “rude boy” e “rude girl” vieram da galera periférica, do gueto; em algum momento foi usado de forma pejorativa, mas nós, que somos negros, estamos sempre ressignificando esses termos para afirmar nossa identidade e resistência.
Tem Reggae: Você iniciou 2025 com o EP Flores & Balões. O que essa nova fase revela sobre a Juju Rude mulher e artista hoje?
Juju Rude: O EP marca um experimento onde trouxe minhas duas grandes referências: o reggae e os subgêneros do hip-hop. Eu acompanho o ressurgir da cena reggae internacional e movimentos como o reggae funk no Brasil. Foi importante lançar os dois gêneros para que o público captasse que a Juju Rude é as duas coisas. Para 2026, pretendo me dedicar ainda mais aos gêneros jamaicanos, consolidando essa transição.
Feminismo Favelado e Vivência Periférica
Tem Reggae: Como a sua vivência em Parada de Lucas moldou o conceito de “Feminismo Favelado”?
Juju Rude: Antes de tudo, somos militantes do hip-hop, que busca modificar o território através do conhecimento. Por ser mulher e ter que lidar com obstáculos diários para realizar cultura na favela, o feminismo favelado surge como uma manobra necessária. Uso a música para influenciar as meninas que estão próximas a terem consciência crítica, usando minha vivência de onde vim e onde permaneço como base para esse diálogo.
Tem Reggae: A música “Flor” fala de humanidade, sensibilidade e independência. Como ela se relaciona com o direito ao afeto e à segurança da mulher negra?
Juju Rude: “Flor” fala de uma mulher que tem o seu “corre”, que é artista e que a liberdade mora nela. É sobre estar fora do padrão que o patriarcado espera — aquela dependência emocional que anula sonhos. A música diz: “eu quero viver um romance, mas você precisa respeitar a minha vida e minha carreira”. É sobre ter segurança em ser quem se é.
Política de Drogas e Impacto Social
Tem Reggae: No Cannabis Monitor, discutimos muito o impacto das políticas de drogas. Como sua luta artística se cruza com a necessidade de políticas mais justas na favela?
Juju Rude: Tenho estudado mais para ter um lugar de fala político sólido. Eu me aproximo de mulheres da política que defendem a descriminalização da maconha, pois vejo no cotidiano como a proibição reflete negativamente no desenvolvimento dos jovens negros. Meu trabalho é de “guerrilha”, agindo no território para provocar discernimento e passar mensagens de conscientização através do exemplo e da música.
Desafios e Gestão Independente
Tem Reggae: Quais são as maiores barreiras invisíveis para consolidar seu trabalho sendo uma mulher negra e independente?
Juju Rude: O principal desafio é a falta de investimento. Sem políticas públicas que cheguem de fato ao artista independente, ficamos de fora de editais dominados por grupos já estabelecidos. Isso me obriga a ser multifuncional — cuidar da produção, do marketing, da logística — o que desgasta a energia criativa. É uma luta constante para que a gestão da carreira não atropele a arte.
Considerações Finais
Ao encerrar esta conversa com Juju Rude, fica evidente que seu trabalho transcende o entretenimento. Sob a ótica da pesquisa cultural, observamos que o “Feminismo Favelado” é uma metodologia de ocupação de espaços.
Quando Juju pauta a autonomia e o direito ao afeto, ela constrói uma arquitetura de sustentabilidade para outras mulheres periféricas. Sua trajetória nos lembra que a música é um ativo social indispensável para desmantelar estruturas de invisibilidade.








