Entre o Chilum e o Balão: lições culturais para a nova indústria da cannabis

Duas realidades muito distantes frente à frente na Expo Cannabis Brasil
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Stand da Marcha das Favelas pela Legalização na Expo Cannabis Brasil 2025. | Foto: Marcos Vinicius
@marcosfotografiarj
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Galera consagrando o chilum no stand da Social Weed na Expo Cannabis Brasil 2025. | Foto: Matheus Yasbeck

O balão se distingue de um baseado tradicional na medida em que um cigarro inteiro é utilizado como piteira, acoplando-se o baseado à sua extremidade. Existe também o chamado balão duplo, quando o baseado é enrolado entre dois cigarros e depois dividido ao meio.

Em sua pesquisa, Nemer analisa as origens dessa técnica que, entre simbologias e malandragens, revela diferentes estratégias culturais desenvolvidas para lidar com o consumo da maconha em contextos de repressão. Mais do que uma variação estética do baseado, o balão pode ser compreendido como uma verdadeira tecnologia social do consumo.

Ao utilizar o cigarro como piteira, evita-se que os dedos fiquem impregnados pelo cheiro e pela resina da maconha ou que o alcatrão marque os lábios — sinais frequentemente associados ao consumo. Em ambientes insalubres, como penitenciárias, o cigarro também funcionava como uma espécie de barreira sanitária improvisada, evitando o contato direto com a seda compartilhada. Em tempos de escassez, o método ainda permitia aproveitar a maconha praticamente por completo.

Há também uma utilidade estratégica importante: em caso de aproximação policial, o usuário pode simplesmente dar um peteleco na ponta do baseado acoplado, descartando a parte ilegal e acendendo o cigarro restante, simulando um ato lícito.

Entre improviso, criatividade e necessidade, essas soluções revelam como a cultura da maconha foi sendo moldada pelas condições impostas pela proibição.

O balão e outras práticas semelhantes que surgiram nas periferias urbanas — assim como diversos costumes associados ao consumo contemporâneo da maconha — são produtos diretos de um contexto histórico muito específico: a criminalização das drogas.

balão de cria


Em pouco mais de um século de criminalização, desenvolveu-se uma cultura de consumo profundamente marcada pela clandestinidade, pela escassez e pela necessidade constante de adaptação. Hoje começa a emergir um terceiro cenário.

Em diversas partes do mundo, a cannabis passa gradualmente a sair do campo exclusivo da repressão penal para entrar na esfera da regulação econômica, da produção legal e da formação de cadeias produtivas formais. Mas essa transição não acontece sobre uma folha em branco.

Em economias capitalistas consolidadas, a cannabis começa a ser reintroduzida na sociedade por meio de um discurso higienista que busca enquadrá-la dentro de parâmetros aceitáveis para a sociedade não marginalizada ou “não desviante”. Fragmenta-se a planta em categorias mais palatáveis — como o cânhamo industrial ou a cannabis para uso medicinal — enquanto grande parte da cultura que sustentou sua circulação e garantiu a sobrevivência dos saberes ligados a produção da planta durante décadas de proibição permanece em segundo plano.



Notas e referências


matheus yasbeck


agenda canábica social weed
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