Novembro de 2025 se passou e, com ele, pela terceira vez consecutiva — já criando raízes e certo tradicionalismo — aconteceu mais uma edição do que podemos chamar de Cannabis Week Brasil: uma semana de eventos na cidade de São Paulo liderada pela Expo Cannabis Brasil.
Reunindo players de todos os setores da indústria da planta — social, medicinal, industrial e movimentos sociais — além de entusiastas fascinados por aquele universo paralelo onde, para alguns, encontra-se a máxima liberdade e, para outros, um inexplicável respiro em meio à guerra.
O evento hoje ocupa o lugar de segundo maior do mundo em número de visitantes, surpreendendo parte da indústria internacional, tendo em vista o cenário regulatório do Brasil. Mas nem tanto na perspectiva de quem vive a cultura 420BR[1] de perto.
No meio desse grande aquário de oportunidades verdes, com verdadeiras baleias do mercado investindo em robustos stands e ativações, duas estruturas à lá brasileira — feitas na base da criatividade e da resiliência — dividiam a atenção do público.
Poeticamente posicionadas pelo destino, uma de frente para a outra, estavam o stand da Marcha das Favelas e o da Social Weed Co. Entre si, representavam duas realidades distintas permeadas pela planta.
De um lado, referências a uma das mais tradicionais culturas de consumo de cannabis do mundo, nas montanhas da Índia. Do outro, o que a cultura da maconha veio a se tornar na sociedade urbana contemporânea, representada por moradores das comunidades do Rio de Janeiro.

@marcosfotografiarj
A Marcha das Favelas pela Legalização é um coletivo de moradores das favelas do Rio de Janeiro que, além de movimento social, também se apresenta como um polo de negócios de periferia. É composto por jovens que cresceram na linha de frente da secular guerra às drogas — uma guerra que, dias antes da feira, havia produzido um de seus capítulos mais sangrentos, quando 124 pessoas morreram durante uma operação policial nos complexos do Alemão e da Penha.
Já a produtora cultural Social Weed fazia a estreia de sua exposição fotográfica e documental sobre o vilarejo de Malana, nas montanhas da Índia. O stand imergia o público em uma viagem à tradição milenar de produção e consumo de haxixe por um povo que é conhecido por descender de Alexandre, o Grande. Entre as fotos da viagem, alguns artefatos chamavam a atenção do público que passava por ali — muito provavelmente pelo cheiro que emanavam.
Em exibição estavam os chilums, artefatos tradicionalmente utilizados no povoado para consumir haxixe. Completamente diferente de um baseado, o chilum é uma espécie de tubo de madeira ou argila, com duas extremidades ocas e um filtro rudimentar. Em uma das pontas posiciona-se a mistura que será consumida; na outra, leva-se o artefato à boca para inalar a fumaça do composto queimado.
O que chama a atenção no chilum, no entanto, não é apenas a forma pouco convencional de fumar, mas a dinâmica social que envolve o seu uso. A prática de consumo de drogas é, em grande medida, coletiva. Em cada círculo de uso desenvolvem-se normas sociais que regulam a dinâmica de acesso, de consumo e o bem-estar dos participantes.
Como demonstrou o sociólogo Howard Becker em Outsiders: Studies in the Sociology of Deviance (1963), particularmente no ensaio clássico “Becoming a Marihuana User”, os significados atribuídos às drogas não são naturais ou fixos: eles são aprendidos socialmente. O próprio prazer associado à substância depende de processos de aprendizado coletivo, nos quais usuários aprendem a interpretar os efeitos da droga e a reconhecê-los como experiências desejáveis.
Em O Consumo de Drogas e Seus Controles (2016), Frederico Policarpo observa que “o ato de consumir drogas implica no estabelecimento de relações sociais específicas para garantir tanto o acesso ao mercado das drogas quanto as técnicas necessárias para o consumo”. Em outras palavras, o consumo não acontece no vazio: ele é organizado por códigos culturais.
Essas regras informais regulam desde a forma de acesso à substância até os comportamentos esperados durante o consumo, criando mecanismos de pertencimento e proteção dentro da própria comunidade de usuários. Assim como em qualquer cultura, esses costumes são profundamente moldados pelo ambiente em que surgem e os valores que permeiam aquela prática.
Nas montanhas da Índia, em um contexto histórico marcado pela abundância da planta e por relativa liberdade de consumo, o uso do chilum desenvolveu uma cultura muito distinta daquela que surgiu nas montanhas urbanas do Rio de Janeiro sob escassez e repressão.
O ritual começa com o anfitrião preparando a substância no artefato. Diferente das rodas contemporâneas de baseados que seguem a tradição da Lei do Duende [2], após o preparo, o chilum é passado primeiro ao convidado ao lado.
Existe ainda uma tradição segundo a qual a fumaça não deve ser inalada de forma displicente. Antes de levar o artefato à boca, direciona-se o chilum à testa e ao coração — pontos associados aos Chakras — como gesto simbólico de conexão entre o usuário e a planta.
Cada participante realiza seu pequeno ritual. O anfitrião é o último a fumar. A simbologia desse gesto revela diferenças profundas nos valores que estruturam essas práticas.

Enquanto nas rodas contemporâneas o(s) proprietário(s) do cigarro costuma ter prioridade — e a ordem da roda frequentemente se organiza a partir de afinidade, experiência ou pertencimento — no chilum a prioridade é justamente do recém-chegado.
O anfitrião assume a responsabilidade de conduzir a experiência: acolher, orientar e direcionar o consumo não apenas como prática social, mas como gesto de conexão.
Distante das montanhas da Índia, nas favelas do Rio de Janeiro outra forma de consumo de maconha foi desenvolvida, adaptando a prática às condições impostas pelo ambiente em que ocorria.
Ricardo Nemer descreve esse processo em sua análise “A história social da prática de fumar balão” [3], como uma técnica desenvolvida nas comunidades urbanas entre as décadas de 1970 e 1980, período marcado pelo regime militar e por forte repressão a comportamentos considerados desviantes [4].
O balão se distingue de um baseado tradicional na medida em que um cigarro inteiro é utilizado como piteira, acoplando-se o baseado à sua extremidade. Existe também o chamado balão duplo, quando o baseado é enrolado entre dois cigarros e depois dividido ao meio.
Em sua pesquisa, Nemer analisa as origens dessa técnica que, entre simbologias e malandragens, revela diferentes estratégias culturais desenvolvidas para lidar com o consumo da maconha em contextos de repressão. Mais do que uma variação estética do baseado, o balão pode ser compreendido como uma verdadeira tecnologia social do consumo.
Ao utilizar o cigarro como piteira, evita-se que os dedos fiquem impregnados pelo cheiro e pela resina da maconha ou que o alcatrão marque os lábios — sinais frequentemente associados ao consumo. Em ambientes insalubres, como penitenciárias, o cigarro também funcionava como uma espécie de barreira sanitária improvisada, evitando o contato direto com a seda compartilhada. Em tempos de escassez, o método ainda permitia aproveitar a maconha praticamente por completo.
Há também uma utilidade estratégica importante: em caso de aproximação policial, o usuário pode simplesmente dar um peteleco na ponta do baseado acoplado, descartando a parte ilegal e acendendo o cigarro restante, simulando um ato lícito.
Entre improviso, criatividade e necessidade, essas soluções revelam como a cultura da maconha foi sendo moldada pelas condições impostas pela proibição.
O balão e outras práticas semelhantes que surgiram nas periferias urbanas — assim como diversos costumes associados ao consumo contemporâneo da maconha — são produtos diretos de um contexto histórico muito específico: a criminalização das drogas.

Em pouco mais de um século de criminalização, desenvolveu-se uma cultura de consumo profundamente marcada pela clandestinidade, pela escassez e pela necessidade constante de adaptação. Hoje começa a emergir um terceiro cenário.
Em diversas partes do mundo, a cannabis passa gradualmente a sair do campo exclusivo da repressão penal para entrar na esfera da regulação econômica, da produção legal e da formação de cadeias produtivas formais. Mas essa transição não acontece sobre uma folha em branco.
Em economias capitalistas consolidadas, a cannabis começa a ser reintroduzida na sociedade por meio de um discurso higienista que busca enquadrá-la dentro de parâmetros aceitáveis para a sociedade não marginalizada ou “não desviante”. Fragmenta-se a planta em categorias mais palatáveis — como o cânhamo industrial ou a cannabis para uso medicinal — enquanto grande parte da cultura que sustentou sua circulação e garantiu a sobrevivência dos saberes ligados a produção da planta durante décadas de proibição permanece em segundo plano.
Nesse processo, corporações e estruturas empresariais tradicionais passam a ocupar o centro da nova economia da cannabis, enquanto a indústria cultural construída ao redor da maconha ao longo do último século raramente recebe o mesmo reconhecimento. Talvez o verdadeiro desafio deste novo momento histórico não seja apenas criar um mercado legal para a cannabis, mas compreender o que fazer com a história que veio antes dele.
Nas montanhas de Malana, a cannabis permanece integrada a práticas culturais e espirituais que atravessam séculos. Nas periferias urbanas brasileiras, sob o peso da proibição, surgiram tecnologias sociais como o balão — soluções improvisadas que permitiram que a cultura da maconha sobrevivesse em ambientes de vigilância, repressão e escassez.
Agora começa a surgir um terceiro contexto: o da construção de uma indústria global da cannabis. À medida que esse mercado se organiza, surge uma responsabilidade inevitável para aqueles que decidem atuar nele.
Participar da indústria da cannabis não significa apenas operar em um novo setor econômico. Significa lidar com uma planta cuja história recente foi marcada por criminalização, encarceramento e profundas desigualdades sociais.
Reconhecer essa história não é romantizar a ilegalidade. É compreender que grande parte da cultura, dos conhecimentos e das práticas associadas à cannabis foi desenvolvida por pessoas que operaram durante décadas em ambientes não regulados — sob risco direto de repressão estatal.
Se a nova economia da cannabis pretende se consolidar como uma indústria legítima, ela precisará ser capaz de olhar para essa história com algum grau de responsabilidade. Isso significa reconhecer que a cannabis não é apenas um medicamento, uma fibra ou uma commodity agrícola. Ela é também uma planta profundamente ligada a culturas, relações sociais e formas de conhecimento construídas ao longo do tempo.
E qualquer ator que escolha participar desse mercado precisará decidir se pretende simplesmente explorar um novo produto — ou se será capaz de atuar levando em consideração a complexidade cultural, social e histórica que permitiu que essa planta chegasse até aqui.
Notas e referências
[1] O número 420 tornou-se um símbolo amplamente reconhecido da cultura da cannabis. A referência mais aceita para sua origem remonta ao início da década de 1970, quando um grupo de estudantes da cidade de San Rafael, na Califórnia — conhecidos como The Waldos — utilizava “4:20” como código para se encontrar após a escola e consumir maconha. Com o tempo, o número foi incorporado à cultura canábica internacional como uma espécie de linguagem compartilhada entre consumidores da planta. A data 20 de abril (4/20 no formato norte-americano) passou então a ser celebrada globalmente como um dia simbólico de encontro, manifestação cultural e ativismo em torno da cannabis.
No presente texto, utiliza-se a expressão 420BR como uma construção autoral para se referir à cultura canábica brasileira, combinando o código cultural internacional “420” com a sigla “BR”, frequentemente usada para identificar produções e comunidades do Brasil. O termo é empregado aqui como forma de localizar essa cultura no contexto nacional.
[2] A chamada “Lei do Duende” é uma regra informal difundida em rodas de consumo de cannabis no Brasil segundo a qual a pessoa que preparou o baseado tem o direito de acendê-lo e dar o primeiro trago. Trata-se de uma convenção social não escrita que organiza a dinâmica de compartilhamento do cigarro em círculos de uso, funcionando como uma forma de reconhecimento do trabalho de quem preparou a mistura e enrolou o baseado
[3] NEMER, Ricardo. “A história social da prática de fumar balão.” In: PEREIRA, Thiago F. P. D.; MAXX, Matias (orgs.). Maconha no Brasil contemporâneo: reflexões, desafios e possibilidades para além da cannabis medicinal. São Paulo: Editora Vista Chinesa, 2024, p. 267–291.
[4] O sociólogo Howard Becker utiliza o conceito de desviantes para se referir a indivíduos ou grupos que são rotulados como fora das normas socialmente aceitas por determinados contextos históricos. Em seus estudos sobre o consumo de maconha, Becker demonstra que o desvio não está necessariamente na prática em si, mas no processo social de rotulação que define determinados comportamentos como moralmente inaceitáveis.







