Entre fronteiras e plantas: o que o Uruguai ensinou sobre liberdade, Cannabis e futuro

“Con libertad no ofendo ni temo”. Esse é um lema do Uruguai, e não é para menos
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Quando o Uruguai aprovou a Lei 19.172, em 2013, sob o governo de José Mujica, o mundo olhou com curiosidade para esse pequeno país, ‘paisito’ como dizem os uruguaios, que decidiu fazer algo radical: regular o mercado de Cannabis em vez de fingir que ele não existia.

E estamos falando de flores. E esta compra através de um registro que deve ser realizado com a carteira de identida, cédula como eles chamam. É por isso que o turismo ainda não joga este jogo, legalmente falando, é claro.

Mas os dados mais interessantes não estão apenas no acesso. Para mim, estão no impacto estrutural. 

Avaliação da regulamentação do mercado de cannabis no Uruguai
Relatório de avaliação da regulamentação do mercado de cannabis no Uruguai 2025. | Imagem: Reprodução/Governo do Uruguai


O relatório mostra que o narcotráfico clássico de Cannabis, que com certeza você sabe, é aquele prensado que dominava o mercado e que foi o meu, e de muitos, primeiro acesso à planta, caiu drasticamente, representando hoje apenas 6,7% das formas de acesso, quando era a principal fonte em 2014.

Há, claro, um “mercado paralelo”. Cerca de 30% do consumo ainda ocorre por trocas informais ou cultivos não registrados. Lembro que em 2018, comprei três mudas de Cannabis no meu trabalho. Foram para a minha sacadinha em Montevidéu. Isso rola muito, e não há como existir controle.

Mas o próprio relatório reconhece que se trata de um fenômeno muito diferente do narcotráfico tradicional. No relatório afirma-se ser menos violento, menos organizado e muito mais próximo de uma cultura comunitária de cultivo.

É uma política pública que deixa brechas, mas é baseada em liberdade, responsabilidade e transparência. E que transformou completamente a relação de uma sociedade com uma planta. A Cannabis deixou de ser um símbolo de clandestinidade para se tornar um tema de política pública, saúde e cidadania.

E talvez o dado mais revelador do relatório seja este: não houve impactos negativos significativos na saúde pública. Os indicadores de consumo problemático permaneceram estáveis e não houve aumento relevante em emergências toxicológicas relacionadas à Cannabis.

Gráfico Cannabis Uruguai Dados de Uso Problemático
Gráfico de dados sobre uso problemático de cannabis entre a população uruguaia. | Imagem: Reprodução


Ao contrário, houve ganhos claros: qualidade controlada do produto, rastreabilidade e redução da criminalização de usuários. O Uruguai fez o que poucas nações tiveram coragem de fazer: substituiu a guerra às drogas por inteligência regulatória.

E isso não significa que o modelo seja perfeito. O próprio relatório aponta gargalos como dificuldades de abastecimento em farmácias, rigidez normativa e desigualdades regionais.

Mas o ponto central permanece. A política funcionou para os habitantes do país. É um retrato de algo maior: o poder da liberdade regulada. Eu acredito que estamos observando como país. O futuro da Cannabis na América Latina já começou. E, ao que tudo indica, depois de anos de atraso e moralismo político, talvez finalmente esteja chegando a vez do Brasil. 


denise tamer


maconhometro
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