No 13º episódio do podcast Maconhômetro Educação, Francisco Coelho e Maria de Lourdes da Silva receberam Ana Talia Gregolin, psicóloga e atual gestora da Política de Promoção da Cultura de Paz na Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso. Durante a conversa, Ana compartilhou sua trajetória profissional, experiências na educação sobre drogas e iniciativas inovadoras que vêm sendo implementadas nas escolas mato-grossenses.
Da Psicologia à Educação sobre Drogas: uma trajetória multidisciplinar
Ana Talia Gregolin é bacharel em Psicologia pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), com pós-graduação no curso “Drogas, Sociedade e Práticas Educativas” pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Sua aproximação com o tema das drogas começou ainda durante a graduação.
“Na metade do curso para o final, eu despertei um interesse muito grande pela temática de saúde mental, álcool e outras drogas, principalmente depois que eu fiz um estágio básico no CAPS-AD, aqui de Cuiabá”, relata Ana. Embora o estágio tenha ocorrido durante a pandemia, em formato remoto, a experiência foi fundamental para despertar seu interesse pela área.
De forma curiosa e sincera, Ana revela que seu fascínio por substâncias psicoativas tem raízes ainda mais antigas: “Se eu falar que a primeira vez que me interessei, de fato, por estudar a temática, estudar substâncias psicoativas, se eu falar bem a verdade, eu era criança. Eu não sabia direito o que era, mas eu era uma criança que, assim como as crianças têm muito interesse por dinossauros, eu tinha por cogumelo.”
A intersecção entre educação e drogas se consolidou quando Ana descobriu a pós-graduação oferecida pelo GPED (Grupo de Pesquisa, Educação e Drogas) da UERJ. “Quando eu estava ainda no CAPS, apareceu uma notícia da pós-graduação de drogas, sociedade, práticas educativas do GPED, e eu falei: ‘cara, que coisa linda’, porque juntou, foi a intersecção perfeita das temáticas que eu não estava encontrando no momento”, conta ela, destacando que sua conexão com a educação tem raízes familiares, com várias mulheres de sua família atuando na área.
Cultura de Paz nas escolas do Mato Grosso
Atualmente, Ana Talia atua como gestora da Política de Promoção da Cultura de Paz na Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso, além de ser Redutora de Danos e Conselheira no Conselho Estadual de Política sobre Drogas, representando o Conselho Regional de Psicologia.
No Núcleo de Mediação Escolar, onde trabalha, Ana explica que a iniciativa surgiu a partir de um termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público em 2016. “O núcleo de mediação surge para desenvolver as práticas restaurativas, desenvolver a lente da justiça restaurativa dentro das unidades escolares, para a gente trabalhar com todas as questões, tudo que engloba as violências no ambiente escolar”, explica.
O trabalho envolve professores mediadores e equipes psicossociais distribuídos por toda a rede estadual de ensino. “Hoje a gente tem 109 professores mediadores, com carga horária de 30 horas. Eles desenvolvem atividades, ações preventivas e ações de resolução de conflitos de forma pacífica”, detalha Ana. Além disso, o núcleo conta com 109 profissionais de psicologia e 109 de serviço social.
A abrangência do trabalho é impressionante: “Hoje a gente tem 628 unidades escolares em toda a rede do estado do Mato Grosso, e a gente trabalha com todas as unidades. A gente tem unidades escolares indígenas, unidades quilombolas, escolas do campo, escolas urbanas, várias escolas cívico-militares também”, relata.
Abordagens Inovadoras na Educação sobre Drogas
Uma das iniciativas mais significativas desenvolvidas por Ana e sua equipe foi a cartilha “Consciência e Responsabilidade: Desenvolvendo Competências Frente ao Uso Indevido de Telas, Tabaco, Álcool e Outras Drogas”. O material foi elaborado com a colaboração dos professores do GPED e busca oferecer uma abordagem diferenciada sobre o tema.
“Essa cartilha vem como algo que foi a pós-graduação que me deu essa base teórica. O curso preparou, de fato, para essa integração, para trazer para o âmbito da educação, para os educadores, para os servidores da educação, como abordar a temática”, reconhece Ana.
Um aspecto fundamental da abordagem proposta é a continuidade e integração do tema ao cotidiano escolar, superando as tradicionais ações pontuais. “A gente entende que essas temáticas devem ser trabalhadas o ano inteiro. Eu vou ter o dia D para falar sobre o bullying, eu vou ter o orientativo que falará sobre o bullying, mas ele também vai ser uma temática que vai ser trazida em outros momentos dos nossos orientativos”, explica.
O foco está no desenvolvimento de habilidades socioemocionais dos estudantes, indo além da mera exposição de informações sobre drogas. Recentemente, o núcleo também lançou uma campanha em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde, chamada “Desmistificando Narrativas Quando o Tabaco se Disfarça de Moderno”, que incluiu um webinário voltado para educadores.
Redução de Danos na Educação
A perspectiva da redução de danos é um elemento central no trabalho de Ana Talia. Sua aproximação com essa abordagem começou ainda na graduação: “Começa na graduação, quando ainda tinha esse interesse pela construção do coletivo de redução de danos. Participei de algumas formações de redução de danos para me tornar uma redutora de danos, mas em contexto festivo.”
Atualmente, Ana integra o coletivo Boa Viagem, o primeiro coletivo de redução de danos do Mato Grosso, que hoje é um projeto de extensão dentro da UFMT. Ela busca aplicar os princípios da redução de danos no contexto educacional.
“Quando ainda fazia estágio na mediação escolar, um dos nossos materiais que a gente estava desenvolvendo sobre como falar sobre drogas com adolescentes, na época a gente já tentava trazer essa lente da redução de danos para a educação, transcendendo essa ideia punitivista, essa ideia moralista”, relata.
Desafios e perspectivas
O trabalho desenvolvido por Ana e sua equipe tem encontrado boa receptividade nas escolas. “No primeiro orientativo, a gente teve uma adesão de mais de 75% das unidades escolares”, conta ela. No entanto, há desafios específicos, especialmente em contextos particulares como as escolas indígenas, onde algumas questões precisam ser abordadas de maneira diferenciada.
Um aspecto interessante da abordagem do núcleo é o respeito à autonomia das escolas. “São temáticas que estão nos nossos radares, são temáticas que cada vez mais a secretaria entende a urgência de debater, entende também essa necessidade de abordar a temática de forma que transcenda os programas tradicionais”, explica Ana.
Ela reconhece que nem todas as escolas se sentem contempladas pelos programas tradicionais de prevenção às drogas, como o PROERD. Por isso, o núcleo oferece alternativas:
“Quando eu falo que o diretor que não adere a esses tipos de programa, que eles têm autonomia, eles também encontram locais para abordar a temática. O material, o orientativo, ele vem dessa forma, são locais alternativos de você estar trabalhando, de você estar desenvolvendo ações de debate, ações de prevenções, ações de desenvolvimento de habilidades.”
Uma nova perspectiva para a Educação sobre Drogas
A conversa com Ana Talia Gregolin no Maconhômetro Educação revela como a educação sobre drogas pode ser abordada de forma mais integrada, contínua e humanizada nas escolas. Sua trajetória multidisciplinar, combinando psicologia, educação e redução de danos, permite uma visão ampla e inovadora sobre o tema.
As iniciativas desenvolvidas no Mato Grosso, sob sua coordenação, mostram que é possível superar abordagens meramente informativas ou proibicionistas, focando no desenvolvimento de habilidades socioemocionais e no respeito às particularidades de cada contexto escolar.
Como ela mesma destaca, a urgência de debater o tema das drogas nas escolas é cada vez mais reconhecida, mas é fundamental que isso seja feito de forma que transcenda os programas tradicionais, oferecendo alternativas que respeitem a autonomia das escolas e as necessidades específicas de seus estudantes.
O episódio completo do Maconhômetro Educação está disponível abaixo, nos principais agregadores de podcasts disponíveis, no Youtube do Cannabis Monitor e aqui também no site. Confira!
O Podcast Maconhômetro Educação é um projeto do Cannabis Monitor em parceria com o Grupo de Pesquisa Educação e Drogas (GPED), que é um grupo de pesquisa vinculado ao Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Você pode conhecer mais sobre ele, suas ações, projetos de pesquisa e pesquisadores em gped.net ou no perfil do Instagram @gped.uerj.
O ep. Educação #13 | Drogas e Cultura de Paz nas Escolas, com Ana Talia Gregolin contou com produção, roteiro e edição de Gustavo Maia (CM), e apresentação de Francisco Coelho e Maria de Lourdes da Silva (GPED/UERJ).







