Ser uma pessoa periférica e antiproibicionista é estar constantemente vivendo a metamorfose de si. O ato de estar morrendo e vivendo simultaneamente me faz questionar se nesse momento que estou escrevendo, estou mais viva ou mais morta? Quando foi que o tiro me atingiu?
Era outubro de 2025, mais de 130 pessoas foram assassinadas violentamente numa operação policial em uma favela do Rio de Janeiro e de forma simultânea, estava acontecendo uma guerra entre policiais e traficantes aqui em Belo Horizonte — enquanto isso, parei de escrever um artigo-memória sobre amigos que já perdi vítima de guerra às drogas, tentando convencer conhecidos a não sucumbirem ao tráfico, mas ou eles fazem isso ou morrem de fome.
São coisas que não exatamente tem uma conexão entre si, porém eu consigo claramente enxergar onde o Estado falhou para eu estar aqui escrevendo esse artigo. Eu vou em muitos eventos canábicos onde a maior discussão sobre a pauta é: “qual a diferença entre maconha ou cannabis medicinal?”. Sinceramente eu queria muito poder estar nessa discussão acirrada, mas como eu posso me importar com “flor ou prensado” se tem pessoa morrendo por conta de um baseado?
Mil perdões se você começou a ler achando que seria outro artigo sobre uma história emocionante de superação, mas nesse texto eu escolho sangrar em alto e bom tom — porque os meus o fazem em silêncio.
De acordo com o Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) em seu projeto “Drogas: quanto custa proibir?” só no ano de 2023 cerca de 6.393 pessoas foram mortas em decorrência da guerra às drogas, considerando um ano de 365 dias, são aproximadamente 17 mortes por dia. Quantos velórios será que já aconteceram hoje?
“Sinto tanta raiva que amar parece errado.“, já dizia Baco Exu do Blues
Minha luta não é somente por amor à planta, é ódio por uma necropolitica que se fantasia de guerra às drogas e se maqueia de vermelho-sangue alimentando estigmas, com seres que querem se assemelhar a deuses – decidindo quem vive e quem morre, no espelho vazio da vaidade que se forja de políticas públicas.
Por anos a reflexão que pairou em minha cabeça foi: “será que se eu tivesse acesso a tais informações, teria salvo alguém?” e a cruel conclusão que cheguei é que não, ninguém muda uma estrutura sozinho.
Tal política está presente na vivência latino-americana há um século, tão enraizada no cotidiano brasileiro que eu só comecei a ver a problemática quando comecei a frequentar espaços acadêmicos antiproibicionistas – até então, a violência policial era normalizada em rodas de amigos.
Conhecer alguém que já levou tapas, teve o corre roubado ou já foi forçado a comer um pedaços de pren era frequente, às vezes se tornava até piada interna – não tinha muito o que se fazer além de rir e bolar outro.
Eu costumo falar que a guerra às drogas na periferia se chama vida, ela está tão atravessada no dia-a-dia que vivem ela sem notar, quem pega 4 horas de condução e trabalha 12 (contando com empregos informais) não quer saber de necropolitica, quem é Richard Nixon ou dr. Pernambuco e isso não é desinteresse, é estratégia – “um homem sem conhecimento, é como um boneco manipulado”.
Estava revendo minha primeira fala em evento canábico em 2023, “a favela fica com a guerra e o centro com as drogas”, agora em 2026 só um acréscimo, os centros ficam com as substâncias e a informação.
Descolonizar o debate é fazer a informação descer para o asfalto e subir para o morro.







