É com grande satisfação que a Tem Reggae inicia esta coluna no Cannabis Monitor. Este novo canal de troca nasce com o propósito de conectar a cultura do Reggae à vanguarda da informação canábica, promovendo um diálogo necessário sobre uma planta que é, ao mesmo tempo, ancestral e o futuro da indústria. Para nossa estreia, não haveria tema mais oportuno: a cobertura da Expo Cannabis 2025.
Como dizem os poetas e reforça a ciência, “uma erva natural não pode te prejudicar”. No entanto, o preconceito ainda age como uma erva daninha, alimentando um fenômeno social complexo com raízes históricas e raciais que ofuscam o potencial medicinal e industrial da planta.
O cenário brasileiro e o protagonismo do autocultivo
Originalmente criada no Uruguai, a feira encontrou no Brasil um terreno fértil. Em novembro de 2025, o São Paulo Expo recebeu 45 mil visitantes e mais de 250 marcas. O grande destaque desta edição foi o autocultivo, tema que ganhou força após as recentes decisões do STF que alteraram o entendimento jurídico sobre a posse para uso pessoal no país.
Durante o evento, visitamos o estande da Netseeds, que ofereceu suporte especializado e acesso a bancos de sementes. Ali, constatamos uma realidade histórica: a proibição nunca freou o consumo, apenas evidenciou a ineficácia da repressão como controle social. Embora a descriminalização seja um marco necessário, ela ainda revela lacunas preocupantes:
- Desigualdade no Acesso: A regulamentação do cultivo doméstico permanece restrita a quem possui recursos técnicos e financeiros.
- Vulnerabilidade: O usuário hipossuficiente continua à margem da segurança jurídica e do controle de qualidade.
Sobre essa evolução do cenário, conversamos com o grower e ativista Rudnei Maciel. Em seu segundo ano de feira, ele ressaltou a importância do evento no âmbito informativo e tecnológico, mas pontuou a necessidade de mais acessibilidade. Rudnei destacou que as conexões humanas feitas ali são a chave para uma mudança positiva no futuro da cena canábica brasileira.
Um mercado de bilhões e a inovação nacional
A indústria brasileira mostra fôlego. Segundo a CNN Brasil, o mercado de cannabis medicinal atingiu R$ 971 milhões em 2025. Dados da Revista Exame projetam a criação de 300 mil empregos, alimentando uma cadeia que já conta com 1.500 growshops e 800 empresas medicinais.
Nesse cenário, visitamos o espaço da Bem Bolado, que reafirmou sua liderança através de uma postura que vai além da exposição de produtos. Como Patrocinadora Social, a marca focou na democratização, oferecendo transporte gratuito para o público e doação de cortesias para pessoas periféricas.
A Bem Bolado provou que uma marca líder pode ser uma parceira ativa na construção de um movimento mais abrangente e atento à representatividade.
Ciência, odontologia e práticas medicinais
No pilar científico, o foco foi a integração com a academia para validar a chamada “medicina que cura”.
- Extrações: A pesquisadora Polita Pepper (CANNATIVA) ministrou oficinas sobre concentrados medicinais sem solventes.
- Odontologia: As doutoras Joyce Bernardo e Rafaela da Rosa apresentaram casos de sucesso no uso de cannabis para controle de dor, inflamação e odontofobia em pré e pós-operatórios.
Ativismo e resistência: o Reggae como unidade
No campo dos direitos, movimentos como a Marcha da Maconha e a Marcha das Favelas foram protagonistas. Contudo, registramos a necessidade de melhor infraestrutura para esses coletivos, um deles ocupando espaço com visibilidade reduzida.
A resistência também veio da arte. Entrevistamos a cantora Sistah Wolf, que há mais de 20 anos atua no reggae/rap. Ela enfatizou a importância de “invadir” espaços ainda segregados e celebrou o Reggae como promotor da conscientização, citando a atemporalidade das letras de Bob Marley. Sistah também destacou o app SalvAe, um delivery inovador criado por Brenda Figueira, moradora do Complexo da Penha.
Ainda na seara artística, a música foi o fio condutor que uniu o público em torno da causa. Presenciamos apresentações de peso como a da banda Mato Seco, que com suas letras de resistência elevou a vibração do evento, e a energia de Victor Cena, que representa a renovação e a força da cena atual.
Essas atrações reforçam que o Reggae não é apenas entretenimento, mas uma ferramenta política de educação e propagação da cultura da erva.
Cânhamo industrial: Sustentabilidade do solo ao palco
O cânhamo mostrou sua força através da ABCCI e de inovações como:
- Música: O primeiro baixo brasileiro de fibra de cânhamo, usado por Luís Mauricio (Natiruts).
- Sustentabilidade: Itens da Casa Cânhamo Brasil e Eco Cannabica que economizam 90% da água em relação ao algodão.
Conclusão: Políticas públicas para a inclusão
O consenso entre expositores é claro: a maior barreira ainda é a desinformação. A Expo Cannabis 2025 retratou uma cultura pronta para ser integrada ao país, mas deixou um alerta: as inovações precisam chegar à periferia — a camada que mais sofre com a criminalização — através de políticas públicas inclusivas. O futuro é verde, mas precisa ser, acima de tudo, justo.
Nota: O evento opera sob rigorosos protocolos legais; a venda de produtos com THC para consumo imediato não é permitida no local conforme a legislação vigente.
Fontes: CNN Brasil, Revista Exame, Expo Cannabis Brasil, TV 247.








