No mais recente episódio do podcast Maconhômetro Debate, mediado por Monique Prado, convidados diretamente impactados pela violência policial nos complexos do Alemão e da Penha discutiram a operação que resultou na maior chacina da história do Brasil, ocorrida em outubro de 2025.
O debate contou com a participação da Deputada Estadual Dani Monteiro (PSOL), atual presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ; Brenda Figueira, ativista da Marcha das Favelas e empreendedora, moradora do Complexo da Penha; e Thainã de Medeiros, museólogo, jornalista e cofundador do Instituto Papo Reto.
Uma operação sem precedentes e seus impactos devastadores
A operação policial nos complexos do Alemão e da Penha mobilizou 2.500 agentes para cumprir 180 mandados de busca e apreensão e 100 mandados de prisão em uma área de 9 milhões de metros quadrados. Oficialmente, o objetivo era desarticular o Comando Vermelho e capturar seu líder, mas o resultado foi um verdadeiro massacre, com mais de 120 pessoas mortas, incluindo cinco policiais.
“Fica nítido também por parte do executivo, uma operação planejada, não planejada para acabar com o tráfico de drogas, para reduzir o poder do crime organizado, mas orquestrada para inclusive cometer crimes a partir do estado”, afirmou Dani Monteiro, destacando o caráter político da ação.
Os impactos da operação foram sentidos em toda a cidade do Rio de Janeiro. Dezenas de escolas e universidades tiveram aulas suspensas, o transporte público foi gravemente afetado, comércios fecharam e ruas ficaram desertas. “Durante a noite de terça, a cidade do Rio de Janeiro parou, toda a população foi impactada, milhares de pessoas aterrorizadas”, relatou Monique Prado.
Para os moradores das comunidades, a situação foi ainda mais grave. Dani Monteiro compartilhou que sua comissão recebeu “diversas denúncias dos moradores da região que vão desde o dia da operação, ou seja, aquilo que muitos conseguiram ver por vídeo, mas que as pessoas que moram ali sentiram na pele, que é o tiroteio, fumaça, incerteza da capacidade de ir e vir”.
Thainã de Medeiros foi categórico ao contestar a narrativa de que operações desse tipo trazem segurança: “Não existe segurança quando você vê um monte de fuzil o tempo todo, polícia o tempo todo, em lugar nenhum do mundo, isso é sensação de segurança.”
Narrativas contrastantes: celebração oficial versus realidade nas favelas
Enquanto as comunidades sofriam com a violência e o terror, o governo do Rio de Janeiro celebrava a operação como um sucesso. “Na sequência do horror, o governo do Rio de Janeiro se vangloriou da operação que considerou um sucesso, desumanizou os mortos e celebrou a matança”, destacou Monique Prado. Ela também apontou que o governador “recebeu o apoio de outros governadores fascistas em uma coletiva de imprensa ridícula” e que “sua popularidade e aprovação cresceram nas pesquisas de opinião”.
Dani Monteiro denunciou a manipulação de informações: “Desde o princípio é o governador maquiou, ele brincou de malabarismo com os números.”
O contraste entre as narrativas oficiais e a realidade vivida pelos moradores foi amplificado pela cobertura midiática. Enquanto as redes comunitárias e perfis de moradores expunham a chacina e mostravam o esforço dos próprios residentes para recolher os corpos deixados pelo estado, a mídia comercial apresentava uma narrativa que legitimava a ação policial e criminalizava os moradores das favelas.
Complexos do Alemão e da Penha: história, cultura e resistência
Durante o debate, os participantes também destacaram a importância histórica e cultural dos complexos do Alemão e da Penha para a cidade do Rio de Janeiro. Dani Monteiro ressaltou que “a região do alemão e da Penha é uma região que é impossível descontinuar a sua história, da própria história da cidade do Rio de Janeiro. Primeiro porque aquela região, ela é remanescente de terras indígenas que aqui existiam, e mais à frente de um Quilombo, e já no século passado foi um bairro operário, de forte investimento fabril.”
A deputada também destacou a dimensão dessas comunidades: “Os complexos do Alemão e da Penha, eles correspondem a um território com população maior do que 90% dos municípios do país. E que abriga uma história riquíssima.”
Thainã de Medeiros compartilhou sua conexão pessoal com a região:
“Falar da Penha pra mim é sempre um grande orgulho. Se tem um lugar nesse mundo, assim, que eu amo bastante, é a Penha inteira. A minha família toda vem da Penha, meus 2 avôs construíram casas ali, meu pai nasceu na Penha, minha mãe nasceu na Penha, meus tios e tias nasceram na Penha e aí eu tenho parentes espalhar em todos os lugares ali da Penha.”
Brenda Figueira, moradora do Complexo da Penha, descreveu sua conexão com a comunidade de forma simples e direta: “Minha conexão com o complexo da Penha é como qualquer outro morador. É a vivência, é os moradores, a cultura, o nosso baile funk.”
Violações de direitos humanos e denúncias
As denúncias de violações de direitos humanos durante a operação foram numerosas e graves. Monique Prado destaca os assassinatos com requintes de crueldade e relatos de violência e abusos de poder cometidos pela polícia contra os moradores, incluindo acusações de agressões contra uma mulher grávida, incêndio provocado por um policial e a proibição de prestação de socorro às vítimas.
Dani Monteiro, como presidente da Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, relatou que a comissão é muito procurada “porque os moradores não conseguem acessar diversas regiões onde eles acreditam que tem pessoas mortas, e de fato, isso ocorre…”
Na semana seguinte à operação, foram noticiados casos de policiais presos por terem roubado pertences de moradores e fuzis que deveriam ter sido apreendidos, confirmando as denúncias de abusos e crimes cometidos pelos agentes do Estado.
A perspectiva antiproibicionista e a guerra às drogas
O debate também abordou a relação entre o proibicionismo e a violência nas favelas. Dani Monteiro destacou que “quando a gente fala do antiproibicionismo, a gente fala sobretudo do combate à violência e da redução das taxas de criminalidade. Então esses debates não deveriam causar impacto dessa forma, pela dor. Mas eles, institucionalmente são ligados.”
A deputada questionou a eficácia das operações policiais em termos de segurança pública: “Eu quero perguntar pra todo mundo que tá aí nos escutando o quanto que a sensação de segurança realmente aumentou de lá pra cá. E o quanto que você está de fato se sentindo seguro.”
Essa reflexão aponta para o fracasso da política de guerra às drogas como estratégia de segurança pública, evidenciando como o proibicionismo alimenta ciclos de violência que afetam desproporcionalmente as comunidades periféricas.
Movimentos sociais e a luta por direitos
Os participantes também compartilharam suas trajetórias de engajamento em movimentos sociais e na luta por direitos nas favelas. Brenda Figueira relatou como sua jornada de empreendedorismo a levou ao ativismo:
“Eu não fazia parte, como outros moradores também, não me reconhecia nesse espaço, não entendia o porquê eu deveria lutar. Pra mim, o movimento social, essas coisas, acabava que não se encaixava na minha realidade, na minha rotina, mas eu me identifiquei muito com a Marcha das Favelas. Um movimento social que eu me identificava e que estava lutando pelos nossos direitos. Mas, principalmente, desse direito que eu estou exercendo aqui, de ser uma pessoa favelada ocupando um espaço, podendo falar da realidade que ela viveu.”
Thainã de Medeiros compartilhou como um evento pessoal o levou ao ativismo:
“Em 2013, a casa da minha família no morro do Caracol desmorona. E é um momento em que eu vejo uma grande onda de solidariedade ao redor de mim. Muitas pessoas me oferecendo coisas, fazendo coisas. E ali, de fato, eu entro de cabeça nessa militância. Estudei tanto pra trabalhar quietinho, tranquilo, dentro de um museu. Hoje em dia eu estou na pista, na rua, nas favelas, dos guetos, e é isso aí.”
O papel do Estado e o futuro das comunidades
Dani Monteiro encerrou sua participação com uma reflexão poderosa sobre a relação entre o Estado e as favelas: “Como diria Florestan, o problema nunca foi do negro ou parafraseando, nunca foi do favelado em pertencer a sociedade brasileira, que afinal, sem o favelado essa sociedade não funciona. O problema sempre foi do estado chegar até a favela.”
A deputada criticou as operações espetaculosas que não trazem melhorias reais para as comunidades: “Não adianta fazer bravatas com mortes em cima de sangue favelado, porque no dia seguinte não tem estado preocupado. No dia seguinte, é o serviço público fechado, é comerciante tendo prejuízo e os serviços mesmo da favela e os direitos sendo precarizados.”
Essa análise ressalta a necessidade de políticas públicas que realmente atendam às necessidades das comunidades, em vez de operações policiais violentas que apenas perpetuam ciclos de violência e exclusão.
O episódio do Maconhômetro Debate sobre a chacina nos complexos do Alemão e da Penha trouxe à tona vozes e perspectivas fundamentais para compreender não apenas o evento em si, mas também o contexto histórico, social e político em que ele se insere.
Através das falas de Dani Monteiro, Brenda Figueira e Thainã de Medeiros, mediadas por Monique Prado, o debate evidenciou como a guerra às drogas tem sido usada para justificar violações de direitos humanos e perpetuar a violência contra comunidades periféricas.
A discussão também destacou a importância da representatividade e da atuação dos movimentos sociais na luta por direitos e na construção de narrativas que contraponham os discursos oficiais e midiáticos que criminalizam os moradores das favelas.
Em um contexto em que operações policiais violentas são celebradas e ganham apoio popular, vozes como as dos participantes deste debate são essenciais para questionar o status quo e propor alternativas baseadas no respeito aos direitos humanos e na justiça social.
🎧 O Podcast Maconhômetro Debate está disponível nas principais plataformas de áudio. Você também pode ouvir no player abaixo, aqui no site do Cannabis Monitor e no YouTube.
Maconhômetro Debate
O Podcast Maconhômetro Debate é um projeto do Cannabis Monitor em parceria com a Plataforma Brasileira de Política de Drogas, com a proposta de contextualizar e aprofundar temas relevantes envolvendo a maconha e a política de drogas no Brasil e no mundo.
O ep. Debate #44 | A maior chacina da história do Brasil, com Dani Monteiro, Brenda Figueira e Thainã de Medeiros, contou com produção, roteiro e edição de Gustavo Maia (CM), e apresentação de Monique Prado (CM).






