Ontem a tarde, enquanto retornava da minha última prova de ironman em Aracajú, minha presença digital, construída ao longo de anos, com responsabilidade, diálogo público e trabalho social, foi simplesmente apagada por uma decisão algorítmica.
Meu perfil @atleta.cannabis foi suspenso pelo Instagram, e, como num efeito dominó digno de um pesadelo kafkiano, todas as contas associadas ao meu nome desapareceram junto: minha conta pessoal, a da minha empresa e até perfis das minhas filhas de 9 e 6 anos, que nada têm a ver com política de drogas ou produção de conteúdo adulto. O Facebook caiu. O Threads caiu. Eu desapareci das plataformas da Meta.
É difícil imaginar um retrato mais claro da desumanização total das redes sociais, que hoje terceirizam decisões de enorme impacto para sistemas automatizados de inteligência artificial sem supervisão humana eficaz. O que aconteceu comigo não é um caso isolado, e é justamente isso que torna a situação tão grave.
Um déjà-vu jurídico: quando nem vencer na Justiça é o suficiente
Três anos atrás, vivi algo parecido. Minha conta havia sido suspensa também sem justificativa consistente. Entramos com ação judicial, apresentamos provas, demonstramos que meu conteúdo era educativo, jornalístico e voltado ao bem-estar. Ganhei o processo, uma indenização e o juiz determinou a restituição da conta, reconhecendo que houve abuso por parte da plataforma.
Mas, em 2025, aqui estou novamente, tendo que recomeçar a batalha contra uma máquina que insiste em reproduzir os mesmos erros. A Meta, mesmo condenada anteriormente, voltou a derrubar meu perfil e ainda arrastou junto todas as demais contas conectadas ao meu nome. Não se trata apenas de um erro técnico: é a repetição de um padrão estrutural de perseguição algorítmica relacionado ao tema cannabis.
Automação sem humanidade: o algoritmo como carrasco
As Big Techs têm vendido ao mundo a promessa de que inteligência artificial garante segurança, consistência e decisões imparciais. A realidade é outra. Para temas sensíveis, cannabis, saúde, sexualidade, redução de danos, direitos humanos, a automação costuma agir com mão pesada e pouco inteligente.
Plataformas como Instagram e Facebook treinam seus modelos para detectar palavras-chave, imagens e contextos de “risco”. Muitas vezes, tudo o que foge da normatização americana, branca e conservadora é marcado como violação. O resultado é um sistema punitivo que opera com culpa presumida, não com análise contextual.
Isso explica por que perfis educativos sobre cannabis são bloqueados a todo momento, enquanto contas que realmente violam guidelines (vendendo drogas ilícitas, ostentando armas, explorando sexualidade infantil ou disseminando discursos de ódio) seguem intactas por meses, às vezes anos.
Casos semelhantes: quando o sistema pune quem informa, não quem infringe
Basta olhar para o histórico de influenciadores, ativistas e profissionais ligados ao debate sobre cannabis:
- O perfil da Kaya Mind, referência em dados e economia da cannabis, também enfrentou bloqueios injustificados.
- O Sechat, portal jornalístico, tem conteúdos rotineiramente classificados como “sensíveis”, apesar de serem reportagens.
- Diversos ativistas brasileiros (do cultivo doméstico à luta por pacientes) enfrentam shadow ban, suspensões e exclusões sem aviso.
Enquanto isso, contas que claramente violam as diretrizes seguem publicando livremente conteúdo que desinformaria até um algoritmo mal-treinado. Parece seletividade. Mas na verdade é pior: é ignorância automatizada, amplificada por decisões internas que tratam cannabis como tabu universal, ignorando legislações locais, debates públicos e usos médicos reconhecidos pela própria ONU desde 2020.
O impacto real: contratos, pacientes e a vida profissional afetada
A suspensão não é só um golpe emocional, é um ataque direto à minha atividade profissional. Eu tenho contratos com marcas de wellness, empresas sérias, produtos regulamentados. Tenho responsabilidade com pacientes, muitos deles buscando acolhimento, orientação, compreensão e informação qualificada sobre cannabis medicinal e qualidade de vida. Alguns desses pacientes estavam em acompanhamento contínuo comigo via redes.
Quando a plataforma apaga minha existência, ela apaga também o acesso dessas pessoas ao cuidado que eu ofereço.
A Meta não quer discutir isso. Não quer entender contexto. Não quer avaliar conteúdo com lente humana. Ela se esconde atrás de “violação automatizada”, como se isso fosse justificativa suficiente para prejudicar a vida de alguém.

Por que sempre a Justiça?
Esse é o ponto mais revelador: a única forma de resolver casos assim é indo à Justiça. Não existe canal humano. Não existe conversa. Não existe revisão séria. A Meta só reage quando é intimada judicialmente, e, mesmo assim, reincide. É como enfrentar um muro cheio de sensores, sem portas, com respostas automáticas que não fazem sentido.
As plataformas foram construídas para escalar receita, anúncios e vigilância, não para dialogar com usuários. O discurso de “comunidade” é, no fundo, uma ilusão.
A politização invisível da moderação
Outro ponto raramente discutido: quando se trata de cannabis, a automação das Big Techs reproduz preconceitos culturais. Os algoritmos são treinados majoritariamente com datasets norte-americanos, onde a palavra “cannabis” ainda é filtrada junto de “drug abuse”. Essa interseção enviesada faz com que conteúdos educativos, médicos, esportivos e até jornalísticos sobre cannabis sejam punidos indistintamente.
E quem perde? Médicos. Pacientes. Pesquisadores. Pequenos empreendedores. Ativistas. E qualquer um que tente furar a bolha da desinformação estatal ou corporativa sobre políticas de drogas.
Meu caso é apenas mais um capítulo nessa história, mas agora com um agravante: a invisibilidade total. Ao derrubar todas as minhas contas, inclusive as das minhas filhas, a Meta sinaliza que nenhum limite ético é respeitado quando a automação decide agir.
A suspensão do meu perfil @atleta.cannabis e de todas as minhas contas associadas não é apenas uma injustiça pessoal, é um alerta urgente. As plataformas que dominam a comunicação global hoje operam com sistemas automatizados que não entendem contexto, não reconhecem trabalho social e não sabem diferenciar informação de infração. O resultado é um processo profundamente desumanizado, opaco e perigoso.
Eu vou novamente recorrer à Justiça. Mas não é razoável que cidadãos precisem judicializar sua existência online para continuar trabalhando, informando e acolhendo pessoas. Isso não é “política de comunidade”. Isso é censura algorítmica.
E, se a decisão é injusta, arbitrária e sem sentido, a resposta precisa vir da sociedade, com barulho, com visibilidade e com pressão.
Por isso, peço: se você acredita em informação de qualidade, em direitos digitais, em transparência e em liberdade de expressão responsável, manifeste-se nas redes e peça a volta do perfil @atleta.cannabis.
Sem isso, a máquina seguirá apagando vozes importantes em silêncio.







